Crítica: Amor, Plástico e Barulho

21038630_20130910191951093.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxO caminho da fama das pop stars de periferia.

A música popular romântica, ou música brega – conotação imposta pela mídia, mas contradita pelos críticos e estudiosos do meio musical – sempre foi um fenômeno nas periferias brasileiras, de um modo geral. Um de seus subgêneros, o tecnobrega, começou a aparecer no nordeste, quase no início dos anos 2000, e de lá pra cá cresceu ainda mais. Gerando filhotes que propagaram o estilo por todo país, conquistando públicos de diversas classes sociais.

Entretanto, o convencionalismo sempre pairou, injustamente, sobre esse movimento – algo bem retratado no excelente documentário, Vou Rifar Meu Coração, de Ana Rieper, que surgiu como forma de retidão, para o gênero e seus artesões. Mesmo sem possuir grande riqueza estética, são claras as veias artísticas, que brotam, naturalmente, no conhecimento cotidiano que possuem e transpõem em suas canções. Já este Amor, Plástico e Barulho, não focaliza, especificamente, o brega, mas sim as dificuldades encontradas pelos artistas e a constante busca pela ascensão.

Escrito e dirigido por Renata Pinheiro, com produção do marido Sérgio Oliveira, o conto traz a história de Shelly (Nash Laila), dançarina que sonha se tornar cantora, assim como a vocalista, Jaqueline Carvalho (Maeve Jinkings), da banda que participa. Uma mãe solteira que, mesmo com certo destaque dentre aquele círculo, mostra-se amargurada e marcada por uma vida regada a bebidas, drogas e noites em claro, que a leva a exaustão física e emocional. Tendo também que deixar a filha sob os cuidados de sua mãe, por não ter condições moral e financeira, para cria-la e oferecer uma educação digna. Sendo um reflexo real para a carreira que Shelly pretende seguir adiante.

Com um primeiro ato eficiente, Renata apresenta, superficialmente, seus personagens, definindo bem os arcos dramáticos de cada um deles e situando o espectador no universo empreendido. O submundo noturno sendo enxergado mais de perto, com planos fechados, que nos aproximam daquelas figuras, gerando uma sensação quase autêntica, em meio à conjuntura.

Isso não funcionaria sem o empenho do elenco, que se mostra bastante envolvido com o projeto, e parece se divertir em cena. O maior exemplo está na personagem de Nash Laila (Deserto Feliz), que mesmo soando extremamente cafona, é notável como a atriz conseguiu captar o espírito de Shelly, o tipo de gente que esbarramos diariamente. O mesmo acontece com a espirituosa Maeve Jinkings (O Som ao Redor), e sua Jaqueline, aparecendo com tanta força na fita, que rivaliza o protagonismo com Laila. Diria até que Jinkings conseguiu salvar algumas cenas mal construídas, do ponto vista narrativo, por sua energia e persona crescerem em tela.

Já ingressando, pontualmente, no que se refere ao trabalho de direção, é aí que os problemas começam a surgir. Primeiro no desenvolvimento dos personagens que, não fosse o carisma do elenco, seriam ainda mais rasos e desinteressantes. Onde, mesmo expondo algumas de suas dificuldades deparadas, o reflexo é mínimo na vida daquelas pessoas. Assim, também, é o ambiente, como um todo, que poderia ser mais explorado, dentre o seu meio social, mas é ilustrado de modo muito superficial, estando ali apenas para situar à plateia nas cenas ansiadas. Que mesmo surtindo efeito, tornam-se vazias com o tempo. Ainda que a trilha sonora, composta por Dj Dolores (Tatuagem), impetre sucesso por apreender o ar musical que se alastra por aquela orbe, fazendo fração sentimental nas figuras do conto.

Por outro lado, muito do tempo é gasto, desnecessariamente, quando a diretora resolve inserir dentro da trama, um conceito crítico – não sei se por receio de acharem seu trabalho demasiadamente escapista, ou por crer que o fato tinha tudo a ver, enfim... Ela protesta contra a construção de um novo shopping e via pública, que há pouco inaugurou na cidade do Recife, e provocou tumulto dentre a população. Colocando recortes reais, de reportagens feitas na época, mas alterando a qualidade das imagens e dando nomes fictícios à empresa e o local. Um artifício que destoou completamente do principal foco fílmico, além de soar extremamente deselegante, do ponto vista estético. Embora que o esforço de Eva Randolph, no trabalho de montagem, nos fez pouco notar este desacerto da cineasta.

Deste modo, num ano de vários longas-metragens produzidos, o cinema pernambucano se sobressai pela sua forma heterógena, com diversas propostas políticas, sociais e artísticas. Que, mesmo Amor, Plástico e Barulho aparecendo como algo mais simplório, dentre à cinematografia referente, é honesto ao ponto de concluir-se de maneira direta, sem soar maniqueísta, em momento algum. Ainda que possua algumas ressalvas, como foi citado acima, poderíamos dizer que este vem sim somar no circuito nacional, abrindo novos horizontes para trabalhos com menores pretensões críticas. Provando que as comédias brasileiras, sendo bem comandadas, podem voar mais alto, apenas abordando nossa cultura local, tão exposta nas periferias.

Texto originalmente publicado na cobertura do VI Janela Internacional de Cinema do Recife.

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