Daniel Craig e seu 007 Fleminguiano - A Era Moderna de James Bond

Mudanças eram necessárias. Sob essa premissa, foi orquestrada uma pequena grande revolução dentro da franquia, mudando de estúdio, de intérprete e de estilo. O escolhido para conduzir o filme que retoma o Bond original de Fleming – há muito esquecido – foi Martin Campbell, que já havia estabelecido outro estreante, em Goldeneye.

Casino-Poster 3O cuidado em retratar o início do reboot em preto e branco traz nostalgia ao mesmo tempo que preconiza uma sensação de renovo. Mesmo a abertura, sob a mira de um assassino, ocorre posteriormente, após a apresentação do novo astro, diferente em espírito e aparência do classicismo de Moore e Brosnan. Daniel Craig seria um 007 que acabaria de ganhar sua permissão para matar em nome da Rainha. Ainda no prólogo, as cenas de violência explícita são mais cruas e secas, revelando a influência clara de Paul Grenngrass e seu Jason Bourne.

Grande parte dos signos visuais seriam ligados ao carteado, como no primeiro romance de Ian Fleming, substituindo o bacará pelo mais popular poker, pontuado pela música absurdamente cabível de Chris Cornell, You Know My Name. Sem delongas, o roteiro mostra Le Chiffre de Madd Mikkelsen estabelecendo contato comercial com bandidos em Uganda, para logo depois mostrar o recém nomeado agente 00 investigando outros marginais, se metendo em uma perseguição intensa, entre um especialista em parkour e uma máquina predatória/assassina. O nível de violência estabelecido por Craig e sua forma de agir era algo sem precedentes dentro da cinessérie, influência do já citado Bourne e do ainda mais antigo Matrix, franquias que influiriam também em Missão Impossível.

Após muito divagar, a personagem fundamental na nova carreira de Bond seria introduzida, como um novo contato para a execução da missão. Vesper Lynd, vivida pela belíssima e inspirada Eva Green, que já em seu primeiro contato com o britânico, tem um bela discussão sobre o arquétipo de mulher objeto e o brutal machismo presente no comportamento do personagem, discussão até atrasada em termos de modernidade. O papel desempenhado pelos dois seria o de investigar Le Chiffre, e ela é responsável por dar uma carga de humanidade exacerbada, uma vez que ela é sensível a quantidade de mortes que imputa, fator pouco explorado no subgênero em que 007 se insere.

Lynd faz as vezes de Goodnight, Tania Romanova, Anya Asamova  e tantas outras, servindo de diálogo de ação espiã ao mesmo tempo que serve de deslumbramento visual. Apesar da  crueldade extrema, e da tortura que causa uma dor excruciante em Bond – e em qualquer espectador com o mínimo de empatia - Le Chiffre acaba por ser um vilão secundário, um guardião de limiar para 007 e sua missão, sendo somente um pedaço ínfimo de uma organização cujos intentos não ficam exatamente claros.

A dubiedade do caráter não é exclusividade do vilão, mas também da postura inicial desta nova versão de Felix Leiter, vivido por Jeffrey Wright, que gradativamente torna-se o aliado que evoluiria para amigo pessoal do agente. No entanto, a maior dúvida moral segue sendo no caráter de Vesper, uma mulher capaz de tentar “educar” seu par, mas também apta a trair seus ideais, seu par e até sua vontade de viver, para cumprir a missão que julga ser a mais acertada, ao menos momentaneamente.

O desfecho do filme, apesar de não apresentar um fechamento de ciclo para a trama em si, pontua perfeitamente o caráter do personagem, usando até um de seus ícones frasais para fazer lembrar até ao espectador mais desatento de quem se trata Cassino Royale, estabelecendo um ponto zero na mitologia de Bond.

quantum-posterQuantum of Solace começa em uma perseguição protagonizada pelo agente, a bordo de seu Aston Martin, a partir do mesmo ponto onde o filme anterior parou. Marc Forster, diretor de Mais Estranho Que a Ficção e do excelente A Última Ceia comandaria esta versão do conto de Fleming. O início da trama exploraria o depoimento de Mr White (Jesper Christensen), que ajudaria o MI6 a descobrir o paradeiro do vilão responsável por “assassinar” Vesper Lynd.

Dominic Greene (Mathieu Amalric) faz, junto a Camille Montes (Olga Kurylenko), o comum par de homem poderoso, com desejos e intenções demoníacas, com garota refém por alguma situação específica genérica. Até o começo do filme – o que compreende um pouco além da primeira meia hora – há uma sequência de eventos interessantes e eletrizantes. A parte da ópera faz uma evidente referência ao momento em que James Bond de Moore perseguiria Dentes de Aço em O Espião Que Me Amava.

Outra referência óbvia é a execução da parceira sexual e de campo de Bond, Strawberry Fields (Gemma Arterton), que ao investigar uma pista de 007, acaba sendo executada e jogada na cama coberta de petróleo, como visto em Goldfinger com outra bond girl, fazendo alegoria também a comum morticidade das amantes do agente. A morte dela também serve para aludir a dificuldade constante do herói em dividir suas forças a fim de proteger os que o cercam, fracassando não poucas vezes em suas intenções de salvador.

