EP de Thiago Matias,
Regimento Interno é um libelo do Rock'n Roll cristão que discute hipocrisia via composições ácidas sobre os métodos das igrejas tradicionais

Entre os estilos musicais famosos e populares, é natural que o grande público considere que o Rock n' Roll seja a principal escolha para representar o tipo de canção de protesto e contestação, visto que normalmente versa sobre revolução ou contracultura.
Com o tempo esse conceito mudou, outros estilos abraçaram bandeiras de luta contra o status quo e para muitos o Rock se tornou careta pró-sistema.
Há quem resista a isso, inclusive dentro de sectos que são tradicionalmente considerados conservadores e é justamente isso que faz Regimento Interno, o EP lançamento de Thiago Matias.
Batizado como Thiago Matias Feliciano, o artista se trata de um cantor cristão, que usa letra e vocal para vociferar contra o senso comum e convenções cotidianas inconvenientes no comportamento cristão, indo na direção contrária a hipocrisia típica dos ambientes eclesiásticos, remando contra a propagação de preconceitos e denunciando a falta resistência por parte das autoridades episcopais.
Como é sabido, a religião evangélica tem raiz nos Evangelhos de Jesus, especialmente nos primeiros quatro livros do Novo Testamento - Mateus, Marcos, Lucas e João - e tem origem em uma cisão luterana, portanto, são chamados também de Protestantes. Nada mais justo que esses protestem contra algo e é justamente essa a vocação maior de Thiago Matias.
Um pouco sobre TM:
Alguns anos atrás, do tempo em que esse analista ainda habitava "normalmente" as redes sociais, houve um encontro deste com Thiago Matias.
A aproximação foi lenta, gradual e bem natural, aos poucos fomos conversando e entendendo o que o outro achava a respeito de arte, como cada um desse parte pensava filosofia e especialmente, como cada uma das partes entendia a fé cristã, já que ambos tiveram criações dentro do ambiente das igrejas evangélicas.
Na prática, eu e Thiago Matias nos tornamos simpáticos um ao outro, com uma aproximação terna, mesmo que tenha se dado de uma forma aleatória, visto que as partes jamais se viram pessoalmente.
Não nos vimos, não nos encontramos presencialmente, mas a aproximação em conversas já acontece há muito tempo.
Com a chega de uma pandemia nesse meio tempo, interações apenas virtuais ganharam ares diferenciados, sendo ainda mais importantes e visto que essa ocorreu, é fato a memória desse analista o impede de lembrar exatamente como ocorreu a aproximação com Thiago.
Provavelmente isso ocorreu graças ao fato de termos amigos em comum e também é dado que desde então, estamos observando um ao outro, mesmo que de longe.
O pedido
Pois bem, eu sabia que Thiago Matias tinha um passado musical, que provavelmente ministrou em igrejas e sabia que em algum momento, teve uma banda de rock cristão - o chamado Rock Gospel, termo esse abominado por que é evangélico e professa esse gênero - mas sequer sabia o estilo, influências dele, como tocava, se sua banda ou grupo apenas ensaiaram ou se chegaram a gravar algo.
Por conversar com ele e observar suas falas, sabia que ele gostava de compor, mas não imaginava que ele tinha pretensão de falar a respeito de suas experiências dentro e fora do ambiente congregacional, não sabia que a sua voz era tão voltada para o protesto e mirava desmascarar erros e contradições do chamado Corpo de Cristo, que é a Igreja.
Não sei exatamente qual é a filiação política de Thiago Matias, mas ele sempre me pareceu um sujeito de pensamento progressista, com inclinações para uma radicalidade canhota, ou seja, sempre me pareceu alguém de esquerda, mas não tenho ciência sobre a origem de seus pensamentos, se ele adere ao trabalhismo, se é social democrata ou se acredita nas crenças freirianas ou marxistas.
Jamais falamos de Paulo Freire, nem de Karl Marx ou Friedrich Engels, nem sobre Padre Cícero, Dom Oscar Romero ou sobre teologia da libertação. Essas podem ou não ser suas referências, e para todos os efeitos, isso pouco importa, já que há temperos de todos esses autores no ideário defendido pelo compositor.
Sei que ele é uma pessoa que gosta de conversar e trocar ideias, que gosta de discutir paradigmas e portanto, faz todo sentido ele colocar as suas indagações nas letras das canções que entoa.
