Crítica: O Vingador do Futuro (2012)

O problema com refilmagens é a comparação com o original, quase sempre inevitável. Principalmente quando se trata de um clássico ou marco da cultura pop. E este é um dos defeitos de O Vingador do Futuro, nova versão para o longa de 1990 que tinha Arnold Schwarzenegger como protagonista. Quem vive o confuso Quaid desta vez é Colin Farrel, que encara a ingrata tarefa de viver um dos personagens mais marcantes do eterno Exterminador. O engraçado é que tudo isso poderia ser evitado se o diretor Len Wiseman e seus roteiristas Mark Bomback e Kurt Wimmer tivessem se mantido fiéis à idéia que fora divulgada pelo marketing desde o início: não ser um remake, mas uma nova versão do conto escrito por Philip Dick. O resultado final é exatamente o oposto, mantendo toda a estrutura do filme original, repetindo situações sem o mesmo êxito e beirando a incoerência ao fazê-lo.

Para se diferenciar do longa de Paul Verhoeven, ao invés de tentar desenvolver alguns temas com maior profundidade, o texto simplesmente remove o planeta Marte da equação, situando toda sua ação na Terra, devastada por uma guerra química que deixou apenas dois continentes habitáveis: O pedaço da Europa que comporta a Grã-Bretanha e a Oceania. No primeiro vive a classe mais elevada e no segundo os trabalhadores, constantemente explorados pela corporação chefiada por Cohaagen (Bryan Cranston). A mesma batalha de classes que serviu de plano de fundo em terreno marciano, apenas transportada para a Terra, mas sem uma justificativa plausível. E aí O Vingador do Futuro do século 21 encontra seu outro problema. A única explicação para a exclusão de um planeta alienígena até poderia ser uma proposta mais realista. Mas tudo cai por terra quando o espectador se dá conta de estar diante de uma ficção científica com equipamentos longe de existirem na realidade e com cenas de perseguição (automobilística e a pé) que quebram sem nenhum pudor as leis da gravidade, parecendo ignorarem completamente simples cálculos de aceleração, e a forma como Quaid e Melina, vivida por Jessica Biel, saltam de veículos em altíssima velocidade para “aterrissarem” ilesos, só mostra a total falta de consideração do texto com a plausibilidade. É Wiseman mostrando mais uma vez que seus personagens são todos super-humanos, até quando a trama não os identifica desta forma. Há o mesmo problema em Duro de Matar 4.0, em que Bruce Willis se move como os vampiros de Anjos da Noite. Marte seria o menor dos problemas do roteiro se a preocupação fosse manter a história com tons realistas. O que leva a discussão se a inclusão da prostituta de três seios era mesmo necessária. No original, a personagem aparece no momento em que o espectador é apresentado aos habitantes do Planeta Vermelho, desfigurados e acometidos das mais diversas mutações. Como no novo longa não há qualquer menção à “mutantes”, a aparição repentina da garota soa completamente deslocada. Talvez uma piadinha com ela dizendo que não “tem três seios” resolveria muito mais a questão do agrado aos fãs do que novamente quebrar as regras estipuladas para aquele universo.

E se a nova versão não consegue se decidir se é um remake ou um reboot nas situações, fica ainda mais abobada quando tenta um discurso filosófico sobre a identidade de cada um, ser definida pelo que a pessoa é e não pelo que ela foi. E é constrangedor a tentativa ficar nas mãos de gente tão incompetente a ponto de não desenvolver um diálogo sequer que não pareça zombar da capacidade de abstração do espectador, o que fica claro na ida de Quaid à ReKall. A conversa entre o protagonista e o personagem de John Cho sobre o que é real, parece ter sido criada por uma criança de 15 anos recém-saída de uma sessão de Matrix. E enquanto no conto (pra não parecer injusta a comparação apenas com a produção dos anos 90) há um constante clima de paranóia, mais tarde replicado por Verhoeven, Wiseman não parece interessado em instigar seu público a qualquer tipo de reflexão aqui, falhando em despertar dúvidas sobre tudo ser, ou não, um sonho. Não há espaço para ambigüidade desta vez, nem para sutilezas, que dão espaço para filosofia barata.

