Crítica: Logan

A jornada de Wolverine pela franquia cinematográfica dos X-Men trazia um lado um tanto lamentável. Como membro do grupo de heróis, ele surgia em obras excepcionais, protagonizando aventuras empolgantes e tornando-se um dos melhores personagens por ali. No entanto, quando partia para aventuras solo, os resultados não seguiam o mesmo caminho, rendendo produções que não faziam jus ao seu potencial (X-Men Origens: Wolverine, em especial, foi um pequeno desastre). Em parte é por isso que é bacana poder dizer que Logan muda essa questão. Última aparição de Hugh Jackman como o personagem, este novo filme-solo se arrisca um pouco mais e revela-se extremamente rico na abordagem que dá a seu protagonista e ao universo que o cerca.Escrito por Michael Green e pelo diretor James Mangold (retornando após o mediano Wolverine: Imortal) em parceria com Scott Frank, Logan traz o personagem-título tentando não chamar muita atenção e trabalhando como motorista de limusine no futuro de 2029, quando os mutantes estão quase erradicados. Ele se esforça para cuidar de seu velho amigo Charles Xavier (Patrick Stewart, também em sua última aparição no papel) com a ajuda de Caliban (Stephen Merchant), uma rotina que muda quando a pequena Laura (Dafne Keen) surge no caminho deles, colocando o perigoso grupo liderado por Donald Pierce (Boyd Holbrook) em seu encalço.

Desde o princípio, Logan joga o espectador em um universo de atmosfera desesperançosa, sendo que às vezes o filme lembra um pouco o excepcional Filhos da Esperança, até por incluir o fato de fazerem muitos anos desde o último nascimento de um mutante, assim como ocorria com os humanos daquele longa. É algo que ajuda a estabelecer o tom melancólico que rege boa parte da narrativa, com o roteiro mostrando ter como prioridade aproveitar seu contexto para trabalhar a humanidade de seus personagens, a relação que constroem uns com os outros e seus dramas pessoais. Assim, vale dizer que aqui encontramos um Logan e um Charles Xavier completamente diferentes das versões joviais e altruístas que acompanhamos até pouco tempo atrás, com ambos exibindo um misto de cansaço, raiva e tristeza que sinaliza perfeitamente as tragédias que os levaram a sua atual situação.

Tudo isso é tratado com cuidado e sensibilidade por James Mangold, que consegue dar densidade àquelas figuras e à narrativa que constrói, e não é à toa que alguns dos melhores momentos do filme são exatamente aqueles mais intimistas nos quais vemos Logan, Xavier e Laura discutindo uns com os outros ou simplesmente encontrando uma espécie de paz em meio à realidade que vivem. Isso não quer dizer, porém, que o longa se perca ao partir para a ação. Seguindo o caminho de Deadpool ao se livrar das amarras que uma baixa classificação indicativa certamente lhe daria, Logan investe na violência como raramente se vê em filmes de super-heróis, detalhe que jamais soa gratuito, dando peso aos atos dos personagens e intensidade às sequências de ação. Estas, por sinal, são conduzidas com uma segurança admirável por Mangold, que também é hábil ao criar tensão a partir dos surtos telepáticos que Xavier tem pontualmente, e o fato de nos importamos com aquelas figuras e seus destinos naturalmente faz com que a ação seja envolvente e instigante.

Enquanto isso, Hugh Jackman ganha um prato cheio para explorar Logan dramaticamente, sendo bom ver o ator exibir a mesma determinação que sempre teve no papel, por mais que este seja um personagem que ele poderia interpretar com os olhos vendados e as mãos atadas. Logan surge como um homem que tenta evitar abraçar tanto seu lado violento quanto o herói que foi um dia, mostrando-se física e emocionalmente mais vulnerável que nos outros filmes, algo que Jackman pontua brilhantemente, encarnando um arco de redenção surpreendente e até mesmo tocante. Por sinal, tal vulnerabilidade não deixa de ser compartilhada com o Charles Xavier de Patrick Stewart, que aqui é perseguido pela senilidade decorrente da idade e pela culpa com relação a um evento recente, elemento que o torna uma espécie de herói trágico, e o monólogo que ele tem em determinado momento representa o ponto mais emocionante da projeção. E se a pequena Dafne Keene se destaca com uma presença em cena admirável no papel de Laura, tendo uma ótima dinâmica com os dois veteranos da franquia, Stephen Merchant faz de Caliban não um alívio cômico como talvez pudéssemos esperar dele, ganhando espaço para dar peso dramático a um aliado importante para o protagonista, ao passo que Boyd Holbrook cria em Donald Pierce um vilão interessante o suficiente para tornar palpável a ameaça do grupo governamental que ele representa.

Logan acaba sendo uma despedida mais do que digna de um excelente ator ao personagem que lançou sua carreira rumo ao estrelato absoluto. Contando sua história com maturidade e evitando caminhos fáceis, este é um filme de super-herói que fascina e comove como poucos do subgênero conseguem.

Thomás Boeira

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