A Noite das Brincadeiras Mortais: A mistura entre paródia e filme slasher dos anos 80

A Noite das Brincadeiras Mortais: A mistura entre paródia e filme slasher dos anos 80A Noite das Brincadeiras Mortais é um filme de horror que utiliza uma data comemorativa como mote principal, no caso, o Dia da Mentira. Dirigido por Fred Walton e roteirizado por Danilo Bach, o filme lida com os chavões dos slashers movies, reunindo em si muitos clichês de comédia.

O longa cujo nome original é April's Fools Day começa com uma gravação caseira, fato que faz pensar que ele embarcará no formato found footage, tal qual ocorreu com Holocausto Canibal e ficaria popular em A Bruxa de Blair e Atividade Paranormal anos depois. No entanto, a filmagem nessa perspectiva é apenas uma piada, mostrando uma pessoa com uma câmera amadora para logo depois reunir jovens universitários.

Os personagens jovens adultos saem na primeira semana de abril, a partir do dia primeiro e vão até a casa de Muffy (Deborah Foreman), uma menina rica que tem acesso a um casarão que fica em uma ilha. Ao longo dessa estadia, fazem brincadeiras mil, sendo a maioria delas bastante ingênua, apenas pegadinhas, com algumas delas sendo bem perigosas e com envolvimento de elementos externos não planejados - incluindo aí uma serpente, que poderia ter matado um dos rapazes.

O produtor do longa é Frank Mancuso Jr., que vinha trabalhando na franquia de Jason, tendo a mesma função em obras como Sexta Feira 13 - Partes 2, Sexta-Feira 13 Parte 3 e outras sequências desse, também fez a quadrilogia A Experiência e o longa animado adulto Mundo Proibido.

Para chegar até a casa os estudantes tem que ir em uma barca, que só retornará na segunda-feira, ou seja, eles obrigatoriamente ficarão no lugar pelo menos até o fim de semana.

A Noite das Brincadeiras Mortais: A mistura entre paródia e filme slasher dos anos 80

Apesar de não serem adolescentes - afinal a maioria estuda na mesma faculdade - o grupo de pessoas está imbuído em gastar os primeiros dias de abril com bebedeira, sexo e claro, as travessuras típicas do dia dos tolos.

Antes de completar 15 minutos já fingem que um dos rapazes morreu, no caso, o primo da dona da casa, Skip (Griffin O'Neal). Depois disso ocorre um bizarro acidente com o barqueiro Buck (Mike Nomad), que sai com o olho ferido, saltado de sua face, em um bom efeito especial prático de Martin Becker e Christopher Swift

A casa é um cenário bem curioso, possui decoração antiga, que se assemelha propositalmente a descrição dos livros de suspense e mistério de Agatha Christie, inclusive se fala sobre isso nos diálogos dos personagens.

Também se faz um plano detalhe bem profundo nas salsichas prestes a serem cozinhadas, mostrando já no início que é preciso ficar atento aos detalhes das coisas e não das pessoas.

Os personagens aliás são meio genéricos. Ninguém é muito digno de nota, praticamente não há protagonista, talvez Muffy seja a pessoa que mais se aproxima dessa condição, mas a trama além de não ser exatamente sobre ela, também acontece dela se tornar a suspeita sobre o mau que recai sobre os meninos e meninas.

De memorável no elenco, basicamente há Thom Wilson (na época, assinava Thomas F. Wilson), que interpreta Arch Cummings, personagem esse que não é tão diferente do seu Beefy da trilogia De Volta para o Futuro.

Muffy paga de intelectual, fica citando trechos de um livro de James Boswell, A Vida de Samuel Johnson, mas curiosamente, sua casa de campo ter sido feita para uma família com crianças, já que há muitos brinquedos nos cômodos, além de quadros com os olhos furados, maçanetas que caem, lâmpadas que nunca apagam, barulhos de bebês em gravadores, objetos que dão choques, cadeiras que caem, degraus escorregadios.