No entanto, em alguns aspectos, o novo Vingador do Futuro se sai bem, principalmente em seu design de produção, que auxiliado por uma direção de arte absurdamente detalhista consegue deixar tudo menos intragável, já que o visual é um deleite para os fãs de sci-fi e de ambientações cyberpunk. Há óbvias referências ao que Ridley Scott conquistou em Blade Runner com o uso da chuva e do neon, mas o que realmente se assemelha à esta outra clássica adaptação de Philip Dick é a preocupação em fazer aquele mundo se tornar convincente com suas construções de subúrbio baseadas em favelas, com casas construídas umas sobre as outras, e nos detalhes contidos em cada ambiente. Outra decisão acertada foi identificar a ReKall com uma “casa de ópio”, seja na presença de inúmeros símbolos orientais como nas cores usadas no cenário e na própria localização da empresa, adequada ao propósito desta referência, mas sem muita coerência com a trama, que mostra enormes letreiros publicitários divulgando um serviço apresentado de forma tão marginal. Os figurinos, principalmente os de coadjuvantes, também são de muito bom gosto e merecem destaque.

Como longa de ação, O Vingador do Futuro pode agradar o público menos exigente. Há competência na direção das sequências mais movimentadas, principalmente no que se refere à noção de espaço, um problema cada vez mais recorrente em obras do gênero. Existem alguns deslizes, mas os cortes são tão rápidos que poucos deverão se incomodar. Por outro lado o excesso de efeitos visuais pode atrapalhar o envelhecimento da obra, já que não são da melhor qualidade em vários momentos (as cenas das cidades, todavia, exibem uma CGI impecável). E Colin Farrel, mesmo sem o carisma de Schwarzenegger, até convence, dentro das limitações que o próprio texto impõe. Kate Beckinsale como a esposa falsa de Quaid se destaca, não por oferecer uma interpretação magistral, mas por uma exposição exagerada da personagem que assume a mesma posição do vilão interpretado por Michael Ironside no original. Obviamente o fato de a atriz ser esposa do diretor contribuiu para que sua participação fosse estendida. E Bryan Cranston, mesmo com um tempo de tela não muito grande, chama atenção por sua postura sempre confiante (um aspecto que definitivamente trouxe de seu Walter White de Braking Bad).

O problema é que o espectador de ficção científica é exigente. Uma das prerrogativas do gênero é justamente oferecer a reflexão sobre condições e problemas atuais, mesmo num cenário futurista. E nisso, por mais bonito de se ver, O Vingador do Futuro se atrapalha vergonhosamente, ficando aquém de sua primeira versão, que nem se levava tanto a sério, mas não zombava do público. O segredo de Verhoeven foi zombar, com o público, dos absurdos da mídia e do capitalismo selvagem, fazendo seu espectador se identificar com algumas idéias e sair do cinema pensando nelas. Desta vez, o único questionamento que pode surgir após a sessão é por que haveria uma mulher de três seios no meio da história. Algumas horas depois, porém, nem isso ficará na memória.

Alexandre Luiz

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Comentários

38 comments

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    Jean Soares 19 agosto, 2012 at 03:27 Responder

    O Novo "Vingador do Futuro" é um insulto descomunal a memória do clássico do fim dos anos 80 (1990). Eu consegui aguentar uns 60 minutos no cinema, na tentativa desesperada, me auto ludibriando, dizendo em voz baixa pra mim mesmo: -Essa coisa horrível é só o começo, depois com certeza vai melhorar… (Tudo em vão). O filme mais parece uma mistura de Triplo X com a "Saga Crepúsculo". A mulher que colocarão no lugar the Sharon Stones mais parecia uma… uma… Sei lá… Ela ficou tão ruim que eu nem sei mais com que ela parecia.
    Hollywood esta desaprendendo a criar filmes! Não existe mais respeito, senso do ridículo!
    Acho que agora vou assistir "Os mercenários 2" só de raiva! Ao menos ninguém vai entrar achando que vai ver um "clássico" e se deparar com uma mulher fazendo "Caras e bocas" , criando tentativas humilhantes de chegar aos pés the Stones no auge de sua sensualidade!
    A companheira do protagonista (Jessica Biel) ate que poderia ter se saído bem se todo o resto não fosse um grande Lixo!

