2019 - O ano da extinção : O filme de vampiros "científicos" dos Irmãos Spierig

2019 - O ano da extinção : O filme de vampiros "científicos" dos Irmãos Spierig2019: O Ano da Extinção é um filme que mistura gêneros distintos e tem uma abordagem diferenciada do cinema hollywoodiano, embora se utiliza de formulas desse cinema também. Conduzido e escrito pelos irmãos Spierig, estrela um grande elenco, cujos maiores expoentes são Ethan Hawke, Willem Dafoe e Sam Neill. Sua história é futurista e tem por base mundo comandado por vampiros, onde humanos são caçados.

Ao contrário da maioria dos produtos do gênero, nesse a causa do vampirismo é científica. É uma praga se instalou sobre o planeta e transformou boa parte da população em pessoas viciadas em sangue, que só se alimentam disso.

Como o consumo é alto há uma escassez crítica se aproximando e dessa forma alguns vampiros mais pobres começaram a sofrer com uma doença que modifica corporal e mentalmente os mortos-vivos. Junto a isso, há a possibilidade de uma cura para a condição parasitária, embora de primeira, essa questão tenha ares de uma lenda urbana.

O texto de Michael Spierig e Peter Spierig consegue transitar bem entre a ficção científica especulativa, mas não se leva a sério ao ponto de parecer bobo quando lida com suas questões.

Coprodução entre Estados Unidos e Austrália, é chamado originalmente de Daybreakers, em atenção ao termo ligado ao amanhecer, que é naturalmente uma oposição aos mortos vivos noturnos.

Há poucas variações de nomenclatura. As mais notáveis são Vampiros del día na Argentina e Chile, enquanto no Peru e México é La Hermandad. Em Portugal é Daybreakers - O Último Vampiro.

Produzido por Chris Brown de A Proposta e os irmãos Sean Furst e Bryan Furst, que fizeram o recente Renfield: Dando Sangue Pelo Chefe. Tem produção executiva de Peter Block de Adrenalina e Jason Constantine de Os Mercenárioa, dupla essa que trabalhou junta na saga Jogos Mortais.

Foi feito pelos estúdios Lionsgate, Screen Australia, Pictures in Paradise, Film Finance Corporation Australia, Pacific Film & Television Commission e Furst Films. A distribuição é da Lionsgate nos Estados Unidos e na Hoyts Distribution pelo resto do mundo.

Por conta de suas locações e nacionalidade, o filme é considerado um Ozploitation, ou seja, uma obra cinematográfica apelativa, que explora temas pesados, mas que foi feito na região continental da Oceânia, que compreende a Austrália e diversas ilhas, como a Nova Zelândia. Dessa forma, Deathgasm, Trash: Náusea Total e Fome Animal são exemplares de Ozploitation, segundo a gíria.

2019 - O ano da extinção : O filme de vampiros "científicos" dos Irmãos Spierig

Esse é um dos poucos filmes de terror australianos que focam em vampiros, junto a Ânsia de 1979, Outback Vampires de 1987, Bloodlust de 1992 e A Rainha dos Condenados, que é do ano de 2002. Além desses, também é chamado de Ozploitation de vampiros O que Fazemos nas Sombras, que é do país vizinho, a Nova Zelândia.

Os Spierig usam cenários bonitos, passam por paisagens desérticas sensacionais. Antes do filme começar a ser rodado foi organizado um concurso no famoso site especializado Worth1000.com para criar imagens de como seria o mundo se quase todos fossem vampiros.

As cenas foram rodadas em Queensland na Austrália, com gravações em Brisbane, Gold Coast, Riparian Plaza, Robina Train Station, também no Stage 4 em Village Roadshow Studios.

Esse é o segundo filme de Michael Spierig e Peter Spierig, feito após a comédia de horror Canibais. Aqui se vê um crescimento absurdo de escala, momentos bem mais difíceis de realizar do que na obra anterior.

Também há um uso um pouco exacerbado de CGI, sobretudo nos momentos de morte por combustão dos mortos-vivos, quando os mesmos ficam no sol. Esses certamente são os momentos menos legais do longa-metragem.

2019 - O ano da extinção : O filme de vampiros "científicos" dos Irmãos Spierig

Como o tempo de pandemia já é antigo - se passou uma década inteira depois da mudança geral - existe todo um mercado voltado para os vampiros, com comércio legalizado de sangue, além de estudos para tentar fazer material sintético da matéria prima alimentar deles.

No entanto nem todos têm dinheiro para sobreviver e para conseguir sangue de maneira legalizada. Há até mendigos humanos, que se permitem vender seu sangue para não morrerem de fome.

Os mais ricos compram sangue de uma empresa que mantém um lucrativo negócio de engorda humana, para retirar de maneira industrial o sangue, a fim de vender em mercados comuns. Essa mesma empresa tenta desenvolver uma forma sintética de exploração hepática, já que, como dito antes, os humanos estão acabando.

