Quase, Quase Uma Máfia : Uma paródia confusa sobre filmes de gangsteres

Quase, Quase Uma Máfia é uma comédia sobre máfia e criminalidade. Sua abordagem envolve o ideal de fazer piadas com a estrutura da Cosa Nostra e das organizações de bandidos italo-americanos nos guetos da Nova York do século XX.

Do original The Gang That Couldn't Shoot Straight, o longa foi dirigido por James Goldstone, possui roteiro de Waldo Salt e é baseado no livro homônimo de Jimmy Breslin. Apesar de ter sido uma aposta da Metro-Goldwyn-Mayer - que produziu e distribuiu o filme - ele é mais lembrado hoje por ter sido um dos primeiros filmes em que Robert De Niro teve destaque, antes até da parceria dele com Martin Scorsese, três anos antes de Caminhos Perigosos.

No elenco principal também tiveram outros atores conhecidos, sendo Jerry Orbach, Jo Van Fleet e Lionel Stander os mais famosos entre os interpretes.

A obra é produzida por Robert Chartoff e Irwin Winkler, nomes que aparecem antes da abertura animada. Esse trecho engraçadinho é certamente um dos pontos altos do filme, mostrando os personagens através da arte do grande Mort Drucker, famoso cartunista que trabalhou na revista Mad por mais de 50 anos.

A história se passa no Brooklyn, trecho da cidade conhecido como um dos lugares mais perigosos do país e aqui, o motivo dessa insegurança é a guerra entre gangues. Na televisão é mostrado um noticiário sobre Anthony Pastromo, o mafioso Baccala (Stander), mafioso conhecido como o Grande Papa do Vício do Brooklyn.

Ele é descrito como alguém implacável, violento e malvado, carrega esse apelido desde que um amigo morreu engasgado em sua frente, não ficando claro se foi ele quem cometeu o ato homicida contra o sujeito ou se foi um acidente que ele deliberadamente não tentou evitar.

A caracterização do personagem é um resumo da abordagem e do espírito galhofeiro do roteiro. Ele é claramente um deboche com figuras criminosas, uma paródia de um chefão do crime, apresentado em uma casa de luxo e isolada.

Baccala é tão paranoico que só confia em uma pessoa: a sua esposa. Devido a isso, ele coloca nela a responsabilidade diária de girar a chave do seu carro, para antever a possibilidade de ter uma bomba implantada no veículo.

O sentido de autopreservação do sujeito é tão gritante que se torna caricato, já que sobrepõe qualquer apego a família. Ele coloca em perigo a integridade de sua parente mais próxima, só para garantir a sua própria vida.

Quase, Quase Uma Máfia : Uma paródia confusa sobre filmes de gangsteres

Mesmo que esse comportamento apareça em um personagem de um filme cômico, é assustador o seu egoísmo, assim como é simbólico o fato de que sua esposa não possui falas, é apenas um enfeite, um papel sem nuances, que dá a ele uma aparência de normalidade familiar.

A sra. Baccala é assumidamente uma personagem sem complexidade, sem ações humanas, é uma mera repetidora de atos contínuos, uma pessoa que segue ordens e papéis pré-estabelecidos. A questão é que ela é assim de maneira escrachada e escancarada, é assumida mesmo. A maior parte dos personagens é exatamente assim, mas não propositalmente, já que tentam disfarçar a falta de complexidade o tempo inteiro.

É difícil encontrar aqui uma figura de protagonista. Baccala certamente não é, embora o seu reinado de crimes seja o centro motor da história. Ele é um chefão contraventor, mas também tem negócios privados legítimos, que parecem seguir bem, apesar de só estarem ali por conta de serviço de fechada para os negócios escusos.

O filme não deixa qualquer dúvida de que sua ideia é fazer piada com obras antigas, entre filmes noir e policiais mas especialmente, sobre obras que lidam com a Máfia, Cosa Nostra ou organizações originadas da Calábria, Napoles etc, em especial a clássica trinca dos anos 1930, com Alma no Lodo, Scarface: A Vergonha da Nação e Inimigo Público.

Aqui também se alude a um personagem jovem, que tenta a ascensão em um cenário violento e de alta competição criminal, mas tem intenções dúbias. Esse personagem idealista poderia ser Kid Sally (Orbach), que por sua vez, é baseado no mafioso real Crazy Joe Gallo.

Ele é um homem perigoso, que lidera uma pequena gangue que faz cobranças para Baccala, suas posses são modestas, é mostrado morando em um apartamento pequeno, com a mãe e com sua irmã, Angela. No entanto ele é só mais um personagem que não consegue fugir do arquétipo, é um mero enfeite em uma trama de cartas marcadas.

