Os Reencarnados: Um filme "satânico" de Roger Corman que dá certo apesar da mistura de estilos díspares

Chamado de Undead, Os Reencarnados mistura hipnose, pacto com o diabo, viagem no tempo, sendo um clássico de Roger Corman

Os Reencarnados: Um filme "satânico" de Roger Corman que dá certo apesar da mistura de estilos díspares

Os Reencarnados é um dos filmes do primeiro circuito de obras de horror dirigidas por Roger Corman. Lançado em 1957, antes do ciclo de adaptações dos contos de Edgar Allan Poe.

A história tem duas linhas do tempo bastante distintas, ambas são embaladas pela vivência de mulheres protagonistas.

A primeira é sobre Diana Love. uma moça de passado sujo, que aceita acompanhar um cientista ao seu consultório e ser submetida à uma hipnose regressiva, mediante certa quantia em dinheiro.

É através dessa experiência que a trama vai até a Idade Média, onde essa moça invade a conciência de Helen, uma menina que é acusada de bruxaria, portanto, fica condenada.

A mente de uma divide a consciência com a voz da primeira e assim foge de algumas situações perigosas. Os temores envolvem ciência, pseudociência, pacto satânico, negociações com almas e a valorização do Sabá negro.

O longa foi escrito por Charles B. Griffith (que assinava Charles Griffith) e Mark Hanna. Corman também produziu e Walter Mirisch é o produtor executivo não creditado. A obra é conhecida no Brasil por ter exibido nas sessões de sábado da TV Globo nos anos 70 em uma faixa que só passava clássicos sci-fi/terror dos anos 50.

Inspiração

Este foi um dos diversos filmes no final dos anos 1950 que lidavam com o tema de reencarnação. Essa onda teria sido inspirada no livro The Search for Bridey Murphy, de Morey Bernstein.

Em 1952, Bernstein, um homem de negócios do Colorado hipnotizou Virginia Tighe, uma dona de casa que passou a falar com sotaque estrangeiro, identificando-se como Bridey Murphy, uma mulher de cabelos vermelhos, que teria vivido em Cork, na Irlanda do século XIX.

As sessões foram realizadas por cinco anos e foram compiladas no livro, que se tornou um sucesso de vendas e foi traduzido para mais de doze idiomas.

A publicação deu origem ao filme homónimo no mesmo ano e também foram comercializadas as gravações das sessões de regressão hipnótica.

Alguns jornais periódicos enviaram repórteres à Irlanda para investigar a veracidade do relato e nada de concreto foi encontrado, porém, a equipe do Chicago American encontrou uma senhora, de nome Bridie Murphey Corkell, que viveu em uma residência do outro lado da rua à casa em que Tighe passou a infância.

Ou seja, os fatos relatados por Virginia sob o transe hipnótico não eram memórias de uma vida anterior, provavelmente eram memórias inconscientes afloradas da sua infância, que ela pode ter confundido, em meio ao transe, ou era simplesmente uma mentira dito por ela.

Bastidores

Corman sugeriu ao seu fiel parceiro Charles Griffith, que escrevesse um roteiro que fosse baseado no livro de Bernstein, já que o material base causou grande impacto em 1952, levantando polêmicas a respeito de temas como a reencarnação, tornando-se assim um best-seller.

Como houve um filme em 56, chamado The Search for Bridey Murphy, dirigido por Noel Langley, Corman assumiu uma faceta que ficaria ainda mais famosa como o tempo, como o "rei dos Low-Budget Movies" já que abordou um tema popular, sem acesso a direitos do material original e com várias alterações livres do original.

Para isso trouxe contumazes parceiros, como Dick Miller, ator que esteve com ele em diversas obras e o ator Bruno Vesota, que dirigiu Os Devoradores de Cérebros e nesse, acumulava funções como assistente de produção, maquiador e artista de efeitos. Esse serviu até café, segundo consta.