Os vampiros que tem fome e não conseguem se alimentar costumam ficar doentes, sofrendo uma mutação que transforma os mesmos, deixando-os monstruosos. Essa contaminação se dá quando um dos mortos-vivos simplesmente tenta se alimentar de seu próprio sangue.

Essa ideia não é nova, tem semelhanças com vários filmes, entre os mais famosos está Blade II: O Caçador de Vampiros de Guillermo Del Toro, mas aqui esse aspecto é bem explorado, mesmo que o mote central não seja explorar as mazelas sociais oriundas dessa questão.

A parte política é muito mais mencionada do que desenvolvida, afinal, o foco é na ação e aventura e pouco na filosofia. Há prós e contras nessa abordagem, mas o equilíbrio é válido nesse Daybreakers.

Os diretores trabalham bem o silêncio, boa parte do início se passa sem som algum. Para entrar diálogos demora quase dez minutos, até a música incidental de Christopher Gordon demora a "aparecer". Ainda assim a trilha é discreta e bem pontual.

O design de produção de George Liddle é outro aspecto louvável e positivo na produção. Há carros estilizados que usam proteção ultravioleta, que selam os vidros para impedir problemas. Os veículos também possuem inteligência artificial e câmeras que ajudam guiar o carro quando não há visão para motoristas vampiros.

Os vampiros andam com armaduras durante o dia, para quebrar a dificuldade de não poder se movimentar durante metade do dia e as armas também são estilizadas, com um visual que lembra uma espécie de steampunk futurista

2019 - O ano da extinção : O filme de vampiros "científicos" dos Irmãos Spierig

Apesar de ser rodado na Austrália, a trama se passa nos Estados Unidos e já inicia dramática, com uma criança se expondo ao pôr do sol, por conta de nunca envelhecer.

Há uma boa diferenciação visual dos vampiros, cujos olhos são de cor diferente. Normalmente amarelos, mas também aparecem ou sem íris ou vermelhos.

A história persegue o hematologista Edward Dalton de Ethan Hawke. A natureza do seu trabalho justifica o texto expositivo. Ele trabalha junto ao chefão executivo e vampiro que tenta fingir ser bem-intencionado, o senhor Charles Bromley, interpretado por Neill.

Em entrevistas, Sam Neill explicou que o que o fez decidir fazer o filme foi uma cena no roteiro em que os vampiros empresários compram café da manhã enriquecido com sangue humano. Esse é o segundo de três filmes em que ele e Dafoe trabalharam juntos, sendo os outros Fuga Para o Amor de 1996 e O Caçador de 2011.

Durante a introdução é mostrado um grupo de engravatados de vários países discutindo sobre os rumos da sociedade, sobre o consumo da humanidade e sobre a escassez de alimento que ocorrerá em breve se os vampiros seguirem sugando o sangue dos homens de maneira tão voraz e predatória como ocorre.

Até os cientistas sabem que a raça se extinguirá, por isso precisam de um substituto para o sangue.

Há muitos testes com animais, com humanos também. Dentro da empresa Bromley Marks, há pessoas presas e suspensas no ar, que são exploradas e tem sangue extraído enquanto dormem. Esses trechos lembram inclusive a disposição dos humanos explorados pelas máquinas de coleta em Matrix.

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O personagem de Hawke está sempre nervoso, tanto que aparece quase sempre fumando. Curiosamente o ator havia conseguido recentemente largar o vício. Já Dalton fuma demais. Para não atrapalhar o interprete a equipe de efeitos providenciou cigarros falsos e solúveis para fazer essas cenas.

Há alguns momentos bem estranhos, como em uma mesa de testes onde um vampiro se coloca como cobaia, a fim de tentar chegar a formula ideal do sintético de sangue. Essa sequência é ótima, já que ele fala um "ai", depois começa a ter ferimentos no rosto e braços, incha rapidamente, depois explode em sangue.

Na primeira exibição do filme, essa cena fez com que o público teste explodisse em gargalhadas nervosas. Aqui há uma boa variação entre efeitos especiais práticos e uso de material digital e CGI, ao menos nesse trecho, a mistura casa bem.

Ed se envolve em um acidente de carro, mas demonstra que não é uma pessoa ruim, tanto que salva os homens, permite que os fugitivos corram, inclusive com o seu carro.

Nesse trecho, ele conhece dois humanos, mas ele fixa na moça, que é Audrey, personagem de Claudia Karvan. Mais tarde seriam esses fugitivos que encontrariam ele, afirmando ter uma cura para a condição de vampiro.