É justamente a irmã dele quem mais nutre semelhanças com um personagem-central de uma história clássica. Angela (Leigh Taylor-Young) é vista por todos os vizinhos como um alvo sexual, mesmo que ela não haja de maneira expansiva ou algo que o valha, uma vez que se veste sempre de maneira comportada, apesar de eventualmente usar saias, fora que é uma menina de comportamento calmo e tranquilo.

Ela é uma mulher que se veste como quer, não se privando de mostrar as partes belas do seu corpo, embora esteja longe de ser exibicionista. No entanto o fato dela não achar que deve guardar obediência a qualquer homem pesa contra si, já que ela é naturalmente sexualizada por conta disso.

Não fica claro se o roteiro é esperto o suficiente por fazer desse um comentário ácido, crítico e irônico, sobre como mulheres são naturalmente retratadas no cinema das décadas anteriores, ou se ele só nada a favor da maré, condenando ela só por ser uma mulher. Há espaço para acreditar em qualquer uma dessas possibilidades.

As partes de interações românticas do filme recaem todas sobre Angela, com ela sendo a provocadora dessas ações, inclusive, se mostrando como o alfa nos enlaces sentimentais. Parte dela a ação de convidar o seu par, que ainda será descortinado nesse artigo.

Quase, Quase Uma Máfia : Uma paródia confusa sobre filmes de gangsteres

O elenco de apoio é formado por pessoas conhecidas dentro do nicho de filmes sobre mafiosos ou produtos da cultura pop conhecidos, mas nem tanto. Dentro do segundo grupo, está Hervé Villechaize, que fez o Tatu de Ilha da Fantasia, Frank Campanella de Uma Linda Mulher, Paul Benedict (This is Spinal Tap), Burt Young (Rocky: Um Lutador), já no primeiro, há Michael V. Gazzo, que foi o icônico Frank Pentangeli em O Poderoso Chefão 2.

Boa parte dos personagens feitos por esses atores compõe o bando de Kid Sally, e ele acredita que precisa de reforços para destituir Baccala de seu poder e majestade. Para tal, ele procura forças em um animal silvestre, arrumando um leão para tentar intimidar o chefão.

Como o filme é uma comédia, boa parte da história se dedica a demonstrar que Sally não tem a mínima estrutura para ter um animal tão grande, ainda mais morando em uma casa humilde no Brooklyn. Os bandidos improvisam um lugar no porão da sede da gangue, perto da onde costumavam acontecer os jogos de azar deles.

Essa é uma obra meio sem foco, com história multinuclear, com um formato que guarda semelhanças com as telenovelas populares. Em outro hemisfério dramático, Angela vive as suas expectativas e acaba conhecendo o italiano Mario Trantino, personagem de De Niro.

O rapaz havia acabado de chegar da Europa, oriundo da Calábria e aparenta não conseguir falar inglês muito bem. Sua caracterização é curiosa, uma vez que ele parece ter necessidades muito básicas, sendo um verdadeiro esfomeado na maior parte dos momentos em que aparece, mas ele é mostrado como alguém inteligente, dissimulado e manipulador.

Ele vive na penúria, claramente, tendo vindo para a América atrás de oportunidade de trabalho, fossem eles legais ou desonestos, como era comum entre imigrantes. Nem mesmo a sua condição de pobreza o impediu de gerar um interesse romântico na mocinha. O enlace dos dois é a parte mais séria do filme.

A questão problemática é que na maior parte do tempo, o script apela para um humor pueril, quase infantil, com muitas piadas físicas. É bastante apelativo, meio sem personalidade, em alguns pontos parece estar imitando Cassino Royale, a comédia que faz piada com filmes de espionagem e que é protagonizada por David Niven em 1967.

Se Cassino Royale tem algum brilho ao debochar da condição dos agentes "nada secretos" de Ian Fleming, aqui não há um aprofundamento sobre as fragilidades do modo de operar dos criminosos de origem europeia. Parece que o texto tem receio em fazer piada com os personagens italianos, não há sequer um grande apelo a estereótipos escrachados.

Talvez os produtores tivessem medo, uma vez que o alvo do seu humor eram gangsteres. Mesmo que os apresentados aqui façam referência a bandidos dos anos 1920 e 30, há ainda muitas semelhanças com as organizações mafiosas da década de setenta.

As piadas são medianas, envolvem até um banho no leão, dentro de um lava jato. O que realmente assusta é que o elenco contracenou de fato com um leão. Se a equipe tinha receio de ser enquadrada pela máfia, certamente não tiveram tanto cuidado em lidar com um animal selvagem capaz de matar os homens. Domesticado ou não, não é desprezível a utilização de um felino desse porte.

