Crítica: A Forma da Água

Quando o mundo está cada vez mais imerso no cinismo, ele precisa de fábulas. São nos contos fantásticos que, muitas vezes, encontramos as alegorias necessárias para entendermos um pouco mais quem nós somos, ou quem não devemos ser. Soa um tanto moralista, é verdade, mas, a depender da intenção dos seus realizadores, as fábulas apenas expressam a necessidade de observarmos as coisas mais simples e singelas que estão ao nosso alcance. Doze anos depois de sua fantástica alegoria sobre a guerra e as relações familiares, o cineasta mexicano Guillermo Del Toro volta o seu olhar para a questão fundamental da comunicação como forma de aplacar a solidão.

A Forma da Água tem tudo o que se espera de um filme de Del Toro: criaturas fantásticas e, aparentemente, aterrorizantes assumindo virtudes humanas, seres humanos patéticos e detestáveis, e a fantasia como maneira de suavizar uma realidade triste e desesperançosa. Só que tudo, de certa forma, mais irônico. Um bom exemplo disso é o personagem de Michael Shannon (em atuação sensacional), chamado Strickland, um militar linha dura, machista e arrogante. Mas, ao mesmo tempo, quando confrontado por seus superiores, mostra toda a sua fragilidade, e se transforma quase que numa criança acuada e assustada, o que torna o personagem quase um retrato fiel de muitos homens dos tempos atuais: pai de família, aparentemente íntegro, preconceituoso e prepotente, mas, que esconde inúmeras fraquezas em seu interior. Uma bela crítica que o filme transmite (involuntariamente ou não).

Já, a personagem de Sally Hawkins (numa atuação igualmente perfeita), Eliza, é o oposto de Strickland: uma garota meiga, porém, que não esconde a sua profunda solidão, mesmo morando com um amigo que conversa sempre com ela. No trabalho como faxineira possui uma amiga que fala pelos cotovelos. Detalhe: Eliza é muda, portanto, a sua comunicação, por ser mais gestual, tem uma certa dificuldade de atingir as pessoas ao seu redor. Tudo muda quando, no local onde trabalha, uma espécie de laboratório do governo, trazem uma estranha criatura marinha, por quem Eliza começa a ter um inusitado, mas, tocante relacionamento. E, é nessa criatura que ela encontra o amor que buscava, cuja comunicação, incrivelmente, acaba sendo mais natural e orgânica do que com muitos humanos.

O filme é repleto de metáforas e alegorias. Uma delas, por exemplo, faz menção à primeira palavra que Eliza ensina à criatura: ovo. E, um ovo, simbolicamente, significa renascimento, algo muito forte para os dois personagens, que, ao se conhecerem, terão suas vidas mudadas completamente. A produção também usa e abusa do tom monocromático de algumas cores, em especial o azul, por simbolizar a água, e o verde, que representa a esperança e o futuro. Numa cena em especial, Strickland vai comprar um carro, mas, reluta em fazê-lo porque ele é da cor verde, da qual ele tem aversão. É então que o vendedor lhe diz que aquele tipo de carro é para um homem de futuro feito ele. Sendo que, como já podemos perceber à essa altura, Strickland não é um homem de futuro, e sim, bastante retrógrado.

Como sempre acontece nos filmes de Del Toro, a narrativa é deveras envolvente, e não importa que o longa tenha duas horas de duração, pois tudo se passa muito rápido, e de maneira orgânica, em especial, o primeiro e o segundo atos. Ponto negativo fica somente para alguns momentos que soam "convenientes" demais ao roteiro, colocando personagens certos nos locais certos, na hora certa. Não chega a ser algo que estrague a experiência de assistir ao filme, porém, um pouco mais de cuidado e ousadia na hora de algumas decisões da trama teria deixado tudo ainda com mais força e catarse para o espectador. Outra questão que talvez soe estranha para os fãs de Del Toro é que aqui temos cenas bem gráficas de sexo e nudez. Não que tais sequências não estejam devidamente interligadas à trama (estão, sem dúvida), nem que sejam, necessariamente apelativas. No entanto, sem esses aspectos, o filme continuaria excelente de todo o jeito, o que prova que essas cenas estão "sobrando" na produção.

Outro aspecto que chama a atenção, mas, destra vez, de forma positiva, é como a arte do cinema é homenageada aqui. Pelo fato de Eliza morar em cima de um antigo cinema, essa a deixa perfeita para assistirmos a algumas cenas onde a sala do local exibe filmes de outrora, com toda aquela magia e encanto peculiares da época. Por sinal, uma das mais bonitas sequências de A Forma da Água é um devaneio que a protagonista tem, com base nos antigos musicais de Hollywood. Visualmente, o filme é impecável, com uma bela reconstituição de época, efeitos especiais econômicos e bem práticos, além, é claro, da aparência da criatura, mais uma vez "interpretada" pelo ator Doug Jones, contumaz colaborador de Del Toro, o homem por detrás do Fauno e do Homem Pálido, por exemplo.

Como cineasta, Del Toro mostra que é mestre no que faz. Seu jogo de câmeras, seus closes, suas tomadas "inusitadas", tudo converge para contar uma ótima história, carregada de sentimento, e até crítica em certos aspectos (principalmente, na ridicularização à figura masculina e aos militares, sejam de qual nacionalidade forem). Mas, ao final, temos mesmo é uma bonita fábula, violenta e cruel, às vezes, mas, que dialoga bastante com a nossa necessidade de comunicação, de nos relacionarmos, mesmo com alguém que seja "diferente", mas, que consiga construir uma espécie de elo conosco. Num mundo atual onde a construção de muros (reais ou ideológicos) é tão forte, A Forma da Água veio no momento certo.

Erick Silva

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