Eis que um dia ele me convidou a dar uma olhada em suas músicas. Abaixo coloco-as para apreciação e disseco uma a uma.
Nível Um
O EP começa bem, misturando estilos distintos, com pitadas que variam entre o hardcore e sectos do metal - especialmente heavy metal - ou seja já começa "assustando", iniciando surpreendentemente pesado.
Aqui Matias tem o auxílio de Álvaro Alves nos solos de guitarra, além da montagem elétrica de Diego Tito, já a letra - de sua autoria - é voraz - como aliás seriam todas as outras.
Denuncia a isenção das igrejas, igualando a tentativa de neutralidade a condição de covardia. Matias aponta o erro do Corpo de Cristo ao optar pelo abraço a diversos preconceitos, ou seja, escolhe pecar, baseado unicamente no lugar comum e em classificações injustas e ignorantes de pessoas, grupos sociais, ou mesmo de orientações ideológicas ou sexuais.
Para o leitor que não conhece as escrituras cristãs, segundo a Própria, o salário do pecado é a Morte (Romanos 6:23) ou seja, a escolha por ser preconceituoso pode causar a danação e o fim da vida, mas pela perspectiva de alguns, é melhor essa opção a abraçar alguns excluídos.
A parte que toca na repetição de senso comum combate posturas que (infelizmente) são comuns ao chamado meio gospel. Destaco aqui especialmente a postura do também roqueiro evangelista Rodolfo Abrantes, que mesmo sendo oriundo do movimento punk, consegue se posturar mal quando o assunto é o posicionar.
Recentemente o antigo frontman dos Raimundos e atual vocalista do Rodox - que excursiona o Brasil atualmente, com letras pregam o evangelho e discutem também hipocrisias - falou a respeito de brigas políticas. Em seu discurso, abrange todos os seus seguidores, não apenas os cristãos e cita o seguinte:

Querendo parecer tolerante, Abrantes apela para um argumento tosco e vazio da política, relegando toda a classe necessariamente para um movimento de corrupção, pregando assim uma ojeriza ao simples ato de fazer política.
Sem perceber, ele mesmo vira um agente a favor da generalização e manutenção do sistema atual. Se Cristo é divisivo, ele é necessariamente antissistema, pensando assim, ser generalista é algo tolo, favorece discursos de extrema direita dado seus discursos do passado e é até PECADO.
É curioso como no codumentário Andar na Pedra Rodolfo parece alguém maduro e bem resolvido, mas acaba sendo tão ingênuo e tosco nesse trecho.
Thiago Matias tem uma postura que mira o inverso, decide pegar o rumo mais difícil, indo na contramão do sistema, já que não exclui o contraditório e convida os ouvintes de seu hino a refletir sobre si, sobre pensamentos, ideologias e ações.
Jesus Thor Xangô
Nessa segunda música, Matias segue na esteira do Rock, mas aproveita para misturar o estilo inicial com o Rap.
Dentro da classificação dada pelas plataformas de músicas, é possível encontrar essas dentro dos gêneros do Rap ou Hip Hop, talvez por conta do algoritmo, que lê o estilo da música de Thiago através da arte desenhada dele.
No caso desse a classificação cabe bem, uma vez que Jesus, Thor e Xangô faz alusão não só a três divindades diferentes - Jesus é o Messias do Cristianismo, Thor o deus do trovão nórdico (além de herói dos gibis e filmes da Marvel) e Xangô é um orixá das religiões afro-brasileiras - mas também a três músicas bastante distintas.
A harmonia é claramente menos inspirada que Nível Um, mas é salutar que em uma canção haja referências a estilos tão distintos. É quase como se essa fosse uma música três em um.
A parte do "deus" e da diferença da cor de pele preta das entidades, é um deleite:
E, sem pudor, assiste ao filme do Thor vingador
Mas o censuraria se fosse o Deus preto de nome Xangô
Thiago ataca a ideia demonizadora que boa parte da comunidade clerical usa para se referir as religiões de origem africana, popularmente chamada de "macumba". Embora para pessoas de dentro do credo, o termo seja utilizado assim também, com outro contexto e voz, para boa parte dos religiosos cristãos, é tratada como algo pejorativo e digno de perseguição.
O compositor manipula inteligentemente o pensamento preconceituoso, condenando esse de maneira justa.
Se alguns ditos cristãos torcem o nariz por qualquer menção dada às crenças de matrizes e matizes africanas, é bem-vindo que se condene a atitude discriminatória, especialmente por ir contra a mensagem de aceitação dogmática de Jesus Cristo.
