Ultimato e os Vingadores Originais

Ao assistir pela primeira vez Vingadores: Ultimato, tomado pela emoção, não notei alguns dos detalhes importantes da obra, e uma delas é ao final dos créditos ter as assinaturas dos personagens clássicos, os vingadores originais, Robert Downey Jr., Scarlet Johansson, Jeremy Renner, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth e Chris Evans assinaram seus nomes ao final, tal qual Jornada nas Estrelas VI – A Terra Desconhecida, que também fechou o ciclo de historias da tripulação clássica de Star Trek. Depois de matutar sobre isso e vendo o destino de cada um deles, decidi falar um pouco do que eu gostei a respeito dessas trajetórias.

Talvez a melhor mudança ocorrida neste 22º filme da Marvel Studios, seja a transformação do status quo. Ora, até em quadrinhos o que se vê são perigos terríveis ocorrendo, Nova York, Gotham, Metropolis e outras cidades sendo reduzidas a cinzas e se levantando normais nos dias posteriores, e aqui, não. Ultimato lembra as graphic novels fora da cronologia, que podem brincar com as mudanças que o tempo daria aos personagens, uma vez que gibis de linha tendem a manter os personagens sem envelhecer ou sem sofrer quaisquer ações de tempo por mais mínimas que sejam. Isso pode ser revertido nos filmes, mas esperamos que não, porque tudo aqui foi bem construído demais.

A partir daqui haverá alguns (muitos) spoilers da trama, se for ler, saiba disso.

O primeiro citado será o deus do trovão asgardiano, Thor que após os cinco anos da devastação cósmica desencadeada por Thanos, é o que mais mudou fisicamente, tendo algo aproximado somente ao segundo citado, logo após ele. Hemsworth é um ator conhecido por sua beleza, vê-lo com um sujeito obeso, bêbado e deprimido inverte todas as expectativas pré-filme, mas que incrivelmente fazem um enorme sentido, pois ele foi o que mais teve perdas. Em Mundo Sombrio, ele perde sua mãe, em Ragnarok, perde Asgard, seu lar, antes disso seu pai morreu e ele teve que amargar a morte de Hela, sua irmã que acabou de conhecer, além de Loki ter aparentemente morrido em Guerra Infinita (o próprio asgardiano põe em cheque se ele morreu, pois era mestre em trapaças e mentiras). Suas perdas são enormes, e por mais que haja muito humor nos roteiros, ele sente o impacto e a depressão estabelecida ali é bem respeitada, e ao menos nesse ponto, não há qualquer artifício cômico. Thor perde seu chão, e mesmo sendo heroico, ele se torna como os homens de Midgard, humano ao extremo. Muito se reclamou de que tudo que ele aprendeu nos finais de seus filmes, ele automaticamente esqueceu, e de fato isso incomoda um pouco, mas a realidade é que o ideal dessa versão cinematográfica é aludir às muitas fases dos quadrinhos, daí a um pouco de pressa. Asgard se estabelecer na Terra também existe nos quadrinhos, assim como as fases de deus do trovão, que foi rei, herói, divindade e pirata, como deverá ser nos próximos filmes do estúdio.

Já o Hulk também traz mudanças visuais grandes e no final, ele tenta resgatar a morte de um dos seus, mas não consegue. Ele é benevolente, inteligente, carismático, Nice Guy e um bom exemplo para as crianças, e essa versão do Hulk inteligente ao seguir um pensamento mais lógico, acaba soando até mais engraçado e curioso do que antes, na amálgama entre Bruce e o Gigante. A Universal sempre colocou barreiras para novos filmes solos do personagem pós Edward Norton, e a escolha por usar os filmes dos Vingadores e Thor 3 para desenvolver essa trajetória foi uma boa saída, passando pela fase clássica do Gigante Esmeralda destruidor e inconsequente, que se torna um vilão involuntário em Era de Ultron, e um gladiador em Thor Ragnarok, com elementos até de historias clássicas como Planeta Hulk. Seu ultimo passo o mostra finalmente com maturidade para utilizar força e cérebro juntos, foi ótimo, para a trama e para o personagem, e as consequências físicas dele para o futuro são diferenciadas, pois um de seus braços está bem danificado, além do que não há uma saída fácil como ele com um par romântico, sem Betty Ross (aparentemente esquecida pelo universo cinemático) e sem sua possível nova amada, que teve de se sacrificar para o futuro de todos os outros.

Nos quadrinhos, a Viúva Negra é uma espiã, de moral dúbia, com muitos tons acinzentados, se confundindo entre o arquétipo de anti-heroína e heroína clássica. A escolha de Jon Favreau em Homem de Ferro 2 e nos filmes seguintes foi a de mantê-la como uma personagem moralmente correta, embora sempre se fale que ela foi uma pessoa de passado obscuro, que inclusive tem na sua beleza a chave para o engano dos homens babões e imaturos. Natural que essa escolha seja feita, afinal era um universo compartilhado para ser consumido por crianças também, mas ate nisso tomaram muito cuidado, pois ressignificaram o sentido da palavra viúva, tirando dela o caráter de femme fatale/aracnídeo peçonhento que mata seu par, pondo ela como órfã de um grupo familiar, e que encontrou nos outros heróis esse sentido piegas e clássico de família. Sua orfandade é tanta que ela só vai saber o nome de seu pai pouco antes de morrer, e sua escolha, por manter Clint Barton vivo é essencial para demarcar que aquela era uma historia de heróis, ou seja, de pessoas abnegadas que pensam no bem maior anteriormente até aos seus próprios desejos. Por, isso quando ela se comove ao ver o Gavião Arqueiro, matando tantas pessoas, faz todo sentido, e sua postura é madura. Ela não o julga e nem o critica, apenas dá a ele a oportunidade de corrigir tudo, e ele aceita, pois, por mais que Clint tenha sido também vilão nos quadrinhos, e tenha se tornado o Ronin, seu ideal é heroico também, tanto que ele prepara sua filha para também ser uma vigilante. O arco do Gavião também serve para mostrar que nenhuma aposentadoria é de fato para sempre, e mesmo que ele tenha algo que preencha seu tempo e vida, ainda fica adormecido um sentimento ali, despertado novamente pela perda, tornando assim inexorável seu retorno, ainda que como um assassino puro e simples.

