Crítica: Pantera Negra

"PANTERA NEGRA" É UM DOS FILMES MAIS EXUBERANTES DO UNIVERSO MARVEL (E, UM DOS MAIS POLITIZADOS)

Filmes baseados em super-heróis de quadrinhos costumam possuir o velho estigma de serem rasos, infantis e "descartáveis". Não há como negar que, de fato, uma boa parcela desse tipo de  produção é formada por filmes com um escapismo um tanto bobo e, realmente, alguns tantos são esquecíveis.

Porém, existe uma outra parcela desses longas que se diferenciam por motivos que nem sempre são agradáveis aos olhos de um público mais conservador, mas, que servem para dar uma certa "oxigenada" no gênero. No caso de Pantera Negra, um dos grandes atrativos do filme é o seu viés assumidamente político (o que, não há como negar, pode desagradar a alguns).

Porém, não se trata só de política, afinal, de nada adiantaria uma premissa de forte cunho social caso a história em si e os personagens não acompanhassem esse alto nível. E, a boa notícia é que, nesses termos, Pantera Negra é, talvez, o filme mais completo do Universo Marvel. Os personagens (do protagonista ao antagonista, passando por coadjuvantes de luxo) são todos funcionais.  Nenhum é desperdiçado na trama. Cada um possui uma característica distinta, uma personalidade específica, e (melhor) são todos muito bem escritos, com motivações reais, plausíveis, verossímeis. O mesmo pode ser dito do roteiro, que se integra ao Universo Marvel, mas possui vida própria, brilhando por seus próprios méritos.

A jornada do príncipe T'Challa em busca de autoconhecimento para se intitular rei de Wakanda é a linha mestra da trama, porém, muitas nuances são desenvolvidas a partir disso. Uma delas é o temor (totalmente justificável) de que Wakanda passe a ficar exposta para o mundo, sendo que sempre ficou isolada e protegida graças à sua alta tecnologia oriunda do vibranium (riqueza natural do local, que, entre outras coisas, compõe o escudo do Capitão América).

A discussão a respeito de cidade se meter ou não em conflitos internacionais para ajudar povos oprimidos é bastante válida, e aparece de forma pontual dentro da trama, em especial através de Nakia (que, frequentemente, sai de Wakanda para combater casos de injustiça em locais próximos), de W'Kabi (que vigia a "fronteira" da cidade) e, de forma ainda mais intensa, do antagonista Killmonger. Por sinal, chamar Killmonger de antagonista (e não necessariamente de vilão) é mais justo para definir as muitas camadas que o personagem possui. Chega ao ponto até de podermos concordar com as suas ideias, mesmo que não concordemos com suas atitudes. O filme, inclusive, é bem sutil ao expor um pouco da sua conturbada personalidade, quando, em seu quarto, mostra de relance um pôster da banda de rap Public Enemy e uma imagem do símbolo do movimento dos Panteras Negras.

Sim, é uma dicotomia que lembra muito as visões conflitantes de Magneto com o Professor Xavier, ou, mais realisticamente falando, entre Malcolm X e Martin Luther King. Enquanto T'Challa acredita numa convivência pela paz, Killmonger tem certeza de que só através da luta armada os oprimidos tomarão o poder. Independente da posição política do espectador, é inegável a ótima construção do personagem, com motivações realmente fortes.

Outros personagens que também merecem destaque são a general Okoye e a irmã de T'Challa, Shuri, menina prodígio, com alto conhecimento tecnológico. Garra Sônica e Everett Ross estão sobrando, é verdade, mas, ao menos, o primeiro é a ponte necessária para Killmonger mostrar a que veio, e o segundo tem papel mais ou menos decisivo no clímax do filme.

O roteiro, em si, constrói muito bem cada um desses personagens e a narrativa, que vai acontecendo a revelia desses, só pecando em alguns poucos momentos em que a conveniência e o clichê se mostram "necessários" (afinal, estamos falando de um filme da Marvel, então, nada de muito ousado, por favor!). Porém, ainda assim, até essas "preguiças" habituais de roteiro fazem sentido dentro da proposta do longa.

Outro aspecto positivo, e que salta aos olhos, é o ótimo nível das atuações. Chadwick Boseman já havia mostrado em Capitão América: Guerra Civil que ele é o Pantera Negra. Sua interpretação sóbria, inclusive, faz com que a personalidade do personagem contraste bastante com a de outros heróis cinematográficos da Marvel, repletos de arrogância e prepotência. Michael B. Jordan, por sua vez, entrega um vilão simplesmente sensacional, e que só mostra relevância na trama, de fato, na segunda metade do filme. O ator consegue passar uma autenticidade tão grande ao personagem, que fica quase impossível ficarmos impassíveis diante dele.  Lupita Nyong'o, como Nakia, e Danai Gurira, interpretando Okoye, conseguem entregar personagens formidáveis; duas mulheres fortes, mas, com personalidades distintas e marcantes. Letitia Wright, como Shuri, e Daniel Kaluuya, na pele de W'Kabi, entregam performances convincentes, mesmo que não sejam realmente excepcionais. O restante do elenco cumpre bem o seu papel, mesmo que alguns pareçam estar ali só para cobrir tabela, mesmo.

Só que nem tudo são flores. Alguns defeitos em Pantera Negra são bem visíveis em termos de computação gráfica, principalmente em seu terceiro ato, quando precisa apelar para inevitável festival de CGI que invade a tela, saturando os nossos olhos num festival de cores e sons bastante confusos e sem nexo.

Enquanto os efeitos eram mais contidos, ou, pelo menos, servindo para nos ambientar a Wakanda, excelente. Porém, batalhas aéreas à lá Star Wars, rinocerontes blindados e bonecos digitais lutando no ar ficaram um tanto forçados e destoantes do clima mais pé no chão que o filme vinha adotando até então. Não chega a ser um desastre, mas, poderia ter sido algo melhor trabalhado.

Ryan Coogler, como diretor, mostra o mesmo talento colocado em seu trabalho anterior, Creed", um dos melhores filmes da franquia Rocky. Da condução dos atores, passando pela narrativa (que nunca esmorece, nunca fica arrastada), Coogler prova que dá pra fazer um filme desse porte com substância, que não seja apenas uma mera diversão passageira.

Pantera Negra, queiram ou não alguns, também expõe muito de uma necessária representatividade negra. Claro que já tivemos personagens negros dos quadrinhos adaptados para o cinema e para a TV, mas, não um que fosse nessa magnitude. É muito importante quando vemos crianças nos quatro cantos do mundo fazendo o sinal de "Wakanda Forever", após saírem extasiadas de sessões lotadas do filme. Não há porque ser contra isso. Já estava na hora, inclusive, de um filme como Pantera Negra ser feito.

Erick Silva

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