Crítica: A Vigilante do Amanhã - Ghost in the Shell

Adaptação do mangá de Masamune Shirow, O Fantasma do Futuro organizava uma narrativa complexa que encantava com suas discussões envolvendo tecnologia e natureza humana, ao mesmo tempo em que desenvolvia uma trama policial e política envolvente com seus personagens. Trata-se de um filme rico em vários aspectos, trazendo um conteúdo que dialoga muito bem com obras como Blade Runner e RoboCop (o primeiro certamente foi uma de suas principais inspirações). É um material que não deixa de ter um bom potencial para render outras produções interessantes, algo que este remake, A Vigilante do Amanhã, parece compreender. Mas os esforços deste novo longa em repetir o sucesso de seu original não chegam a render uma obra tão boa quanto poderia.

Situado em um futuro próximo, A Vigilante do Amanhã segue Major (Scarlett Johansson), que após um acidente torna-se a primeira pessoa a ser transferida para um corpo cibernético, em um experimento realizado pela Dra. Ouélet (uma Juliette Binoche pouco aproveitada), ganhando habilidades sobre-humanas. Trabalhando com a força-tarefa conhecida como Seção 9, liderada por Daisuke Aramaki (Takeshi Kitano), Major se concentra em perseguir e prender terroristas. Com a ajuda de seu parceiro Batou (Pilou Asbæk), ela passa a investigar um criminoso (Michael Pitt) capaz de hackear as mentes das pessoas através da rede que as mantém interconectadas, sendo que ela ainda encara segredos sobre seu passado que a fazem questionar sua própria natureza.

Inicialmente, a impressão que o filme passa é a de que seguirá mais ou menos à risca aquilo que foi feito na animação original, como se vê nos créditos iniciais que surgem enquanto o corpo de Major é construído ou na sequência em que a protagonista salta de um prédio e se camufla para atacar seus alvos. Logo, porém, o roteiro (escrito por Jamie Moss e William Wheeler em parceria com Ehren Krueger) sai dessa linha, fazendo modificações e tentando seguir seu próprio caminho enquanto busca manter a essência de seu material. Nisso, até vemos pontualmente certas discussões envolvendo a relação da humanidade com a tecnologia avançada, com foco principalmente em questões existenciais quanto ao que nos torna humanos e se isso não seria afetado de alguma forma por aprimoramentos robóticos. E quando alguém diz que Major é o que todos serão um dia, é notável ver a atenção que o diretor Rupert Sanders (o mesmo do fraco Branca de Neve e o Caçador) dá para a solidão da personagem, conferindo um tom melancólico para o sentimento de deslocamento dela e para a possibilidade disso se espalhar pela sociedade.

No entanto, apesar de o filme apresentar um universo rico (por mais que sua concepção grite “Blade Runner” várias vezes, seja no visual com grandes outdoors holográficos ou no uso de memórias implantadas), essas ideias trazidas por ele não ganham muito aprofundamento, sendo também uma pena que tudo seja embalado por uma narrativa sem energia durante a maior parte do tempo, o que dificulta seus esforços para envolver o espectador. É algo que atinge não só o desenvolvimento da trama, mas também as próprias sequências de ação, quesito no qual Sanders parece mais preocupado em criar grandes momentos em câmera lenta do que em conceber cenas empolgantes com sua protagonista e as habilidades dela, que no fim são utilizadas de maneira burocrática, pouco imaginativa. Aliás, falando em Major, vale dizer que Scarlett Johansson volta a criar uma heroína de ação forte, trabalhando bem a humanidade da personagem e suas dúvidas quanto ao que realmente é (o pequeno susto que ela leva ao ser abraçada em determinado momento é um toque curioso nesse sentido), ainda que o papel se encaixasse melhor em uma atriz asiática.

Mesmo trazendo elementos interessantes em seu cerne, A Vigilante do Amanhã é um remake que não chega a realmente justificar sua existência, deixando ao final da projeção o sentimento de que pouco acrescentou ao que foi feito pelo anime original há cerca de 20 anos.

Thomás Boeira

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