Estreia

Em seu país natal, os Estados Unidos da América, passou em 14 de fevereiro de 1957 em uma premiere em San Francisco. No dia 15 de março, passou no resto do país.

Chegou ao México dia 29 de janeiro de 1959 e no Peru em 31 de março de 1960.

Nomenclatura

O título original é The Undead, mas durante o início da produção, o nome de trabalho foi The Trance of Diana Love.

Na Itália é chamado La sopravvissuta, no México é Los muertos vivos, na União Soviética é Не мертвые e na Espanha é La no muerta.

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Locações, Estúdios e a distribuição

O filme foi filmado em 6 dias, no mês de julho de 1956. Os cenários foram construídos dentro de um supermercado adaptado.

As gravações foram no Witch's House - 516 N. Walden Drive, em Beverly Hills, Califórnia.

A Roger Corman Productions produziu o filme, sob o codinome da Balboa Productions.

O filme foi originalmente recusado para certificação de exibição nos cinemas do Reino Unido em 1957, mas acabou sendo autorizado, após insistência.

A American International Pictures lançou este filme em um programa duplo com Voodoo Woman, de Edward L. Cahn. Ambos saíram em 57. A Acapulco Films lançou nos cinemas mexicanos.

A Screen Entertainment lançou ele nas TVs, em regime de syndication, que é um sistema de vendas e distribuição por cadeias de televisão, como é na maior parte do mapa dos Estados Unidos. Isso ocorreu em 1964.

Em VHS foi lançado pela Action International Pictures Home Video (AIP) e Nostalgia Video, ambas nos Estados Unidos.

A Shout! Factory lançou uma versão em DVD, na versão MST3K.

Quem fez

Roger Corman fez por essa época Cinco Pistolas do OesteA Besta do Milhão de Olhos (dirigiu algumas cenas, sem créditos para tal) Pistoleiro Solitário depois fez Ameaça do EspaçoA Ilha do Pavor, A Guerra dos Satélites, O Dia do Fim do Mundo, Um Balde de SangueDestino de um GângsterA Mulher Vespa e A Loja dos Horrores.

Anos mais tarde, faria O Homem dos Olhos de Raio-X, O Insaciável Marques de Sade, que não foi creditado e Frankenstein: O Monstro das Trevas.

Os Reencarnados: Um filme de Roger Corman que mistura de estilos muito díspares, que surpreendentemente dá certo
Corman ao lado de Vincent Price

Foi um produtor de muitos filmes, como Demência 13 e Carnossauro.

Griffith tem dezenas de roteiros no currículo e era grande companheiro do diretor. Suas principais participações são em A Lei dos Brutos, Ameaça Espacial, Matar é Meu Desejo, Paraíso em Fúria, O Emissário de Outro Mundo, A Ilha do Pavor, Mulher Sem Rumo, A Besta da Caverna Assombrada, Um Balde de Sangue, A Loja dos Horrores, Criaturas do Fundo do Mar, Os Anjos Selvagens, Anjos do Inferno.

Entre obras que Corman produziu e não dirigiu, o roteirista escreveu Corrida da Morte: Ano 2000 - que gerou a franquia Corrida Mortal, com remakes e sequências nos anos 2000 - e Experiência Fatal.

Mark Hanna escreveu A Lei dos Brutos, Matar é Meu Desejo, O Emissário de Outro Mundo, O Monstro Atômico, A Mulher de 15 Metros, A Metralhadora Gatling e o telefilme O Extraterrestre.

Referências

O pôster desse filme aparece no álbum ao vivo Evilive, da banda Misfits.

O longa foi listado na 9ª temporada de Mystery Science Theater 3000, no sexto episódio e foi exibido no canal Sci-Fi

Narrativa

A obra começa com uma narração de um homem de barbicha e orelhas pontudas, vivido por Richard Devon, que segura um tridente. Nesse momento não fica exatamente o que ele é, poderia ser só um ator ou um mestre de cerimônias, mas que fala como se fosse o diabo.