A demonização contra Candomble e Umbanda pode ser vista como racismo e a letra dessa canção não flerta com isso apenas, como abraça fortemente essa tese, lembrando em seu refrão que a santidade cobrada para a igreja, deve andar lado a lado com o sacrifício diário e não ligado a riquezas, já que: Jesus morreu pelo outro, nunca viveu pelo ouro.
Jardim Gramacho
Thiago abandona o hardcore, de certa forma e assume um vocal ainda mais relacionado ao ofício de um rapper.
Canta e entoa velozmente, em milésimos de segundo solta palavras ácidas, combatendo a falsidade presente na religiosidade das congregações pentecostais e tradicionais.
É certeiro, nessa que começa a mais simples das letras, mas que se rebusca à medida que as palavras saem do microfone.
O refrão repete a fala de "sem refrão", remetendo a uma crítica de que as igrejas precisam de repetições para entender a mensagem, como as rezas do catolicismo apostólico romano.
É curioso que atualmente haja uma tentativa de unir no mesmo discurso evangélicos e católicos, mas é dada que essa característica sempre desuniu o secto. Para os "crentes" o uso de rezas era uma atitude preguiçosa e e errada, que denotava falta de intimidade com Deus, mas a repetição do Lugar Comum serve ao mesmíssimo propósito, inclusive com as mesmas consequências nefastas de não se pensar nos fins, achando que apenas seguir um pensamento é o suficiente para ser justo.
Talvez o preconceito seja uma demonstração óbvia de distanciamento do Criador, mas ao ignorante, resta apenas o pensamento tosco.
Thiago Matias alude a isso e ainda aborda o conceito dos desigrejados, que são os chamados evangélicos que optaram por não congregar, devido a conflitos políticos, ideológicos, teológicos ou por outras razões.
A prática tem sido tão frequente que se tornou tema de livro de Idauro Campos Jr, além de ser um movimento muito comparada ao modo de viver do chamado católico não praticante, que é parte do grupo que professa fé no catolicismo tradicional, mas não frequenta missas ou congregações.
Thiago vai no rumo da contradição de se "combater a homossexualidade" e demais espectros do campo LGBT+ e não a de enfrentar a tradicional discriminação do diferente, que aliás, segundo a Bíblia, é papel do Diabo, o acusador das almas.
Ainda se debruça sobre um comportamento típico de quem profere a Fé em Cristo, mas que erra na dose e no alvo, como alguns pastores famosos e políticos, que caem justamente em uma das críticas da letra. No trecho, se trata do problema de se combater veementemente gravidez na adolescência, mas não a pedofilia
Ao falar disso, Thiago Matias acaba sendo certeiro, discutindo violência doméstica, práticas sexuais erráticas e não tratadas na igreja e a proteção para abusadores e não para abusados, como no já famoso caso de obstrução do aborto legal para uma menina, que a então ministra e atual senadora Damares Alves ajudou a perpetrar.
Em nome de uma crença cega e sem fundamento, se justifica tudo, até a barbárie.
A letra é morta, mas o Espírito vivifica (2 Coríntios 3:6) e no entendimento da canção é preciso colocar qualquer prática em perspectiva, afinal, o ser humano é complexo, não é um robô.
Conclusão
Thiago Matias faz de suas músicas um manifesto contra os perigos da religiosidade, não tendo receio em atrair para si olhares de julgamento ou críticas dos seus irmãos.
Por possivelmente já estar acostumado com o status de ovelha negra (ou seria vermelha?) não se ruboriza em ser o que é, dada a naturalidade com que trata desses assuntos.
O que talvez falte para um futuro trabalho é lapidar um pouco mais a parte harmônica das músicas, investir em compositores na parte dos arranjos, para deixar ainda mais arrojada a parte melódica, tal qual foi com Nível Um, que é disparada a mais equilibrada das canções.
Quanto as letras, essas acertam de forma pontual, no cerne da retidão de caráter. São assertivas e não fazem concessões, são diretas, sem firulas e discutem sobre o estado correto que Deus exige dos seus seguidores.
O vocal de Thiago Matias não se submete ao lugar comum e só por isso já demonstra um frescor absurdo para o rock cristão nacional, algo que infelizmente pouco se vê no segmento.
Há potencial para crescer e florescer ainda mais.