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      Beatriz Salustiano 20 agosto, 2012 at 13:29 Responder

      Também fiquei bastante decepcionada com esse remake. Fui achando que ia ver o clássico dos anos 90, com efeitos especiais melhores (devido aevolução do genero), mas foi decepção atras de decepção. Perdi o interesse no filme rapidamente e só assisti até o fim pq ja estava la, mesmo. Mas o filme, realmente, foi bem cansativo….que droga.

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    Otto German 19 agosto, 2012 at 21:44 Responder

    Lamentável! Tentei ao máximo evitar comparações, porém mesmo que esta filme seja uma nova "visão" sobre o conto de Philip K. Dick, me passa como uma brincadeira de mau gosto. A prostituta de 3 seios totalmente deslocada, sem inclusão de mutantes, sem deslocamento para Marte (aff) onde a trama DEVERIA se desenvolver, no original ficamos em dúvida durante muito tempo o que seria "real", etc, ou seja LAMENTÁVEL! Quem não assitiu a versão anterior, não vai guardar este filme como referência, Total Recall 2012 terá sido APENAS uma breve diversão para um dia sem nada melhor pra fazer…

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    Robson Costa 19 agosto, 2012 at 23:46 Responder

    Esse remake é horrível. Só salva o visual (incluindo a Jessica Biel, linda) mais nada. O original é ótimo. Mas nem falo que o novo é horrivél comparando, mesmo se não existisse um original esse seria horrível.

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    Willian Vieira 20 agosto, 2012 at 03:39 Responder

    Acho que será impossível assistir a este filme sem estar com o clássico implantado na memória (sacaram a referência, mwa ha ha). Sem querer defender este filme, mas os saltos exagerados que contrariam as leis the física poderiam ser advindos the fantasia do Quaid. No mais, só uma refilmagem desnecessária.

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    Filipe Camelo 23 agosto, 2012 at 23:47 Responder

    Vi o filme na última segunda, e não achei o filme ruim, porém ele também não bom, podemos dizer que é mediano.
    Não posso fazer muitas comparações com o filme de 1990 porque não me recordo muito dele, vi algumas vezes, mas já tem um bom tempo que não vi, e não procurei rever antes de ir assistir ao novo.
    O que mais me agradou no filme foi a direção de arte, principalmente o lado da "Colônia". A inspiração em "Blade Runner" é pra lá de evidente e ficou muito boa.
    De resto achei o filme muito parecido com "Minority Report", inclusive a cena da perseguição na "auto-estrada". A própria cena da "auto-estrada" tb me lembrou "Eu, Robô", isso sem falar nos robôs policiais que são quase iguais aos "Sonnys".
    Outra coisa que me incomodou bastante foi o personagem Quaid ser muito parecido com o Jason Bourne. Ele não sabe quem é, mas sabe lutar, atirar e pilotar naves. Isso sem falar na falta de motivos para as ações de alguns personagens.
    E quanto a prostituta com 3 seios, é visível que a presença dela no filme é unicamente como "homenagem" ao original, homenagem que para mim poderia ter sido deixada de lado, afinal enquanto no filme de 1990 há um porque da presença dela, nesse no filme não há nada que justifique a sua presença.
    No fim das contas é filme que tem boas cenas de ação, e que deva agradar uma parcela do público, mas que deixa a desejar no quesito história.

