Crítica: Existiu Um Eu Que Jurou Nunca Te Esquecer

Vivemos numa época estranha. Se antes o sistema considerava que existíamos graças aos documentos de registro e outros tantos de identidade, hoje, com o boom das redes sociais e a massificação da internet no século 21, o sistema (do capital), de certa forma, passou a ignorar os documentos em papel e considera que existimos graças aos perfis que mantemos em redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas. Ora, as redes são mecanismos bastante úteis para traçar o perfil de consumo. E, se eu não tenho poder de compra e de consumo, minha inexistência é taxativamente certa.

Dessa forma, com tal configuração vingando, é 'natural' que a estudante de ensino médio japonesa Azusa Oribe (Akari Hayami) não exista. Sem ter perfis em redes sociais, e-mail ou telefone, Azusa é uma "Jane Doe" (expressão americana para designar mulheres que tecnicamente não existem ou não possuem registro identitário). Mesmo sendo uma Jane Doe, Azusa acaba por encantar o também estudante Takashi Hayama (Nijiro Murakami), garoto de classe média que estuda no mesmo colégio que ela.

"Quem não é visto, não é lembrado". Essa expressão cai como uma luva para a nossa Jane Doe. Seu problema é que por não se adequar aos padrões vigentes da sociedade cibercultural e globablizada, ninguém se lembra dela. Mesmo que como metáfora, essa é a crítica intrínseca que o filme deixa: para existir, você, eu, Azusa ou Takashi deveríamos possuir ao menos um e-mail, um celular/smartphone, uma conta no Facebook. Não tendo nada disso, somos só um amontoado de Jane/John Doe(s).

Ninguém consegue lembrar de Azusa por mais que apenas algumas horas. Mas Takashi, relutante e apaixonado, resolve ignorar o que Azusa tem (nesse caso, não tem) para que eles possam vivenciar algo.

Existiu um eu que jurou nunca te esquecer é um filme bastante econômico em seus gestos. Olhares, movimentos delicados de cabeça e alguns sinais que as personagens nos dão só vão ser realmente captados por nós depois da reviravolta e plot twist final e, caso queiram, depois de se rever o filme. A bem executada ponte para com a afetividade na terceira idade é algo que traz outra camada de reflexão sobre o tempo, sobre o amor e sobre a finitude dos sentimentos e das pessoas.

Existiu um eu que jurou nunca te esquecer, ou Forget Me Not, seu título em inglês, é um filme casual, simples, básico: por isso mesmo, sua potência está justamente naquilo que ele deixa de dizer e, principalmente, naquilo que o filme deixa de mostrar. É ver para entender. Ou crer.

Jônatas Andrade

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