Não! Não Olhe! narra a história dos Haywood, uma família que trabalha alugando cavalos adestrados e vendendo a força de trabalho dos treinadores em produções de televisão e de Hollywood. Por conta de um estranho acidente, eles sofrem a perda repentina do pai, restando apenas o casal de filhos, que tentam juntar os cacos tanto os sentimentais, já que estão abalados pelo luto, como os dos negócios.
Em meio a essa melancolia, os irmãos OJ e Emerald se deparam com um estranho contato, trecho esse que resgata toda sorte de referências a filmes com extraterrestres, mas a origem e configuração deste entrave é curioso e bastante diferenciado desde a primeira aparição.
Esse é o terceiro longa-metragem do cineasta Jordan Peele, o mesmo que trouxe a luz Corra e Nós, e como tal há a ideia de colocar pessoas não caucasianas no centro da ação.
O filme chamado originalmente de Nope mistura gêneros bem distintos, começando com um drama familiar, passando pelo velho western, resultando então em um filme de terror com pitadas de ficção científica.
O personagem com mais tempo de tela é OJ, vivido por Daniel Kaluuya, o mesmo que protagonizou Get Out e que aqui, faz um homem tímido, comedido, ao contrário de Otis Haword Sênior (Keith David), que era um sujeito do showbusiness, habilidoso com os bichos e ainda mais com os integrantes do mundo da arte.
OJ é um sujeito que aparenta ser passivo, quando é na verdade pragmático, adepto da lei do esforço mínimo e antipático a ideia de gastar energia com o que não tem solução. Essa linha de pensamento e seu modo de lidar com os grandes equinos de sua fazenda casam bem com a cautela que se faz necessária ao notar sobre o que é o perigo que espreita a fazenda que ele e sua irmã herdaram.

O outro lado da família que restou, há Emerald (Keke Palmer), a irmã com pretensões artísticas, que surge para ajudar o primogênito.
Não fica claro se ela também trabalhava com o pai, ou se ela simplesmente tentou seguir uma carreira artística longe dos cavalos. O que é dado é que ela já trabalhou com aquilo, e mesmo que Otis Sr, não tenha sido mostrado lidando diretamente em um set, fica patente que os talentos do patriarca foram divididos entre os filhos, com o cuidado com os animais restando ao menino e o carisma caindo sobre a menina.
São então complementares, mas como é comum desde Caim e Abel, os irmãos vivem brigando e competindo entre si, exceto quando percebem o perigo.

A fazenda é cercada por algo, e a forma como a ação do vilão se estabelece é lenta e gradual. Um dos grandes méritos do roteiro de Peele é o de não subestimar o público, não permitindo que as características da criatura sejam explicadas de modo didático ou com explicações óbvias e convenientes.
Esse texto mira elucubrar apenas primeiras impressões, por isso, economizamos nos spoilers. Podemos analisar novamente os rumos narrativos e dramáticos, dessa vez mais detalhadamente quando o filme sair em home video, mas apesar dos pesares, há poucos segredos dramáticos aqui, se comparado aos filmes anteriores do cineasta.
O cenário interiorano lida com questões de tédio, violência e espírito armamentista. Mergulha no âmago da América, em como as pessoas ordinárias do interior vivem, e até rivalidades comuns entre gente do mesmo ramo, são estabelecidas, como entre os Haywood com o personagem de Steven Yeun.
Por mais que lide com uma questão antirreligiosa, já que uma invasão alienígenas contradiz o conceito bíblico, há uma exteriorização do trecho bíblico de Lucas 14:11: "Pois todo o que se exaltar será humilhado, e o que se humilhar será exaltado".
A tal passividade de OJ é recompensada, se mostrando o movimento estratégico mais inteligente e sagaz, o ideal para encaixar o instinto de sobrevivência.
Mesmo personagens mais "pomposos", como o diretor de filmes artísticos Holst (Michael Wincott), e que representa exatamente o traço de cinema cujo circuito se julga superior ao consumido e produzido pelo mainstream, tem seu confronto e é desconstruído enquanto arte presunçosa, assumida dentro do roteiro como dependente financeiramente da arte mais "comercial". Toda sorte de arrogância é discutida e invariavelmente punida.
Um aspecto técnico bem explorado é a fotografia de Hoyten Van Hoytema, o mesmo cinematógrafo de clássicos modernos como Vencedor, Ela e os longas de Christopher Nolan, Dunkirk, Interestelar e Tenet. Aqui as lentes tratam o cenário arenoso do interior com a mesma visão grandiosa das obras épicas citadas, com um registro que foge do glamour e sobra em desolação.
É fato que Peele quer fazer seus filmes dentro de estilos e narrativas bem diferentes entre si. O apelo dessa vez é diferente do horror tipicamente estadunidense, não só na crítica ao fazer arte de seu país, mas também na questão de lógica.
Há uma óbvia referência a um tipo de cinema europeu, especialmente a forma de trazer a narrativa para algo menos expositivo. Muitos filmes do padrinho do gore italiano Lúcio Fulci são tratados como ilógicos, e Nope sofre com uma crítica semelhante, tendo momentos visuais ótimos, não se prendendo a padrões dentro do roteiro, alimentando questões misteriosas a respeito do opositor que permeia toda a história.
O final de Não! Não Olhe! tem potência, reflete sobre os limites da auto exposição por conta da ganância, e em como até pessoas humildes podem ceder a mesma característica desesperada por capital, vista com maus olhos quando ocorre com terceiros, mas defendida pelos protagonistas, quando se veem diante dessa necessidade. Essa é uma obra de camadas e que vale um descortinar com mais detalhamentos no futuro.









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