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Uma mulher interpretada por Pamela Duncan, aparece linda, fumando. Ela é Diana e depois desse trecho, aparece em destaque uma placa do Instituto Americano de Pesquisa Psiquiátrica.

Ela chega junto de um homem, estudioso, que estava fora há sete anos, no Tibet. O sujeito é Val Dufour, que faz o papel do misterioso Quintus Ratcliff.

Quando chega ele conversa com o professor Ulbrecht Olinger (Maurice Manson) que considera os estudos dele errados. Para provar seu ponto ele pede 48 horas, vai deixar Diana em transe por dois dias, sem acordar nem para comer.

Os intuitos, ou a falta deles

Não fica claro o que ele quer de verdade, quais suas intenções, mas é evidente que ele fará algo que manipula uma pessoa e que pode ser perigoso.

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Ainda assim ele decide fazer e prepara todo o cenário, para inserir a moça dentro dessa experiência.

O Primeiro Transe

De olhos fechados, ela diz que regrediu a casa de sua família, na Aquitânia, então a trama muda de cenário e a personagem está presa em um calabouço, com Gobbo, vista por um homem de feições rudes, feito por Aaron Saxon, que a recebe assim que ela toma a consciência dessa nova personagem, convenientemente.

Ela está ali por ser uma bruxa, que está condenada à morte, somente um homem como ele, relegado a menos que nada, a quer e a deseja. Gobbo insiste, mas não tem respostas positivas.

Voz interior

Diana é como uma voz que fala na cabeça de sua vida anterior. Aqui, ela é Helen e sendo duas pessoas ao invés de uma, consegue escapar da prisão, roubando as chaves do guarda.

Ela seria a terceira mulher condenada por bruxaria, sendo morta tão logo chegasse a sua sentença.

A moça foge e se esconde na carruagem de um velho, dentro do caixão. Quem a carrega é Smolkin, personagem de Mel Welles.

Livia e seu diabrete

Na mata aparecem dois animais, que se transmutam e "viram" humanos.

Uma delas, a que era um gato, vira Livia, uma feiticeira, vivida pela bela e voluptuosa Allison Hayes, que era destaque do elenco por seu papel em A Mulher de 15 Metros, feito em 1958 por Nathan Juran.

Ela também atuaria em 2 clássicos do terror anos 50: O Fantasma de Mora Tau e O Extraordinário. Ela era vista como uma bela e fatal sex-symbol, desde que se tornou Miss Washington em 1949.

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Questões de saúde

A atriz teve problemas sérios de saúde, especialmente com osteoporose, que foi se agravando com ela ainda jovem. 

Ainda nos anos 60 tinha que a andar com uma bengala para se apoiar, afastando-se de Hollywood em 1967.

Faleceu ainda com 47 anos, por intoxicação de medicação à base de cálcio, que lhe causou leucemia, quando se engajou em um movimento sobre a importação de suplementos alimentares sem o contrôle do FDA.

Entre dois mundos

Livia chama por Pendragon (Richard Garland) e deixa claro que armou para Helen.

Na parte temporal do presentes, os pesquisadores tem que continuar o experimento, sob pena de matar Diva se ela retornar cedo demais ou seja, ela não pode simplesmente parar o experimento no meio e ser resgatada, mas tem que terminar de alguma forma aquele arco de desventura.

Na "fantasia" Helen encontra Meg Maud, uma velha bruxa de verdade, interpretada por Dorothy Neumann que acredita que Helen tem poderes de enfeitiçar rapazes e arranca um fio de seu cabelo.

Mas a moça é insistente, lida com Scroop (VeSota) tenta fugir, para não ser condenada e segue seu caminho, tentando desviar dos fatos históricos, que davam conta da morte dela.

O seguimento dramático

A trama segue, munida de muitos diálogos expositivos, onde se nota uma propensão ao erotismo, especialmente com Livia.

Sua interprete é belíssima e a câmera de Corman a registra bem. O vestido que fica sob o corpo de Hayes é justo e revelador e a faz parecer com as belas atrizes que contracenariam com William Shatner em Jornada nas Estrelas.

