Tokusatsu: Uma resposta altruísta aos horrores da guerra

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Um dos eventos mais brutais da história foi a Segunda Guerra Mundial. O terror que assolou nações europeias e asiáticas teve o seu fim com o conhecido ataque atômico às províncias japonesas de Hiroshima e Nagasaki, no ano de 1945. Com um dos motes nacionalistas mais raivosos do mundo, os Estados Unidos passaram a ser a potência de maior influência no globo, só que, mesmo arrasado, o Japão brecou todas as suas investidas expansionistas, sendo a construção de uma consciência crítica e poética do seu povo um fruto mais duradouro e forte do que o próprio massacre que enfrentou. Tendo os EUA patrocinando a Era de Ouro dos quadrinhos com produtos ufanistas como Superman, Capitão América e outros que batiam de frente contra os seus inimigos declarados, restou à terra do Sol Nascente ter uma forma semelhante e também original de se reerguer sem deixar de lado as marcas do embate.

A Toho era a maior companhia cinematográfica do Japão, e na década de 50 patrocinou o primeiro projeto que viria a ser a faísca de uma vindoura ascensão no universo fantástico da sétima arte. Godzilla, o gigantesco monstro fruto de um certo bombardeio nuclear, veio da mente de Ishirō Honda, não só para nortear o medo vigente de uma nação, como também para representar a coragem e a força que o senso de unidade semeado por uma ideia mínima e curiosa pode gerar. Os kaijus (monstros gigantes por lá) eram um show visual, e os “filmes de efeitos especiais” (tokushu satsuei ou tokusatsu) foram se expandindo em várias vertentes, até que no início dos anos 60 a Toei Company (aqui o maior estúdio japonês) viu que era a hora dos heróis mascarados também ganharem um lugar ao sol, afinal, não era sempre que o temido Godzilla estava disposto a proteger sua ilha natal.

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Gekko Kamen (o Máscara Lunar) foi, na verdade, o precursor de Ultraman de Eiji Tsuburaya, Black Kamen Rider, Changeman, Ninja Jiraya e vários outros heróis que não ficaram apenas no Japão. Combatendo sombrias organizações em batalhas que sempre acabavam numa clássica paisagem (a famosa Pedreira da Toei), os destemidos personagens geralmente tinham uma lição para ensinar ou aprender. O interessante mesmo é que parte dos tokusatsus não se desprendeu de sua origem no Godzilla de Honda,e os kaijus sempre faziam uma calorosa e sensacional aparição. Para ter a força necessária e bater de frente com os verdadeiros titãs, vieram os mechas (robôs gigantes) controlado pelos heróis, seus parceiros ou mesmo esquadrões.

Foram décadas de um poderio megalomaníaco e tão inventivo, que nem a bizarrice de algumas séries da Toei pode diminuir. Se de início os EUA não abriram mão do domínio maciço nas diversas mídias, chegou um momento em que nem eles puderam negar o brilhantismo dos tokusatsus (já fazendo fita nas TV´s de todo o mundo). Mesmo convertida aos moldes americanos, a alavanca acionada pelos Power Rangers na década de 90 é lucrativa até hoje, e talvez faça eco a sabedoria nipônica, que conseguiu instaurar na indelével cultura nacionalista do Tio Sam uma semente cultivada logo após um fim escrito sob o fogo de dois monstros nucleares em Hiroshima e Nagasaki. Godzilla, Ultraman, Changeman e seus companheiros ultrapassaram anos levando consigo a sombra de uma nação, indo além do mero status de obra cult, afinal influenciaram e fizeram a infância de grandes nomes do cinema atual (Guillermo del Toro, Tim Burton, Peter Jackson), recebendo até hoje o devido e merecido reconhecimento. Como eu mencionei, são os frutos de um altruísmo que mesmo velado, chega a ser poético.

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