Review: The Flash S03E17 - Duet

Na sexta temporada de Smallville, os realizadores da série resolveram exercitar um pouco a criatividade, pensando "fora da caixa" com um episódio todo referencial ao cinema noir. Em preto e branco, brincando com todas as convenções do gênero e dando aos atores releituras de seus próprios personagens, aquele momento da série sobre o jovem Superman, no entanto, surgia em péssima hora (faltando 3 episódios para o fim da temporada), sem oferecer nada ao espectador em termos da trama principal e ainda cometia o erro de se perder na própria ambição. Já em Buffy, o próprio criador e showrunner, Joss Whedon, comandou um capítulo totalmente musical, com canções originais e importantíssimo para o desenvolvimento de alguns personagens, fazendo Once More With Feeling um dos momentos mais memoráveis do já alardeado seriado. The Flash essa semana praticamente uniu esses dois conceitos e, ainda bem, se aproxima muito mais da qualidade vista na série da caçadora de vampiros.

Duet veio repleto de inseguranças por parte dos fãs, com razão. A adaptação do Velocista Escarlate se encontra em um momento crítico. Uma temporada muito abaixo do que já ofereceu anteriormente, em meio a uma trama que parece não caminhar para lugar algum, um vilão desinteressante... As falhas que a série está cometendo já foram abordadas em vários dos textos recentes no site, então não é necessário listar os problemas. Justo nesse ponto, a equipe principal de roteiristas e produtores resolve entregar o conceito de um episódio musical. Como isso poderia funcionar? Mas funciona. E muito bem. Funciona como respiro para o que parecia ser uma decadência emocional para o personagem principal. Funciona como uma daquelas histórias que nos quadrinhos são chamadas de "one-shot", ou seja, que se resolvem em apenas uma edição. E, principalmente, funciona por ter muita sinceridade envolvida.

O grande trunfo do episódio é jamais se levar a sério. Com brincadeiras metalinguísticas, permite aos roteiristas exercitarem um pouco a criatividade que parecia perdida neste terceiro ano. Às vezes, parece que são os próprios showrunners dizendo: "o que deixamos os outros escribas fazerem com nossa série?". Até mesmo a motivação do "vilão" vivido por Darren Criss parece refletir essa ideia de "mea culpa". Ao elenco, pelo menos aos membros que sabem cantar, é dada uma rara chance de brilhar, fazendo algo além de interpretar o texto novelesco a que a série se rendeu de vez nesta temporada.

Para quem acompanhava Glee não é segredo nenhum que Grant Gustin e Melissa Benoist sabem muito bem soltar a voz. Duet é a chance para ambos mostrarem seus talentos para uma outra parcela de fãs. E, quem sabe apreciar bons musicais (por falar nisso, já ouviu esse Alerta Vermelho?), tem motivos de sobra para aproveitar tudo que o episódio tem a oferecer. Apesar de não se render inteiramente a canções originais, as contidas na trama são muito boas (mesmo que a última fuja da temática, pois é utilizada já fora do ambiente criado pelo antagonista). Gustin acaba se destacando não só por sua voz, mas por canalizar seu Fred Astaire interior, aproveitando o físico esguio, que até lembra o grande gênio da era de ouro do cinema.

Barry e Kara, presos em uma dimensão baseada em musicais clássicos, precisam usar os clichês do gênero para retornarem ao mundo real. É uma ideia que poderia soar ofensiva aos grandes musicais, se não os tratassem com o devido respeito. Afinal, a todo momento os personagens comentam como as coisas se resolvem facilmente naqueles filmes. Mas esse é um comentário necessário, usado mais para exemplificar o quanto ambos estão complicando demais as próprias vidas amorosas, do que para simplesmente fazer pouco caso da trama de um Cantando na Chuva, por exemplo.

Com participações muito inspiradas de John Barrowman e Victor Garber, Duet não tem vergonha de divertir, e essa é uma característica que Flash havia praticamente abandonado nessa temporada. Como se trata de uma série de super-heróis, há também uma boa sequência de ação fora do mundo dos sonhos que, apesar de não ser focada em fan service, acaba se saindo muito bem nesse quesito. Conferir o Caçador de Marte (corrigindo o grave erro de não ter o personagem no crossover Invasion), Kid Flash e Vibro atuando juntos para capturar o vilão é algo que faz qualquer apreciador de quadrinhos ficar muito contente. A sequência é curta, mas é um dos momentos mais eficientes que a série já trouxe envolvendo a ação conjunta de um grupo de meta-humanos/alienígena.

Neste terceiro ano, que saiu totalmente dos trilhos há algum tempo, dizer que Duet é o melhor episódio da temporada pode não parecer grande coisa. Mas, o fato é que sim, esta é a melhor amostra que a série proporciona em muito, muito tempo. Surgir em um momento crucial para o desfecho da temporada só reforça o quão desinteressante é a trama principal envolvendo Savitar e acaba não refletindo como problema, por dar ao espectador, pelo menos uma hora, em meio às 17 apresentadas, que faça valer a pena sentar na frente da TV para acompanhar uma aventura do Flash. A mãe do Barry tem razão: tudo fica melhor com música.

Alexandre Luiz

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