Hoffa : Um conto melancólico sobre a figura histórica e polêmica de Jimmy Hoffa

Hoffa : Um conto melancólico sobre a figura histórica e polêmica de Jimmy HoffaCinebiografias costumam ser produções complicadas de executar, uma vez que retratar na tela de cinema a vida de alguém envolve uma série de fatores espinhosos ou polêmicos. Não é incomum dentro desse filão que uma obra biográfica ser morna, ainda mais em uma arte popular como o cinema.

Eis que Danny DeVito dirigiu e estrelou a curiosa história de Jimmy Hoffa com seu Hoffa: Um Homem, uma Lenda. Nessa obra de 1992 ele tenta traduzir em tela, sem ser chapa branca, a jornada do sindicalista de métodos questionáveis, que teve uma trajetória polêmica e terminou sua vida tragicamente.

Essa coluna normalmente fala de filmes de máfia e dado que o roteiro de David Mamet pega emprestada a fórmula comum presente em filmes como Os Bons Companheiros, Era Uma Vez na América e O Poderoso Chefão: Parte II, certamente dá para encaixar o longa nessa categoria, até por conta do suposto envolvimento do sujeito com a máfia ítalo-americana.

Jack Nicholson, interpreta o personagem-título, que aparece já nos momentos iniciais de duas formas diferentes, em momentos distintos do tempo, primeiro, com mais idade, perto dos seus últimos dias e outra bem mais novo, com a carreira como sindicalista em ponto de subida, pouco antes dele se notabilizar como um fenômeno popular das estradas dos Estados Unidos entre os caminhoneiros.

Em ambas as fases se nota a proximidade dele com Roberto Bobby Ciaro, um motorista de caminhão vivido por DeVito, inventado para essa produção. A caracterização de Bobby e Jimmy é um dos aspectos mais positivos e lembrados da obra. O trabalho de John Blake com maquiagem ficou primoroso, assim como o de Greg Cannom, responsável pelos efeitos especiais práticos.

Tanto a aparência quanto os momentos mais agressivos, onde ocorrem tiros e ataque as pessoas parecem reais, tem textura de verdade, assim como eventuais explosões incêndios etc. Não é pelo visual que o público vai deixar de acreditar no drama dos dois.

É fácil acreditar que a dupla passou pelo que passou, é fácil acreditar que eles têm de fato idades distintas em momentos diferentes do filme. Além disso, a postura deles é bem distinta nas fases e linhas do tempo que vivem.

O passado é mais idealizado, mais romântico, já o presente é dramático, corroído pelo enfado e pragmatismo. Esse peso emocional casa bem com a caracterização, especialmente na aproximação que fizeram entre Nicholson e Jimmy Hoffa.

A única grande interferência física feita no interprete foi o uso de um nariz falso e uma dentadura superior postiça. De resto, foi basicamente material de maquiagem assessória e sem próteses, além de um estudo do ator para ser registrado com os trejeitos do homem real.

Hoffa : Um conto melancólico sobre a figura histórica e polêmica de Jimmy Hoffa

O filme não foi bem de bilheteria, praticamente não se pagou na arrecadação caseira, no entanto, fez um sucesso considerável em premiações, tendo indicações ao Oscar de melhor figurino e melhor maquiagem, também foi indicado ao Urso de Ouro, um prêmio da indústria de cinema alemã, mas recebeu igualmente indicação ao Framboesa de Ouro duplamente, graças a atuação de Nicholson e DeVito

Jimmy Hoffa hoje é mais conhecido por ter sido um dos personagens de O Irlandês, filme de Martin Scorsese. Curiosamente ele foi interpretado por Al Pacino, outro experiente ator de filmes de máfia. Outra coincidência é que a obra de Scorsese também inicia em uma linha temporal, para depois retornar ao passado, variando assim entre pretérito e presente.

A diferença fundamental das duas versões é que Nicholson foca sua atuação quase toda em exibir Jimmy como um herói, um sujeito de coração bom, origem humilde, é chão de fábrica.

Ele é alguém palpável, de conduta aparentemente boa, mas ainda assim um alcoviteiro, que tenta mobilizar as massas, que tenta chamar a atenção dos outros trabalhadores. Ele acerta na maior parte das cenas e faz isso especialmente graças ao cuidado da direção.

DeVito escolhe bem as formas de filmar, já no início enfia um plano sequência sensacional, que mostra a base onde os caminhoneiros saem para fazer suas encomendas. Nela se percebe um grande número de trabalhadores, sendo, portanto o palco perfeito para Jimmy fazer o seu discurso inflamado.

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Nicholson acerta demais nesse quesito. Seu personagem tem carisma, possui um discurso forte, capaz de colocar fogo mesmo no mais pacato trabalhador. Seu Hoffa é sedutor, um sujeito magnético.

Apesar de ser baseado em um personagem real, obviamente que há muitas liberdades criativas na história e como o roteiro de Mamet tem um formato episódico, com recortes de momentos da vida de Bobby, que se mesclam obviamente com as ações de Jimmy, é bem fácil que haja um sem número de invenções rocambolescas e exageros nas versões.

Mas não há nada que desabone nem o discurso propagado, tampouco a vida de Jimmy. Ele é complexo do início ao fim, um personagem que tem uma riqueza intrínseca justamente por não ser simples de compreender na plenitude.

