Crítica: A Forma da Água - Por Thomás Boeira

Ao longo de sua carreira, o diretor Guillermo del Toro já demonstrou algumas vezes ter apreciação por figuras marginalizadas, além de mostrar que os próprios seres humanos são capazes de serem verdadeiros monstros. Blade e Hellboy eram heróis que ajudavam a proteger uma sociedade que provavelmente tentaria queima-los em uma fogueira se soubessem de sua existência, dando voz ao próprio medo, ao passo que filmes como A Espinha do Diabo, O Labirinto do Fauno e A Colina Escarlate lidam com fantasmas e outros seres fantásticos, mas sem encará-los como as ameaças de suas histórias, papel exercido por humanos poderosos e odiosos. Esses pontos de interesse do diretor ajudam a reger este A Forma da Água, uma grande fábula na qual ele mais uma vez exibe sua grande visão e imaginação.

Escrito pelo próprio Guillermo del Toro em parceria com Vanessa Taylor, A Forma da Água nos leva até o início da década de 1960 e apresenta Elisa Esposito (Sally Hawkins), mulher muda que trabalha no setor de limpeza de um laboratório do governo e tem como únicos amigos o vizinho homossexual Giles (Richard Jenkins) e a colega Zelda (Octavia Spencer). Levando uma vida relativamente simples, Elisa vê sua rotina sofrer uma reviravolta quando um homem anfíbio (Doug Jones) é trazido ao laboratório para ser estudado, sofrendo torturas pelas mãos do coronel Richard Strickland (Michael Shannon). Aos poucos, Elisa se aproxima do ser recém-descoberto, iniciando um relacionamento no qual ambos parecem ser os únicos capazes de entender um ao outro.

Podemos notar rapidamente que Guillermo del Toro parece ter buscado inspiração em A Bela e a Fera, seguindo mais ou menos o mesmo caminho de Tim Burton em Edward Mãos de Tesoura. No entanto, del Toro usa a premissa não só para desenvolver o romance entre a protagonista e o homem anfíbio, mas também para explorar os preconceitos da sociedade e que afloram, principalmente, na figura de Richard Strickland. Nesse sentido, considerando que temos uma muda, um homem anfíbio, um homossexual e uma negra entre os personagens pelos quais torcemos ao longo da projeção, o diretor faz em A Forma da Água uma espécie de levante das minorias contra aqueles que as oprimem.

Del Toro conduz tudo isso com sensibilidade, sabendo inclusive equilibrar momentos dramáticos com outros mais divertidos, sendo que a narrativa fabulesca concebida pelo diretor é tão cheia de doçura que é possível ver na tela o carinho dele por essa história e pelos personagens, algo que não deixa de ser ressaltado pela linda trilha de Alexandre Desplat. Além disso, como é comum nos trabalhos de del Toro, a parte puramente técnica e estética do filme é de encher os olhos. O design de produção, por exemplo, é hábil ao conceber os lares de Eliza e Giles como lugares simples, mas aconchegantes e cheios de calor humano, enquanto que o laboratório que resguarda o homem anfíbio surge de maneira intimidante, e a excelente fotografia de Dan Laustsen trata de drenar a vida daquele local ao apostar em cores frias, revelando muito sobre a natureza de quem comanda tudo por ali.

Já o ótimo elenco faz um trabalho formidável com seus personagens. Se Richard Jenkins e Octavia Spencer conferem um carisma arrebatador e uma grande força de caráter a Giles e Zelda, tendo também uma bela dinâmica de companheirismo com a protagonista, Michael Stuhlbarg se destaca ao fazer do cientista Robert Hoffstetler um homem capaz de sacrificar a própria integridade moral a fim de fazer o que acredita ser certo (aliás, considerando sua participação memorável em Me Chame Pelo Seu Nome e a outra menor em The Post, Stuhlbarg pode se orgulhar bastante de seu 2017). E se Michael Shannon usa sua persona rígida e um tanto insana para fazer de Richard Strickland um vilão apropriadamente odiável e frio, mas jamais unidimensional (reparem que ele não exibe reação nem quando recebe um simples beijo do filho pequeno), Doug Jones traz uma humanidade essencial ao homem anfíbio mesmo com toda a excelente maquiagem usada para conceber o personagem visualmente. Mas o filme pertence mesmo a Sally Hawkins, que surge em uma de suas melhores atuações, conseguindo fazer de Elisa uma mulher que conquista a simpatia do público com sua bondade e determinação, estabelecendo-a como uma protagonista extremamente forte ainda que sua aparência e sua mudez apontem vulnerabilidade.

Mas é exatamente disso que a fábula de A Forma da Água se trata. Aparências não são nada quando comparadas com o que temos em nossos corações. E é bom ver Guillermo del Toro mostrar isso de maneira rica em mais um longa de destaque, celebrando o amor e a empatia e condenando o ódio e o medo que tanto nos atrasam como sociedade.

Thomás Boeira

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