Crítica: Rock of Ages - O Filme

Desde o começo dos anos 2000 os  musicais voltaram às salas de cinema. Com obras criativas como Moulin Rouge ou Across the Universe, que mesmo pecando pelo roteiro, se salva pelo visual, mas também com produções esquecíveis como Rent ou Mamma Mia, o retorno foi marcado por uma visão mais mercadológica onde muitas vezes composições originais cedem espaço para o uso de canções populares, clássicos do pop/rock. Funciona, já que agrada mais ao público acompanhar uma história ouvindo músicas que fizeram parte de sua infância ou adolescência. Por isso, Rock of Ages – O Filme deve pegar em cheio quem cresceu ouvindo rádio ou assistindo a MTV durante a década de 80 e 90 ou a nova geração, acostumada ao resgate musical do seriado Glee. Mesmo não tendo a mais atrativa das histórias nem o mais bem escrito dos roteiros, o longa, dirigido por Adam Shankman, é um atrativo pros fãs de hard rock, que nunca esconderam o coração mole na hora de curtirem as baladas de suas bandas preferidas.

Partindo da mais básica das tramas, Rock of Ages começa com Sherrie (Julianne Hough), garota do interior que parte para Los Angeles na tentativa de mudar de vida. Lá encontra o jovem Drew (Diego Boneta), funcionário do bar Bourbon Room, badalado local que já abrigou inúmeros shows, mas que agora enfrenta a decadência do rock oitentista. O rapaz sonha em ser um astro com seu grupo, a moça também espera ganhar a vida cantando. Em meio a tudo isso, Stacee Jaxx (Tom Cruise), típico líder de banda de hard rock, passa por sua pior fase, numa clara alusão ao que o próprio estilo começou a viver na época em que o filme se situa, o ano de 1987. Você já sabe como isso vai terminar porque já viu essa história várias vezes. Mas poucas com o atrativo de uma trilha sonora de sucessos dos anos 80, em arranjos criativos que fazem mashups como I Love Rock and Roll sendo intercalada com Jukebox Hero ou We’re Not Gonna Take It misturada à We Built This City (nota: fãs de rock, fiquem atentos nesta cena para reconhecer alguns nomes como Sebastian Bach e Nuno Bettencourt fazendo rápidas aparições na multidão).

Mesmo as sequências musicais não tendo o impacto visual de um Across the Universe, por exemplo, é preciso reconhecer a qualidade das interpretações e de como cada uma das músicas se encaixa tão bem na trama. Mesmo More Than Words, do Extreme, deslocada no tempo, já que seria lançada apenas em 1990, serve a seu propósito (as duas faixas do Poison, Every Rose Has Its Thorn e Nothin’ But a Good Time, sofrem do mesmo problema, pois foram lançadas em 88). Boneta e Hough já estão acostumados a soltar suas vozes. O primeiro faz seu primeiro grande papel nas telonas norte-americanas, mas com o peso do sucesso de sua terra natal, o México. A segunda, vencedora do Dancing With the Stars, tem uma sólida carreira como cantora country. Ambos exibem carisma e competência não apenas nas interpretações (das músicas), mas nas coreografias, conseguindo segurar o roteiro sem novidades e os problemas de direção, que não são poucos, principalmente no que se refere à continuidade. Em vários momentos a posição dos atores muda de um take para outro, gerando cenas que beiram o amadorismo. Na área técnica quem se sai bem é o diretor de fotografia Bojan Bazelli, que ilumina tudo com as cores mais extravagantes, marca registrada da época. Os rostos dos atores estão sempre envoltos de tons roxos, rosas, azuis ou vermelhos, e que são bem usados, como na cena em que o empresário vivido por Paul Giamatti vê em Drew um novo talento para explorar. Para ajudar, os cenários extravagantes que a direção de arte criou, completam o clima de nostalgia da obra.

Se os protagonistas se saem bem apenas na cantoria e na dança, os coadjuvantes não desapontam em nenhum quesito, e se destacam muito mais nas sequências onde não há música. Russel Brand e Alec Baldwin são bons exemplos disso. Ambos são os responsáveis pelo Bourbon Room e suas tiradas, assim como a subtrama que os envolve, são impagáveis. O casal formado por Bryan Cranston e Catherine Zeta-Jones, o prefeito de L.A. e sua primeira-dama empenhada em abolir o rock, também geram bons momentos, embora o ator de Breaking Bad pareça um tanto fora de lugar, não por falta de competência, mas por conta do peso de seu Walter White, que o tornou um intérprete de personagens sérios. Esse estranhamento causado pelo conhecimento prévio de sua carreira pode até favorecer, já que o deslocamento pode acabar soando engraçado, dependendo de cada espectador. Já Zeta-Jones não tem vergonha de parecer ridícula e a forma desajeitada como interpreta Hit Me With Your Best Shot é seu grande momento. Mas é mesmo Tom Cruise que rouba a cena, interpretando Stacee Jaxx como a representação de um sobrevivente do rock. Vivendo uma vida de excessos de droga e álcool, o líder da banda Arsenal se encontra em sua fase mais problemática. A cabeça confusa, os problemas existenciais. Tudo aquilo que qualquer fã de bandas da época sabe que seus ídolos passaram, muito bem representado pelo ator, engraçado e trágico, numa performance que faz o espectador não tirar os olhos da tela. Cruise, além disso, ainda se revela quando solta a voz e atinge agudos à lá Axl Rose. A esse ponto da carreira, parece não haver papel que este não seja capaz de fazer.

Provando que o fator diversão pode disfarçar o fator qualidade, Rock of Ages faz jus ao estilo musical que homenageia. No espírito do bom e velho rock and roll, que não precisa de muitos acordes para agradar, o filme não perde o pique e se torna uma boa pedida pra ser conferido nos cinemas, principalmente naqueles cujo sistema surround é impecável. Em alto e bom som, os sucessos de outrora provam sua longevidade.

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Veja também:

O Básico do Cinema: Movies That Rock

Alexandre Luiz

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3 comments

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    Filipe Camelo 26 agosto, 2012 at 02:08 Responder

    Estou com muita vontade de ver esse filme. Curti demais o filme "Hairspray" de 2007 que é do mesmo diretor de Rock of Ages. Infelizmente, aqui na cidade, a rede cinemas preferiu colocar em exibição o documentário "Soberano 2 – A Heróica Conquista do Mundial de 2005" do que o Rock of Ages. Resta agora ficar na torcida para que resolvam exibi-lo na próxima semana, mesmo com a estréia de "Os Mercenários 2" que dificilmente deixará de entrar em cartaz por aqui na próxima semana.

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