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Alerta Sonoro: Interpretando HERO (Chad Kroeger)

Às vezes eu escuto a mesma música dezenas de vezes, sem reparar muito no seu significado, até que de repente tenho uma epifania e parece que entrei na mente do autor. E foi isso exatamente o que aconteceu há alguns meses com Hero, música de Chad Kroeger que ficou conhecida por ser o tema do primeiro filme do Homem-Aranha, em 2002 (aquele sim o filme definitivo do Aranha, mas disso o Alexandre já falou).

Como o videoclipe dessa música, contando com diversas cenas do aracnídeo, foi extensivamente exibido na TV na época, a ideia que ficou na cabeça de todos é que essa era simplesmente uma música sobre o Homem-Aranha. Porém, pelo que consta nas Internets, Hero foi escrita um bom tempo antes da produção do filme, e estava esperando uma oportunidade de ser lançada, já que teria sido rejeitada pelo Nickelback, banda em que Chad Kroeger é vocalista. Sendo assim, não se trata de uma música escrita sob encomenda para o filme, tampouco eu diria que tem a ver com o universo dos super-heróis, pelo menos não literalmente.

Para mim, Hero é uma música de questionamento sobre religião. Ou melhor, sobre a relação que as pessoas têm com a religião, mais especificamente com o cristianismo (já que o autor é norte-americano), e com expectativas equivocadas em torno de um grande herói que viria salvá-las: Jesus Cristo. Mas se você já está ficando meio incomodado com o que estou dizendo, calma! Vamos analisar a letra (valeu, Letras.mus.br):

Em meio a uma bebedeira (na melhor das hipóteses), o eu-lírico, está tão entorpecido que sente que consegue “ouvir os céus”. Diversas seitas ao redor do mundo se utilizam de substâncias químicas para atingir uma suposta iluminação ou contato com o mundo espiritual, mas aqui o autor simplesmente parece estar em meio a um transe mundano, onde se pergunta, revoltado, o motivo de os céus nunca atenderem suas preces ou responderem de forma imediata. Convenhamos, é um pensamento que você pode já ter tido em meio a alguma crise ou dificuldade que abalasse o seu estado emocional.

Desiludido, nosso amigo se recusa a acreditar que basta esperar por um ser superior que está para, um dia, descer dos céus e salvar as almas de todos. Em vez disso, ele prefere se apegar a algo que pode ver, traçando no voo das águias um paralelo com as ações que as próprias pessoas podem fazer em vida, e alcançar resultados efetivamente altos. Basicamente, ele diz que não faz sentido em ficar parado e esperando, e é melhor “aprender a voar”.

Nesse trecho temos o cutucão mais claro com relação à religião – ou ao mau uso dela para justificar matanças pelo mundo afora. Hoje em dia podemos dizer que isso só acontece no Oriente Médio, mas o próprio Cristianismo foi motivo de muita perseguição e morte na Idade Média e na colonização do Novo Mundo. Mas não precisamos ir tão longe, quando observamos quanta intriga é causada por diferenças religiosas. É até irônico se considerarmos que a mensagem principal de Jesus era “amar o próximo como a si mesmo” – e essa parece ser a reflexão provocada por Chad Kroeger.

 

Justamente esse amor ao próximo que as pessoas esquecem de aplicar no seu dia-a-dia que parece ser mencionado nesse trecho. A preocupação em ir à igreja, dizer “amar Jesus” e garantir uma vaga nos Céus parece muito maior do que tentar aplicar toda essa religiosidade no dia-a-dia, no contato com as pessoas, e fazer do próprio mundo um lugar melhor. É preferível esperar pelo Apocalipse, que fanáticos prometem de cinco em cinco anos, e esperar o retorno de Jesus que irá salvar a todos, que se importar em aplicar esse conceito transformado em uma palavra tão banalizada – o AMOR – em algo prático e real em nossas vidas.

Sobre o trecho final, eu realmente não tenho uma ideia muito clara de quem seriam “eles” que estão nos assistindo voar. Podem ser simplesmente as águias, seres livres do reino animal que vivem de forma simples sem criar dogmas e regras para sua própria existência, que acabam por criar ainda mais conflitos no final das contas. Enquanto estamos aqui desesperados procurando sentidos para a vida e “salvação” aqui e ali, as águias simplesmente nos observam em toda essa confusão. E nós voamos longe também, mas não da mesma forma que elas.

 


     
 

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