Apesar do bom começo, o roteiro torna-se arrastado desnecessariamente, gerando até anti climaxes, com problemas graves de ritmo, escondidos vez por outra por sequências de ação interessantes. O declínio de Cassino Royale para esse faz Quantum Of Solace parecer apenas uma desculpa para um epílogo do primeiro filme, demonstrando a sede de vingança de Bond, assim como sua evolução ética, só assassinando quando estritamente necessário. O ciclo de revanche se fechou bem, apesar até do monótono tema musical de Alicia Keys e Jack White.

skyfall-posterPrimeiro filme de Daniel Craig que inicia seu trabalho fílmico com acordes que remetem a música original de Monty Norman, para logo depois referenciar mais elementos canônicos do agente especial, como o auxílio em campo de Eve (Naomie Harris), que no último ato do filme, revelaria seu curioso sobrenome, mostrando uma faceta bem mais ativa da personagem clássica.

A excelência visual das primeiras cenas de perseguição, envolvendo veículos sobre rodas, sobre trilhos e corridas desenfreadas são bem construídas, como marcas registradas do diretor que assumiu a franquia a partir dali. Sam Mendes não era conhecido por filmes de ação, mas por pérolas cuja fotografia era diferenciada, especialmente em Estrada Para a Perdição e Beleza Americana. Sua visão para Operação Skyfall resultou em um produto sucinto e ousado para a proposta normalmente usada para os filmes do agente.

Mendes é bastante reverencial aos clássicos de Sean Connery, primeiro ao usar a música de Adele como base de sua história, semelhante (guardadas as devidas proporções) ao feito por Shirley Bassey em Goldfinger, além de também usar no início o obituário de Bond, como visto em Com 007 Só Se Vive Duas Vezes. O enredo de Neal Purvis, Robert Wade e John Logan contém alguns elementos de livros recentes de James Bond, Carte Blanche, de Jeffrey Deaver, ainda que hajam desenrolos significativamente diferentes entre as duas obras.

A trama gira em torno da forçada aposentadoria de M, graças também a saúde debilitada de Judi Dench. A troca é organizada por Gareth Mallory (Ralph Fiennes), que apresenta a ela uma pré carta de demissão. Bond retorna após um grande hiato de suas atividades, enferrujado, inábil, depressivo, mas ainda capaz de invadir os lugares que lhe são íntimos. Retorna a academia, para ser treinado novamente, e o ambiente em que está lembra muito uma repartição pública, semelhante visualmente ao visto nas adaptações de John Le Carre, como em O Espião Que Sabia Demais.

O multiprotagonismo, de Bond e M, faz os dois repartirem até a carga de crise, com ambos sentindo-se sabotados internamente, algumas vezes até de modo “recíproco”. No campo, finalmente se cumpre o esforço de realizar um filme do super espião em território chinês, desejo antigo dos produtores, ainda com Albert R. Brocolli no comando da franquia, para um terceiro filme com Timothy Dalton.

Demora quase uma hora para a “primeira” (excetuando Eve, claro) aparecer, Severine (Berenice Marlohe), que teme a figura vilânica de Raoul Silva, um ex-agente, fiel no passado a M, cujos trejeitos homo afetivos produzem uma cena hilariante com Bond, de conteúdo homo erótico, espantando o discurso do fã misógino do ideal construído até então para seu herói. O flerte de Javier Bardem com Daniel Craig funciona com uma química absurda, como antigas rivalidades do cinema e cultura pop, semelhante ao Batman x Coringa. O trauma do vilão dialoga perfeitamente com o estado de espírito atual de 007, inclusive no que tange a fidelidade junto ao MI6,  cuja deformação carnal também faz paralelo com os defeitos de espírito, usando a troca de “um por mais de um” como ponto inicial da discussão ética e moral dos mandatários de grandes agências governamentais.

Encurralados, e sem o apoio “oficial” do MI6, Bond e M se refugiam no antigo rancho dos falecidos antepassados de Bond, produzindo ao mesmo tempo um mergulho na intimidade e origem do personagem, uma fuga mirabolante para o vilão, e uma cooperação mútua e em pé de igualdade do subalterno com sua antiga mandatária.

Após a série de conflitos, despedidas e resoluções, Bond chega ao ponto de partida visto em Satânico Dr. No, com o restabelecer da base de M, remetendo ao clássico na última das homenagens (justas) que Mendes faz a filmografia do agente secreto, estabelecendo o mesmo universo que era estabelecido na era pré-Craig, com Moneypenny, um novo M e um novo Q (Ben Whishaw), repaginados claro, para uma nova geração de fãs e consumidores.

spectre-posterSpectre era muito aguardado, e a demora de três anos entre um filme e outro serviu para aumentar as expectativas, especialmente no que tange a adaptação de textos literários do personagem. Ao contrário dos últimos três filmes, 007 Contra Spectre se inicia com a sequência do agente sob a mira do opositor, para, logo após, apresentar um plano sequência eletrizante, de aproximadamente cinco minutos.