 

Quase, Quase Uma Máfia : Uma paródia confusa sobre filmes de gangsteres

Goldstone tinha mais experiência com produções televisivas, tendo dirigidos episódios em como Viagem ao Fundo do Mar, Jornada nas Estrela. No cinema, fez Oferece-se Pistoleiro, A Noite Convida ao Crime, 500 Milhas. Depois desse Quase, Quase Uma Máfia ele fez o filme catástrofe Terror na Montanha-Russa, O Dia em que o Mundo Parou e Voyager: Rumo às Estrelas, ou seja, seguiu dedicando sua carreira ao cinema de gênero, variando entre horror e ficção científica.

Já o roteirista Waldo Salt ficaria famoso depois desse filme. Trabalhou no texto dos clássicos Serpico e Amargo Regresso. Antes desse fez O Selvagem de Bornéo. Fica claro que essa obra foi um ensaio para gente da indústria que daria muito certo depois. Já Chartoff e Winkler produziram alguns filmes muito bem-sucedidos juntos, entre eles, Touro Indomável, Rocky: Um Lutador e Creed: Nascido Para Lutar. Entre eles há a temática da imigração italiana nos Estados Unidos.

Uma história curiosa de bastidores envolve Al Pacino. O papel de Trantino seria dele, mas ele foi substituído em cima da hora. O ator estava negociando com a Paramount para fazer Michael Corleone em O Poderoso Chefão, mas os estúdios não confiavam nele para protagonizar a fita, uma vez que era conhecido apenas no teatro.

Por insistência de Francis Ford Coppola, escolheram Pacino e o estúdio teve que pagar o contrato com a Metro-Goldwyn-Mayer. O papel acabou caindo no colo de Robert De Niro, que havia feito teste para o filme de 1972, quase sendo escolhido para ser Sonny Corleone. Acabou sendo o jovem Vito em O Poderoso Chefão II.

Como De Niro é um ator do método, sua preparação para fazer Trantino foi bastante intensa. Uma fofoca de bastidor dá conta de que ele teria roubado duas camisas da loja de departamentos Macy's e as escondeu sob a jaqueta, basicamente para sentir na pele a sensação que era a de roubar.

Ele foi preso, junto a Taylor-Young. Chartoff e Winkler tiveram que intervier, explicando a polícia que aquele não era um roubo real e sim uma preparação para o filme que a dupla produzia.

Nos momentos finais o script revela o óbvio: que a liderança de Baccala é ridícula. Se baseia em humor físico, quase escatológico. Uma das cenas dele de maior destaque é durante uma janta, onde ele se suja comendo macarrão e vinho, se esbaldando tal qual um homem sem modos, muito diferente do clássico visto em um homem de família de origem europeia.

Não é à toa que Kid planeja matar ele, mas entre ataques bizarros na famosa ponte Verrazano, ele se enrola, como já era óbvio, dado que ele é mostrado como alguém inapto desde o momento em que entra em cena.

O final é apressado, mostra os peixes pequenos do crime organizado caindo, inclusive Mario, que é pego como testemunha. Ele concorda em entregar os peixes maiores, mas quando finalmente vai depor, ele finge que não sabe falar inglês. Curiosamente houve um trecho parecido com esse, nas cenas de tribunal de O Poderoso Chefão 2, envolvendo Frank.

Angela termina o filme sem o irmão (preso), sem o namorado (deportado) e sem esperanças. Ela então libera o leão na rua, para que ele vá pelo Brooklyn em liberdade. Sua falta de perspectiva é bem focalizada, com a participação dela parecendo algo bastante simbólico, pois ela se desinteressa pelas tramas e o filme assume que não quer mais contar história alguma, fora que ela dá ao leão a liberdade de viver, artigo de luxo para ela, que sempre foi acorrentada as possibilidades parcas do destino.

A última cena é bem parecida com a primeira, com Baccala mandando a esposa virar a chave, mas dessa vez a bomba explode assim que ele entra no carro, mostrando que o mecanismo ou foi programado para explodir pouco tempo depois da ignição, ou só foi colocada de forma errada. Era para ser engraçado, mas não há impacto no espectador.

Quase, Quase Máfia é uma boa demonstração de como eram vistos os filmes de crime organizado nos anos prévios a O Poderoso Chefão. De resto, é a velha história do bandido de baixo nível, tencionando subir na hierarquia criminal, buscando o topo da cadeia alimentar mafiosa. Seu maior feito é ir na contramão da moda que o cinema tinha em glamourizar a máfia, registrando essas sociedades secretas como algo para desdenhar mesmo, como normalmente deveria ser com qualquer secto criminal.

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