Crítica: As Boas Maneiras

Terror nacional é cheio de boas intenções, mas, tem uma execução extremamente didática

É sempre bom ver que o cinema brasileiro está se arriscando, cada vez mais, em outras searas que não sejam apenas o drama, as cinebiografias ou as comédias de costumes. A sétima arte é muito mais ampla e repleta de possibilidades, e, por isso, chega a ser incompreensível que, nos dias atuais, não tenhamos, por exemplo, ótimos filmes de terror ou de ficção científica sendo feitos em nosso país com bastante frequência.

Evidentemente que o público precisa (e deve) prestigiar quando surge alguma produção, digamos, fora da curva, como é o caso deste As Boas Maneiras. Nesse sentido, ponto para a coragem de seus realizadores, os diretores e roteiristas Juliana Rojas e Marco Dutra, que procuraram fazer algo diferenciado. O grande problema, porém, é que não bastam boas ideias para fazer um bom filme, e sim, uma realização que faça jus a um argumento fascinante.

E, As Boas Maneiras padece desse mal, infelizmente.

Podemos dizer que o filme é, nitidamente, dividido em duas partes que só dialogam entre si por causa da temática e dos personagens, mas, que são bem diferentes em termos de qualidade. Na primeira metade, o que mais pesa contra a produção são seus diálogos e atuações. É tudo esquemático e didático ao extremo, com falas bastante expositivas, e interpretações muito robóticas, em especial, de Isabel Zuaa.

Além disso, a própria direção de Rojas e Dutra parece engessada demais, com planos muito estáticos, o que evidencia ainda mais os fracos diálogos e as atuações sem brilho. Nesse ponto, ao menos, a parte técnica, que é muito bem feita, fica em evidência, com alguns planos abertos interessantes, e uma fotografia que privilegia tons mais escuros, conseguindo dar uma aura sinistra e estranha na decorrer da trama.

Porém, o roteiro em si, e não a sua premissa propriamente dita, não consegue narrar os fatos de maneira natural, espontânea, fluida. Simplesmente, custamos a nos ambientar na história (o que só acaba sendo feito mesmo devido à parte técnica), e passamos boa parte do tempo sem nos importar com aqueles personagens.

Personagens, esses, que, por sinal, poderiam ter sido melhor trabalhados.

A trama aposta demais na obviedade da questão de classes ao colocar uma mulher rica e branca (Ana) contratando uma empregada negra e humilde (Clara). O problema, nesse aspecto, é achar que utilizar tais estereótipos, para “quebrá-los” depois, daria uma boa análise da questão classista, colocando uma das personagens em situação mais vulnerável e outra sendo mais forte e determinada. No final, porém, acaba ficando simplório, raso demais.

A questão da maternidade e dos relacionamentos afetivos são outros temas que tentam encontrar espaço em uma narrativa “quebrada” demais, através de metáforas e simbolismos que só vão dizer alguma coisa realmente relevante na segunda metade da produção, quando temos, de fato, um “outro filme”, esse mais orgânico e natural do que o anterior, mas, ainda com algumas falhas pontuais.

Mesmo assim, nesse segundo momento, As Boas Maneiras encontra um tom mais adequado, com diálogos mais espontâneos e atuações bem melhores (em especial, de Miguel Lobo, numa interpretação digna de gente grande). É quando passamos a entender melhor a personalidade de Clara, uma das protagonistas da história, uma pessoa tão solitária que chega ao ponto de arriscar a própria vida para ter ao seu lado uma “lembrança” do seu grande amor.

No entanto, mesmo com um enredo melhor definido, essa segunda metade do filme não foge do didatismo, muitas vezes, banal e óbvio demais, em cenas que chegam a ser constrangedoras (vide a sequência onde Clara alisa uma foto de Ana ao som de um sertanejo universitário). Salvam-se ainda a parte técnica (um dos pontos mais criativos do filme, sem dúvida) e os efeitos visuais, que se não chegam a ser um primor, também não comprometem.

Alguns outros elementos da trama poderiam ter sido mais bem construídos, como o uso de ilustrações para mostrar flashbacks importantes, além da utilização de canções, que, aqui, ao invés de narrarem a continuidade de uma história, apostam mais na exteriorização de sentimentos que já estavam bastante nítidos ali, o que acaba causando mais estranhamento do que emoção.

O que se percebe em As Boas Maneiras é que os seus realizadores quiseram falar sobre inúmeros temas ao mesmo tempo, tendo como pano de fundo uma história de lobisomem. Só que, para abordar tais assuntos, escolheram a maneira mais fácil, simplista e didática possível. Sutilezas importantes para esse tipo de enredo acabaram se perdendo no meio do caminho, e, no final das contas, nem o terror assusta, nem o drama emociona.

Bom saber que mais e mais pessoas no meio cinematográfico nacional estão interessadas em “sair da caixa”, em buscar novas e interessantes temáticas para os seus trabalhos. O que se precisa, agora, no entanto, é de um pouco mais de cuidado na hora da execução de projetos como esse. Com mais naturalidade e um pouco de sutileza, talvez possamos imergir nesse tipo de universo com mais vontade.

Erick Silva

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