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    Jean 30 agosto, 2012 at 22:07 Responder

    Toda a magia do primeiro filme, na minha opinião, estava em Marte. Atualmente, com uma série de expedições ao planeta vermelho, fica difícil simplesmente "esquecer" dele. "O Vingador do Futuro" não é a mesma coisa sem Marte. É como se quiséssemos refilmar "Avatar" com pessoas comuns, habitando a Terra mesmo. Não dá…

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    Daniele Amorim 3 setembro, 2012 at 14:12 Responder

    Eu não assistir ao antigo, então, não tenho parâmetros de comparação. No entanto, posso dizer que após a sessão tive certeza de que minhas expectativas não se concretizaram. Um bom filme, mas não O Filme.

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    Daniele Amorim 3 setembro, 2012 at 14:12 Responder

    Eu não assistir ao antigo, então, não tenho parâmetros de comparação. No entanto, posso dizer que após a sessão tive certeza de que minhas expectativas não se concretizaram. Um bom filme, mas não O Filme.

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    Marco Barozzi 30 setembro, 2012 at 23:34 Responder

    Gosto de assistir ficção cientifica. Quando o filme passa alguma ideia como a do trem de gravidade que atravessa o planeta ou outra teoria qualquer, torna mais divertido. Sobre o resto realmente e uma ideia copiada, um remake com mais recursos. Não se pode querer leva a serio. Todo mundo bate muito, apanha muito, cai muito e tudo bem. As ideias vem de vários filmes de ficção. Fazer o que. Se no final realmente se tratasse de uma ilusão acho que teria sido mais interessante.

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    rafael 3 dezembro, 2012 at 22:59 Responder

    É verdade que o Original era bem melhor mais esse tbm não foi ruim
    o que vocês não entenderam e que no final aquilo tudo foi ilusão da rekal
    quando ele olha para o braço direito retira o esparadrapo e vê que ele nao tem a tatuagem
    da injeção ele percebe que foi uma ilusão e olha para um predio ve o no da emrpesa REKAL
    prestem mais atenção antes de não entenderem o filme

    • Avatar
      Alexandre Luiz 3 dezembro, 2012 at 23:12 Responder

      Assista a versão pra cinema (que é a criticada neste texto) antes de qualquer coisa. A cena que você se refere está presente na versão estendida, que só está saindo agora. E que não melhora em nada o filme. Muito pelo contrário…

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    rafael 3 dezembro, 2012 at 23:23 Responder

    Eu assisti as 2 versões achei que a estendida fez mais sentido não melhora o filme e claro mas e mais obvio.
    mas mesmo assim o orginal é o "ORIGINAL" muito melhor .

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    Filipe Campeiro 4 dezembro, 2012 at 19:16 Responder

    Eu queria saber Porque o simbolo tatuado no braço no meio do filme no final desaparece isso fico sem sentido Se tudo no filme era real

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    Günesh Gursel 5 dezembro, 2012 at 05:55 Responder

    o filme nao eh dos piores .. todo mundo q to vendo criticando nao entendeu o final ! ta todo mundo falando q seria melhor se fosse realmente uma ilusao.. sendo q no final quando ele ve q nao tem a marca no braço mostra que eh uma ilusao … pq se fosse real a marca tinha que ta la..so que ele aceita viver nessa ilusao..

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    Fabiano Pereira 5 março, 2013 at 23:45 Responder

    nem vi essa porra e nem na morte quero ver…so mas o antigo com arnold….essa porra desse filme ai faz qualquer um vomitar…resumindo…..um lixo..só pelo que o camarada ai falo do filme,, explicando já sei que é uma merda completa..prefiro cortar meus pulsos a ver essa nova verção….

  15. Avatar
    Fabiano Pereira 5 março, 2013 at 23:45 Responder

    nem vi essa porra e nem na morte quero ver…so mas o antigo com arnold….essa porra desse filme ai faz qualquer um vomitar…resumindo…..um lixo..só pelo que o camarada ai falo do filme,, explicando já sei que é uma merda completa..prefiro cortar meus pulsos a ver essa nova verção….

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