Edward mora com Frankie (Michael Dorman), seu irmão de sangue, que tem uma grave crise moral. Eles são atacados por um vampiro deformado, que lembra os monstros morcegos vistos no filme Um Drink no Inferno e que são chamados de subespécies, possivelmente em atenção a série de filmes da Full Moon Features, iniciada em Subspecies: A Geração Vamp.

Esse era Carl, o jardineiro do prédio, que praticava autoflagelo e que, por fome, passou a se alimentar do próprio sangue. Nesse ponto se fala dessa condição, utilizando o exemplo dele para demonstrar como se acelera a mutação se alimentando do próprio sangue.

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Audrey vai atrás de Edward, diz que precisa de um vampiro em quem confiar.

Um aspecto esperto do filme são as pequenas demonstrações visuais de coisas dando errado, como as orelhas pontudas que aparecem quando Edward sofre com falta de sangue, com ela voltando normal quando Audrey lhe dá um pouco de "alimento" no carro antes de chegarem ao acampamento humano.

Já em um local seguro, apresentam o cientista a Lionel Cormac (Dafoe), personagem que foi vampiro e é chamado pelos seus chegados de Elvis, já que ele voltou dos mortos, como se dizia na teoria da conspiração de que Elvis Presley não morreu.

O filme investe em momentos de ação e a cinematografia de Ben Nott (de A Mansão Marsten) é bastante pontual, valorizando demais os cenários e as cenas em alta velocidade, com perseguições de carro bastante arrojadas.

A história de transição de Elvis é tão estranha que parece fantasiosa. Ele estava dirigindo de dia, se acidentou, quase morreu no sol e depois de se molhar em um rio, recuperou a humanidade. Algo nesse processo mudou sua estrutura corporal ou foi algo mental, uma escolha inconsciente que fez ele se transformar.

A ideia dos humanos da resistência é replicar isso de maneira segura, mas sem cair diante da vigilância vampira.

Esse filme acaba conversando bem com o livro Eu Sou a Lenda de Richard Matheson, no sentido de mostrar uma sociedade que tenta viver sabendo quem é, aceitando a mudança geral da população e tentando se adequar como pode. A diferença é que aqui a coisa está adiantada se comparada ao romance, é como se a trama desse fosse uma espécie de futuro espiritual da ideia central do romance.

O ponto central do roteiro é a crítica comum ao capitalismo, que favorece as pessoas abastadas, ajuda a escravizar os diferentes e faz canibalizar quem tem pouco.

O texto ainda é esperto o suficiente para mostrar o desespero que o consumo voraz faz, inclusive nas pessoas que tem dinheiro e posses. Quando ocorre um racionamento de comida, uma liberação pequena de ração de sangue, os compradores ficam desesperados, atacam os funcionários que vendem para eles, para não correr o risco deles mesmo não terem recursos, mesmo que fique claro que isso não ocorrerá.

A fome faz as pessoas agirem de modo selvagem.

O longa possui alguns momentos bem estranhos, com a tentativa de replicar a cura de Elvis em Ed ou a transformação da filha de Bromley em uma vampira subspecies.

A maioria dos doentes são "forçados", já que não tem o que comer, mas o fato da menina se "envenenar" tomando o próprio sangue é simbólico, possivelmente uma tentativa de fazer um paralelo com o vício das drogas, caindo também na casa das pessoas abastadas.

Há alguns pontos do roteiro que soam estranhos, como a súbita mudança de caráter de Frankie, a vilania imperial de Charles Bromley ou a descoberta de Christopher (Vince Colosimo), de um sangue sintético, que nem mesmo Dalton conseguiu depois de anos de pesquisa.

2019 - O ano da extinção : O filme de vampiros "científicos" dos Irmãos Spierig

A alternativa de sangue de vampiro processado é uma saída meio covarde e não funciona por muito tempo, faz até perguntar qual é a função dramática dela, já que dificilmente a ideia de tentar replicar a cura que salvou Elvis e Edward dificilmente conseguiria ganhar popularidade e tração como se esperaria, mas há uma alternativa, descoberta tardiamente, claro.

Acidentalmente se percebe que se um vampiro morder um "curado", ele será descontaminado também. É muito doido como os primeiros curados são soldados que literalmente comeram os curados, alastrando assim a cura da maneira menos higiênica (e ética) possível.

O filme terminaria de maneira diferente, mostrando Edward, Audrey e Elvis parados no saguão do Bromley Marks olhando para o nascer do sol antes de desaparecerem nos créditos. A cena final com Elvis, saindo da cidade foi filmada a pedido da audiência teste, que indicou uma alternativa mais otimista caso o filme mostrasse os personagens já em um local seguro.

2019: O Ano da Extinção é uma obra de premissa criativa e início promissor, mas que se perdeu um pouco com o decorrer de sua exibição, justamente na variação entre gêneros. Ainda assim tem classe, moderno e dá espaço para o trash e para a exposição desenfreada de sangue e gore.

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