Crítica: Kong: A Ilha da Caveira

Tendo impressionado o público quando surgiu nas telonas pela primeira vez em 1933 e se tornado desde então um dos monstros mais famosos do cinema, ao lado de Godzilla, King Kong já rendeu tantos filmes que é até natural ver realizadores apostando novamente no personagem. Sua história clássica com o clímax no topo do Empire State Building pode ter sido contada e recontada o suficiente (acredito que Peter Jackson fez a versão definitiva disso nas três horas do épico remake de 2005), mas isso não impede ninguém de tentar seguir outros rumos com o material, algo que este Kong: A Ilha da Caveira faz com sucesso, mergulhando no universo de King Kong através de uma narrativa que remete a Jurassic Park e Apocalypse Now. É um pacote que pode parecer inusitado à primeira vista, mas que entretém o espectador ao longo de toda a projeção.

Escrito por Dan Gilroy, Max Borenstein e Derek Connolly a partir do argumento de John Gatins, Kong: A Ilha da Caveira é situado em 1973, pouco depois da saída dos americanos da Guerra do Vietnã, e segue um grupo de soldados e exploradores que vai até a ilha que dá título ao filme com o objetivo de mapeá-la e estudar seus recursos naturais. Mas é claro que isso não sai como planejado depois que um gorila gigante surge no caminho deles, e se o animal passa a fazer de tudo para proteger seu território, os humanos fazem de tudo para sair vivos dali, sendo que o lugar ainda é lar de uma série de outras criaturas.

É como se o segundo ato do King Kong original e dos remakes, passagem majoritariamente situada na Ilha da Caveira, fosse expandido e ganhasse atenção quase exclusiva por parte dos roteiristas, que assim encontram uma boa maneira de explorar o lar de seu imponente monstro. Claro que em outros filmes já vimos que King Kong não é o único animal gigante a habitar o local, mas aqui o roteiro faz com que isso seja um dos pontos principais da história, trazendo uma galeria de criaturas que mostra o quão rico é o habitat da ilha, que fascina por não ver barreiras em seu absurdo, além de servir como uma ameaça interessante para os personagens humanos.

Com isso em mãos, o diretor Jordan Vogt-Roberts surpreende em sua primeira empreitada em superproduções (antes de assumir a cadeira de direção aqui, seu único trabalho no cinema havia sido o ótimo e modesto Os Reis do Verão). Exibindo talento na condução das cenas de ação, Vogt-Roberts cria confrontos grandiosos e empolgantes envolvendo King Kong e as diversas ameaças presentes na ilha (aliás, estes são brilhantemente concebidos pela equipe de efeitos visuais), conseguindo no processo manter o espectador sempre a par do que está acontecendo em cena. Além disso, o diretor prende a atenção do público com relação ao jogo pela sobrevivência no qual os humanos se encontram, criando um bom nível de tensão que só é aliviado pelas piadas que pintam na tela recorrentemente e que funcionam na maior parte do tempo. Nisso, destaco o raccord (corte que mantém a continuidade de um plano para outro) entre um soldado prestes a ser devorado por Kong e um sanduíche sendo mordido, certamente um dos momentos mais divertidos do filme e que define o curioso senso de humor da narrativa.

Enquanto isso, os personagens humanos são desenvolvidos o suficiente para que simpatizemos com eles, sendo que para isso o longa ainda tem a sorte de contar com nomes como Tom Hiddleston, Brie Larson e John Goodman, atores talentosos e que trazem alguma humanidade às figuras que interpretam, facilitando nossa identificação (por sinal, a homenagem a Joseph Conrad presente no nome do personagem de Hiddleston, James Conrad, é mais do que apropriada considerando os ecos de Apocalypse Now vistos no filme). Mas Samuel L. Jackson e John C. Reilly são os que se destacam um pouco mais no elenco, até por encarnarem personagens melhor concebidos pelo roteiro. Jackson cria em seu Preston Packard um homem cujo modo de agir vem muito de sua resistência em aceitar as derrotas recentes de seu país em guerras, o que apenas o faz querer provar de uma vez por todas a força americana, ao passo que Reilly praticamente rouba a cena com seu carismático e divertido Hank Marlow, causando boa parte das risadas proporcionadas pelo filme.

Inserindo ainda comentários certeiros sobre a política externa americana e sua rotina de invasões e guerras descartáveis (“O inimigo não existe até você procurar por ele”, diz alguém em determinado momento), Kong: A Ilha da Caveira se estabelece como um exemplar admirável da franquia de seu grande monstro cinematográfico. Um filme que já se coloca entre as boas surpresas desse ano e nos deixa curiosos quanto ao futuro do personagem.

Obs.: Há uma cena importante depois dos créditos finais.

Thomás Boeira

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