Crítica: O Lado Bom da Vida (por Alexandre Luiz)

ladobomdavida_wDesde o começo de O Lado Bom da Vida, qualquer espectador consegue adivinhar o que vai acontecer com os protagonistas vividos por Bradley Cooper e Jennifer Lawrence. Isso porque o longa, dirigido por David O. Russel não esconde o fato de ser uma comédia romântica repaginada, com aspecto indie e ares de dramédia. E não há problema nenhum com isso, especialmente quando prova ter um roteiro que funciona em boa parte do tempo e uma direção segura e competente, sem muitas afetações, focada em acompanhar personagens problemáticos, mas que exibem grande empatia com o público.

O filme começa com Pat (Cooper), saindo da instituição mental onde ficou internado por 8 meses. O rapaz sofre de transtorno bipolar, que só pôde ser diagnosticado graças ao seu comportamento explosivo, que o fez espancar o amante de sua esposa quase que até a morte. Agora, o protagonista quer, à todo custo, tentar uma reconciliação, numa demonstração clara de obsessão e de que seus médicos estavam corretos em não aprovarem sua soltura. Durante um jantar na casa de um amigo (John Ortiz), conhece Tiffany (Lawrence), que após ficar viúva, se tornou instável em seu comportamento sexual, fazendo com que seja tão problemática quanto o próprio Pat. A partir daí, a velha fórmula das comédias românticas entra em ação, para ser desconstruída a partir dos diálogos do casal, das explosões dele ou decisões pouco usuais dela.

Para brincar com convenções, o filme até faz Pat começar um discurso sobre como ele, por ser “louco”, tem uma visão mais ampla que as pessoas normais, e é interrompido antes que chegue ao final de seu argumento. É o roteiro mostrando de forma prática como alguns clichês são bobos e como neste caso a intenção é quebrá-los. Seguindo essa “cartilha”, O Lado Bom da Vida tem dois atos muito bons. Infelizmente, não resiste ao maior de todos os clichês, tornando o desfecho bobo não por ser previsível, mas justamente por não se mostrar condizente com a coragem da narrativa. É problemático? Um pouco. Atrapalha a experiência do espectador? Dificilmente, afinal, mesmo tratando de um assunto pesado como bipolaridade, o texto explica logo no começo que não aprova finais como o de Adeus às Armas, de Ernest Hemingway. Ou seja, mesmo parecendo incoerente com a proposta do filme (baseada na desconstrução do comum), acaba sendo coerente com sua temática, deixada clara desde o início.

Funcionando também como instrumento de subversão do gênero, está o grupo de coadjuvantes. Russel, que além de dirigir, assina o roteiro baseado em livro de Matthew Quick, faz questão de enfatizar que manias e “loucuras”, todo mundo tem. O que separa as pessoas normais das “insanas” às vezes é apenas um ato um pouco mais extremo. Como classificar a superstição patológica do pai de Pat (Robert De Niro, excelente, voltando à forma)? Ou sua compulsão por apostas? Ou ainda a personalidade instável que Ronnie (Ortiz) esconde? Assim, quando o personagem de Bradley Cooper acorda os pais às 4 horas da manhã por conta de suas manias, ele não parece tão perturbado assim (em terra de cego...) ou, graças à sua motivação quase inocente de tentar retomar o casamento, ainda consegue fazer o espectador se relacionar muito mais com sua história.

É também por conta das atuações de Cooper e Lawrence que O Lado Bom da Vida convence em sua trama, sem soar desrespeitosa com os problemas psicológicos de ambos. Não há dúvida que suas vidas estão em seus momentos mais difíceis. Mas, graças à naturalidade que os dois conferem à suas interpretações, é fácil entendê-los, e até rir de seus problemas, mesmo que oriundos de natureza tão complicada de ser transformada em comédia. Lawrence recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz com todos os méritos (e um pouco do lobby dos irmãos Weinstein, os produtores) graças à sua entrega à personagem. Já Cooper demonstra muito potencial na fita, mas sua indicação a Melhor Ator parece um pouco precipitada. Sua atuação é boa, mas ainda exibe problemas, principalmente na cena da dança no final, quando há o uso de câmera subjetiva e o rosto do intérprete surge como se observado por sua parceira. Nada que comprometa, no entanto, o restante de sua performance.

Mesmo David O. Russel não arriscando na direção, o cineasta mantém um ritmo agradável para um filme de duas horas, alternando o drama e humor sem soar cansativo nem forçado. Não há nenhuma piada que pareça ser enfiada goela abaixo do espectador, tampouco nenhum momento dramático que force o melodrama (o mais próximo disso fica realmente por conta do já comentado desfecho). Com uma atmosfera suburbana que traz ainda mais realidade para a história - e a escolha da Filadélfia como cenário colabora muito para isso - O Lado Bom da Vida também se aproveita da direção de fotografia de Masanobu Takayanagi, que trabalha com cores esmaecidas para mostrar como ambos os protagonistas estão marcados pelos seus passados. Já a natureza frenética dos pensamentos do casal é muito bem ilustrada pela montagem de Jay Cassidy, com cortes rápidos sempre no ritmo dos diálogos afiados.  Danny Elfman surpreende, não sendo aquele compositor preso à temas do passado (talvez seus trabalhos com Tim Burton tenham marcado demais sua carreira) e cria uma trilha incidental formada por vozes, violas e uma pequena orquestra, fortalecendo a atmosfera intimista do longa.

O Lado Bom da Vida pode ter seus problemas, mas eles parecem pequenos quando observados em meio a tantos acertos e de uma trama cativante. A previsibilidade de seu final acaba se tornando apenas a constatação de que a jornada vale muito mais do que o desfecho (um conceito um tanto clichê, mas oportuno neste caso), até porque a conclusão da vida todos sabem mesmo como será.

Alexandre Luiz

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