Natasha mentiu para os seus amigos, dizendo que os veriam em um minuto antes da viagem no tempo, e essa talvez seja a mentira mais dolorosa contada por ela, e apesar de ser uma versão diferente demais dos quadrinhos, há também um pouco de fidelidade em estilo e espírito. Há, entre os momentos de vigilância, uma possível referência ao Príncipe Namor, onde uma das Dora Milaje afirma que um maremoto no oceano, perto de Wakanda ocorreu, mas que aquilo é só um fenômeno natural, nada relacionado ao legado de devastação de Thanos. A Viúva segue paranoica, pós-conflito, tal qual sua contraparte nos quadrinhos, de espiã e agente dupla russa, que vivia na Guerra Fria e que só tem a vocação após a Segunda Guerra Mundial, e tanto uma versão quanto a outra seguem nisso. Ainda se pode abrir precedente para realmente ser Namor, mas sabiamente o roteiro não desenrola isso, pois não era o momento.

O personagem para quem Natasha brinca de que verá em um minuto, é Steve Rogers, e o sorriso inocente de Evans é tão singelo e significativo que faz lembrar o quão precipitadas foram as reclamações quando houve sua escolha como o personagem bandeiroso, depois do fracasso que ele fez como Tocha Humana, mas seu arco, além do óbvio "massa véio" dele pegando o martelo do Thor, é mais marcado pelo sentimentalismo. Tanto em Guerra Civil, quanto em Soldado Invernal, Bucky e Sam olhavam para ele com um sorriso ao vê-lo flertando com Sharon Carter, mas ele jamais conseguiu superar seu primeiro amor, Peggy, e toda a luta que ele travou foi feita para esse momento, todas as traições, todas as referências a “hail hydra” se atentando para fases mais recentes dos quadrinhos, e claramente o Capitão deste filme é uma amalgama do personagem que Jack Kirby fez e que Mark Waid recontou entre anos 90 e 2000. Muito se perguntou por que ao voltar no tempo, ele não levou seu amigo Bucky Barnes, mas a realidade é que o Soldado Invernal tem muito para resolver consigo mesmo, então é natural que ele ficasse na atualidade, além do que, não poderia ser mais poético o fechamento do arco, com a dança prometida finalmente se cumprindo.

E por fim, o melhor dos arcos é do playboy, gênio e filantropo, que finalmente conseguiu atingir o ápice do herói com seu sacrifício. Primeiro Tony convive com Nebulosa, que dos personagens não originais, é a que mais tem tempo de tela e mais tem importância, com um arco que repagina muito bem o pensado por Jim Starlin em Desafio Infinito, só que com muito mais significado e com camadas de heroísmo normalmente não vistas. Não se sabe quem contaminou quem, mas ambos, Homem de Ferro e Nebulosa foram muito para o sacrifício. Depois de se ver como alguém falível e impotente, Tony joga algumas verdades para seus antigos amigos, se reclui e constitui família, mas ele não consegue parar de pensar na ação, tanto que monta uma armadura para Pepper, em segredo. Sua relação com a filhinha é linda, é a demonstração viva de que o homem mudou, amadureceu e percebeu que a finitude da vida exige gerar mais vida. Assim como é bonito seu retorno e é bonito, muito bem pontuado com o reencontro que tem com Howard Stark nos anos 70, onde ele pode resolve suas amarguras e tristezas, fechando o ciclo de conserto da paternidade. Sua última declaração diante de Thanos, o homem que lhe causou sua mais amarga derrota, é a afirmação do mesmo que falou ao final do primeiro filme do MCU, mas com o sentido, antes ele falava que era o Homem de Ferro por vaidade, por querer aplausos e saudações, aqui, é para solidificar seu sacrifício, não deixar dúvidas do seu espírito, assumindo a responsabilidade pela única chance de sucesso em 14 bilhões. A última ação e surpresa que ele quis fazer foram feitas com muito sangue, suor e lágrimas posteriores, de quem tinha saúde para chorar, e a balança cósmica de vidas finalmente voltou a equilibrar-se, graças ao pioneiro desse mundo de heróis.

E é isso, a dança com Peggy e o reencontro com a geração anterior dos Starks foram as marcas principais de Ultimato, mais até do que as mortes, as grandes batalhas e todo o caráter escapista. As perdas são sentidas porque os personagens são tangíveis, e porque mesmo quando algo não é mostrado, como no caso do passado da Viúva, os contos repercutem de algum modo, e essa foi a saída mais bela e tocante que poderia ter sido tomada pelos comandantes de toda essa saga que foram as três fases da Marvel no cinema.

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