A grande questão é que as coisas que não funcionam podem ser muito perigosas, em cada um deles dá facilmente para se machucar ou até morrer na casa e em seu quintal e como a história se passa no quarto mês do ano, não há surpresa no fato que essas brincadeiras podem ser até fatais.

A partir daqui falaremos da trama com spoilers.

A Noite das Brincadeiras Mortais: A mistura entre paródia e filme slasher dos anos 80

O quadro muda um bocado quando de fato a violência deixa o campo das piadas e passa a ocorrer de fato. Começam a acontecer desaparecimentos e assassinatos e Skip, o metido a engraçadinho é a primeira vítima.

De negativo há o fato de que há pouco gore, a maioria das mortes ocorre fora do registro da câmera e como a ideia é fazer um pastiche de um filme de matança, isso pesa contra.

Há basicamente um único (e bom) fator que faz a tensão se estabelecer: a música de Charles Bernstein, compositor de Enigma do Mal, A Hora do Pesadelo e Cujo. A música instrumental é carregada e grave, funciona bem até quando antecipa as mortes, especialmente se considerar a virada no final.

A Noite das Brincadeiras Mortais tem toda caracterização de uma paródia, com clichês de jornais antigos cheios de marcação pela casa, personagens demais para não desenvolver ninguém, punição a quem transa.

Walton tinha experiência com obras baseadas em tensão. Dirigiu Quando um estranho Chama (1979), também fez episódios das séries Suspense (1985) e Miami Vice (86), fez os filmes O Mistério do Rosário Negro (87), Eu Vi o que Você Fez eu Sei Quem Voce é (88) e Armadilha da Morte (89).

Já Bach é mais conhecido por ter escrito Um Tira da Pesada (1984) e Contrato de Risco (1996), tendo largado o filão de filmes de horror B.

A Noite das Brincadeiras Mortais: A mistura entre paródia e filme slasher dos anos 80

No decorrer dos fatos o grupo desconfia que Muffy é a cabeça por trás das mortes e raptos. Ela apresenta um discurso esquisito até antes das pessoas sumirem, parece estar em transe, tem um visual desleixado em comparação com o início, fica com cabelos desgrenhados, aparece sem maquiagem, suas atitudes vão ficando cada vez mais suspeitas.

Restam duas suspeitas, a óbvia, apontada pelos personagens e a do sujeito que se feriu no início, Buck, que pode emular uma espécie de A Vingança de Cropsy ou outros filmes do tipo, exibindo uma vingança de um homem adulto sobre os jovens inconsequentes.

Considerando que a produção possui uma tentativa de fazer piada o tempo inteiro, a atmosfera faz sentido, os sustos são bons, sobretudo o número envolvendo o quadro de olhos furados e uma cabeça falsa.

É sabido que houve um final alternativo, onde é revelado que Muffy teria uma irmã gêmea perdida, que realmente entraria para matar os personagens todos, mas após exibições testes, decidiram colocar como motivação apenas o desejo da moça em estabelecer um negócio turístico, que exploraria questões de livros e filmes de mistério - estilo os livros Assassinato no Expresso do Oriente e Não Sobrou Nenhum, ambos romances de Agatha Christie - e vender essa experiência para o público, ali mesmo.

Há uma cena de epílogo bizarra, que envolve Muffy e Nan (Leah Pinsent), que foi filmada meses após o término das filmagens principais, onde ambas estão com visual bastante diferente. Uma finge que vai matar a outra, com uma faca de mentira, restando assim uma última pegadinha antes de terminar o filme.

Esse trecho fica bastante deslocado, resulta em uma escolha nada sábia da produção, já que claramente as personagens não eram mais as mesmas, as atrizes mal parecem estar no mesmo papel. Soa confuso e em um filme que explica tudo, deixar essa questão em um vácuo de informação é claramente um equívoco.

A Noite das Brincadeiras Mortais se apropria de clichês e arquétipos da busca por descobrir quem cometeu um crime (ou suposto crime, no caso) e apresenta uma boa versão cômica de um filme de matança. Depende demais de não saber sua virada, mas ainda assim é um filme divertido e que honra a data com que brinca.

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