Como ele é um sindicalista altivo e brigador, naturalmente precisa de proteção e segurança e é nesse interim que entra o velho Billy Flynn (Robert Prosky), um homem que parece bonachão, mas que guarda em si os clichês mafiosos dos filmes antigos.

Ele é armado, violento e perigoso, mas não precisa parecer assim, lembra uma versão grisalha e com mais cabelo de Pete Clemenza, o caporegime dos Corleone em O Poderoso Chefão. Sua participação é breve, trágica e muito sentida, serve não só como a introdução mais indiscutível sobre a participação mafiosa na rotina de Hoffa, como também determina o cenário trágico em que Jimmy habita.

Outra referência básica a histórias que envolvem organização secretas como Camorra ou Cosa Nostra é o modo de se portar, de se vestir e até de falar dos personagens. DeVito aproveita para copiar o estilo, arte e figurinos dos filmes de Scorsese e a fotografia de Stephen H. Burum também propaga essa sensação, sempre enquadrando os personagens de maneira grandiosa, como se fossem titãs que passeiam pela Terra, homens dotados de poder e influência, do tipo que consegue gerar dinheiro, mas que não é necessariamente comprada por ele.

Nesse universo, ser alguém poderoso conversa diretamente com o fato de ter posses e deter os meios de produção. O objetivo assumido de Hoffa é tomar para si esse poderio, apesar do seu discurso ser quase socialista, no sentido de libertar o proletariado, pregando uma ditadura dos pobres.

A ideia é que esse poder seja seu, não necessariamente do povo, ainda que pelo menos em sua fala exista uma preocupação em distribuir melhor as posses e de melhorar a condição de trabalho dos mais humildes.

Ironias e hipocrisias à parte, ele também parece movido por uma questão de nascença, de cultura e de postura. Pelo que ele entende, os homens com certo tipo de comportamento ativo vencem, comandam e mandam, os passivos aguardam seus destinos e agem de maneira tímida.

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O roteiro consegue determinar bem a diferença entre essas pessoas e não é à toa. Mamet tem experiência em histórias sobre uma América derrotada e carcomida pela criminalidade e corrupção. Seus trabalhos anteriores incluem O Veredicto, o clássico Os Intocáveis e Ronin, além de filmes menores como Homicídio e Lansky: A Mente do Crime.

O aspecto técnico que destoa um pouco da boa construção é a música de David Newman, que eventualmente, pesa a mão no melodrama. O currículo do compositor é bom, ele fez parte de grandes produções como Anastasia, Um Herói de Brinquedo e Heróis Fora de Orbita, no entanto aqui ele faz um trabalho que eventualmente tira o espectador da imersão no conto que Ciaro narra.

O elenco é repleto de figuras conhecidas, a maioria em papéis bem pequenos, mas todos marcantes, cada um ao seu modo. Estão aqui Bobby C. Reilly, Frank Whaley, Armand Assante, Richard Schiff, até os diretores Tim Burton e Jon Favreau tem aparições breves, graças a amizade que ambos tinham com DeVito.

O ator aliás filma bem, está bastante inspirado e parece saber exatamente o que quer passar em tela. Há cenas bastante bonitas e inspiradas, tanto no plano sequência lá no início (que já citamos) como em momentos mais sentimentais, tal qual o encontro entre Jimmy e Carol (Assante), um sujeito que o ajudaria nos negócios.

Quando os dois vão caçar na floresta predomina um fundo amarelado belíssimo, que mais parece um quadro pintado do que uma tomada cinematográfica.

A produção aparentemente agradou a família Hoffa. Em exibições preliminares, convidaram Jimmy Hoffa Jr. Jr. para assistir, e ele chorou ao ver o corte do filme, terminou a sessão dizendo que aquele era de fato o seu pai em tela.

O grave problema do filme é a falta dinamismo no desenrolar da história, que possui um desfecho que até surpreende, mas que não corresponde a boa construção do início, sobretudo nos momentos imediatamente anteriores ao "fim" de fato.

Um ponto positivo é a evolução de Bobby, que deixou a face simpática e agradável do início para se tornar um valentão de postura quase mafiosa. Toda vez que ele cresce para cima das pessoas impressiona, pois, um homem com menos de um metro e meio sendo tão ameaçador é engraçado. Mas ele convence, assim como Nicholson, que consegue expressar maravilhosamente o Jimmy Hoffa real.

O trabalho de emulação do ator oscarizado é primoroso, mesmo nas cenas de tribunal (que normalmente são chatas) ele trabalha bem, especialmente os embates com Bob Kennedy, que transcreviam quase literalmente as palavras ditas entre os dois, já que foram extraídas literalmente das transcrições da audiência.

Houve um grande cuidado com o script e ainda assim, o Jimmy dessa versão é tão carismático que ofusca o queridinho da América que era Robert Kennedy.

Hoffa é irregular, tem dificuldades em trazer um ritmo satisfatório e isso pode atrapalhar a percepção do espectador atual. No entanto sobra carisma e entrega da parte de Nicholson, além de haver um baita cuidado com o visual da obra, fato que a torna deslumbrante. Uma pena que tenha ido mal na arrecadação, uma vez que ajudou a não permitir que filmes desse tipo ganhassem vez nos cinemas.

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