Crítica: Elysa y Marcela

Embora o símbolo universal da diversidade costume ser representado por um arco-íris colorido, os chamados tons pastéis ficam de fora de Elisa y Marcela (disponível na Netflix), filme dirigido e roteirizado pela cineasta Isabel Coixet (dos filmes Minha Vida Sem Mim e A Vida Secreta das Palavras). O filme é co-roteirizado por Narciso De Gabriel, autor do livro Elisa y Marcela – Más Allá de los Hombres, que foi base para o roteiro do longa-metragem.

A trama, ainda que não precisasse do "baseado em uma história real", visto que a história retratada certamente foi a história de muitas mulheres que (para a época, mas, ainda hoje) ousaram amar outras mulheres, nos entrega a interessante história e jornada de Marcela Gracia Ibeas e Elisa Sánchez Loriga, responsáveis, até onde se sabe, pelo primeiro e único casamento lésbico no religioso que se possui notícia, até hoje, no mundo inteiro. E que jamais foi cancelado pela igreja. Como isso aconteceu, é o que o filme nos desafia a descobrir.

Retratando os (des)caminhos tomados pelas duas protagonistas, Elisa y Marcela começa já em seu final e, a partir dele, vamos sendo levados aos momentos particulares (e também públicos, embora não escolhidos) das duas mulheres. Tudo que compõe o arco narrativo de ambas possui elementos que as puxam para trás, impedindo o que elas querem deixar florescer intrinsecamente e no privado: seja o convento, seja um pai linha dura — e violento —, seja o próprio tempo histórico, ou, como é de se esperar, os olhares tortos da sociedade da época, das vizinhas, dos homens das leis e da segurança pública e, claro, dos homens que não aceitavam um mero "não!".

Voltamos, então, ao aspecto não-colorido da fotografia. Sem revelar detalhes, a escolha pela fotografia em preto e branco revela um outro dissabor narrativo que perdura por quase toda a obra. Tanto Elisa, como Marcela, multicoloriam a si mesmas. Ter que conviver com a sociedade, é que acinzentava a aura de ambas. O vermelho sangrento que sabemos existir em certo momento da trama, embora não visto em sua cor real, é sentido pela dor que foi física e emocionalmente causada.

Vale destacar ainda que, mesmo de forma não intencional, o filme, curiosamente, carrega um pouco da história de Riobaldo e Diadorim, protagonistas do livro Grande Sertão: Veredas, do escritor Guimarães Rosa. Carrega também uma curiosa semelhança com outro filme recente, também de temática LGBTQI: Me Chame Pelo Seu Nome, e que também se passa em um contexto europeu, ainda que bem mais recente. Se há a cena do pêssego na história de Elio e Oliver, há a cena do polvo que envolve (meio que literalmente) o romance entre Elisa e Marcela.

A direção de fotografia em preto e branco, aliada à trilha sonora suave, acalenta os momentos de solidão entre uma e outra, realçados, por exemplo, em uma leitura de cartas trocadas por ambas, como também na descoberta que o medo do mar pode passar a inexistir, ou ainda nos momentos de medo e aflição pelo qual passam as personagens, que, na maior parte das vezes, tem apenas o amor como ponte de salvação e expectativa de futuro e saída da situação, por vezes, tenebrosa, que se encontram.

A segura direção de Isabel Coixet, que sempre filmou mulheres fortes, dessa vez, nos entrega duas outras, mas, também, a mãe de uma delas, que ousou, como elas ousaram, amar a literatura, ainda que em segredo. Ou ainda uma quarta, negra, que também ousou para a sua época, ao casar com um homem branco. São mulheres feitas de fibras, dores e sonhos.

Com isso, temos duas, três ou quatro mulheres que se permitiram sentir amores maiores que o medo, amores maiores que a vida, amores que desafiaram uma sociedade e as leis de não só um, mas, de dois países.

"Valeu a pena?" uma determinada personagem pergunta. O filme ou o amor de Elisa e Marcela?, pergunto eu. A história de Elisa e Marcela continua sendo, mesmo mais de 120 anos depois, a história dos nossos tempos.

Jônatas Andrade

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