Como em Skyfall, Sam Mendes usa seu filme para reverenciar demais a franquia, usando cenas de luta em helicóptero, além de fazer uso extensivo do tema musical original. O roteiro de John Logan, Neal Purvis, Robert Wade e Jez Butterworth usa muitos dos elementos vistos no livro e filme 007 A Serviço de Sua Majestade, principalmente pela relação do agente com a organização criminosa. O tom usado para revelar os meandros da Spectre envolvem o estereótipo utilizado em sociedades secretas, se valendo demais de cenas onde as sombras prevalecem.

Parte do roteiro é dedicado a desenrolar a paranoia galopante vista em Operação Skyfall, ainda investigando-se as relações da antiga M (Judi Dench), em vídeos póstumos, que ajudam o espião a achar o lastro dos reais vilões por trás do assassinato da antiga chefe, de Vesper, cooptando a vilania dos 3 filmes anteriores. Os motivos de preocupação são evidentemente certeiros, e dividem atenção com processo de fusão do MI6 com o MI5, passando o departamente inteiro a responder ao novato Max Denbingh (Andrew Scott), apelidado “carinhosamente” de C. O personagem torna-se um entrave para a antiga equipe, já que ele entende ser o serviço 00 algo obsoleto e bárbaro, tendo em seu ideal, a extinção da divisão.

O classicismo torna-se cada vez mais frequente. Moneypenny passa a ser mais charmosa, sem deixar de lado sua ação mais enérgica, o Q de Whishaw emula muitos dos movimentos de Desmond Llewelyn. No entanto, a exploração dos dramas é maturada, discutindo largamente sobre a questão da discussão de Sociedade de Controle, presente no texto de Foucault e Deleuze, adaptado para plateias mais populares, evidentemente, usando a dependência da tecnologia e a vigilância constante como avatares.

Graças ao ataque dos opositores, Bond e a equipe são obrigados a funcionar clandestinamente, além de apelar ao retorno ao analógico, como forma de driblar a obsolescência causada pelo temor de ser controlado através do voyeurismo e da pseudo onisciência. Talvez o maior dos problemas no filme esteja na personificação de Christoph Waltz como Frans Oberhauser, caindo na obviedade de sua vilania, que não é tão histriônica quanto o seu Hans Landa, mas que pouco acrescenta quando está em cena, ainda que não comprometa a qualidade do filme em si.

O uso das bondgirls é peculiar, primeiro pelo subaproveitamento de Monica Bellucci e sua Lucia Sciarra, que tem sua beleza aplacada para não ofuscar o principal par romântico de Bond. As aparições de divulgação do filme exibem uma beleza muito maior da italiana do que visto no longa.

Outra questão curiosa é a construção da relação de Madeleine Swan (Lea Seydoux, deslumbrante como sempre) junto ao agente, envolvendo personagens antigos da franquia, traumas e química sexual, negada a princípio, mas utilizada ao extremo no final, especialmente nas cenas a bordo do trem, o que faz lembrar Moscou Contra 007. No entanto, causa estranhamento o fato da relação ser tão intensa quanto ao sentimento de ambos, já que em comparação com o que houve em Cassino Royale, haja uma perda imensa em termos de credibilidade e textura.

Obviamente que o panorama apresentado sobre a invasão de privacidade é feito bem ao modo escapista comum ao restante da franquia,  e que a construção do antagonismo sofre com a redundância de Waltz, que no geral, funciona. As reinvenções orquestradas por Mendes fazem lembrar o mesmo apreço de Grant Morrison pelas historiografia dos heróis dos quadrinhos, usando os momentos clássicos do personagem em questão para aludir questões mais urgentes e atuais.

Craig trouxe um clima de renovo ao personagem, mesma premissa que deveria ter ocorrido com Dalton, fracassada especialmente pela interferência dos produtores. Não à toa funcionou essa nova versão quando os diretores tiveram alguma liberdade, começando por Campbell ousando um pouco, ainda que de modo comedido, passando por Forster, que fez o que lhe mandaram, mas ainda imprimiu muita ação em seu filme, resultando em Sam Mendes, que com sua marca cinematográfica, maximizou os detalhes de fotografia e cores, fatores que elevaram o universo de Bond a um patamar não antes visto, capaz de reproduzir nuances que flertam com o realismo, sem abrir mão de um caráter escapista, remontando até o clássico em uma equilibrada equação que repagina a personagem, sem deixar de fazer uma ode aos filmes originais, especialmente os de Connery e Lazemby.

- Texto de autoria de Filipe Pereira, crítico de cinema e editor do site Vortex Cultural

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Comentários

3 comments

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    Danilo Andrade 8 novembro, 2015 at 00:39 Responder

    boa crítica disfarçada do filme spectre, ia pedir justamente uma crítica ao novo james bond, li a crítica no cinema em cena e achei meio monótono e do elenco nem falou da monica belucci, o pablo villaça é 1 crítico mala sem alça, vocês do cine alerta são muito melhores, quero 1 alerta de spoiler do novo filme do 007.

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