A mesma lógica de Star Trek é presente aqui, belas mulheres em trajes reveladores atraem a atenção masculina.

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Corman evoluiria esse quadro, para explorar seminudez em seus filmes, especialmente quando começou a fazer obras coloridas, pelos anos 1970 e 80, como seria com Slumber Party Massacre 2.

Outro Transe

Diva segue sendo Helen, avisando ao presente que ainda vive no tempo do sabá das bruxas, no reinado de Mark, enquanto na era das bruxas Livia se aproxima e seduz Pendragon.

Já no presente Quintus enfim começa a se responsabilizar pelo bem-estar da hipnotizada.

Ele coloca um arco com eletrodos na cabeça, põe na dela também, em um movimento visual mambembe de que eles estabelecerão um vínculo mental.

Segundo ele, é o quarto estágio da hipnose, a sugestão. Existe toda uma explicação fraca aqui, de que as onde cerebrais de Diana e as dele se unirão. 

Curioso é que antes do experimento começar, não havia qualquer previsão dessas situações. Para além do óbvio fato de que a hipnose não é um método científico, não havia qualquer base para entender que o experimento seria seguro para ela. 

Se colocou a vida dela em perigo basicamente para ele posar de homem genial.

A chegada

Na realidade do passado, Quintus tem corpo. Ele aborda um cavaleiro, o adormece e rouba suas roupas, armadura e montaria.

Passa então a caçar Meg Maud, pois onde a velha bruxa está certamente seria o lugar onde sua parceira estaria. Quintus se aproxima de onde Livia e Pendragon estão e interrompe a conversa com eles fazem com...Satã.

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O ser das trevas é elegante e reconhece Quintus, o parabeniza por romper a barreira do tempo, enfim alcançando o ser místico no passado, como se fosse passível de encontro só no tempo das bruxas.

Quintus chama o herói para ir com ele, diz que salvará Helen, em troca de abandonar a ideia de ir atrás do livro que procurava com Livia.

Ele topa, mas a bruxa segue seu plano, junto do pequeno ser que a acompanha. Nesse tomo, a criatura ganha um nome de espécie: diabrete. Segundo a bela Livia, toda bruxa possui um.

A escolha

Nessa parte falaremos do final, ou seja, haverá spoilers.

O intuito de Quintus era modificar o passado, por isso ele fez a hipnose.

Meg Maud revela que a bruxaria pegou Helen e que a moça deve escolher entre ser morta nesse tempo, pelo machado e viver outras vidas, como a de Diana Love, ou viver agora e se condenar pela eternidade, matando assim sua contraparte e alterando o tempo.

Quintus e Satã preferem que ela escolha viver, mesmo em uma época tão sombria quanto essa.

Como ela não tem perspectiva do futuro, fica na dúvida, na verdade, nos anos 1950 a vida da mulher também era muito restrita, mas haveria de melhorar, ao menos dentro do seu pensamento otimista.

Inspirações

Sem ter noção ou certezas, Helen ouve diversas vozes, eram as mulheres das suas outras vidas, além das duas "terrenas" - Meg e Livia - que dizem para escolher o machado enquanto os homens, cada um segundo seu interesse, decide ficar.

Ela então escuta poetisas, mães, dançarinas, mulheres felizes.

Segundo a psique de Helen, de fato há muitas mulheres em si e escolher viver ali impediria a existência dessas futuras pessoas, as que ainda nasceria, então sobreviver nesse momento impediria essas de viver.

Retornar a consciência da moça no presente seria um caminho, mesmo sem que explicação mínima do caso para a mulher no tempo inquisidor sendo tão vazia e incompreensível.

No final era um passo de fé, puro e simples.

Destino trágico do viajante

Com a morte de Helen, a estrada dela para sua contraparte foi encerrada. Dessa forma, segundo Satã, Quintus não poderia voltar.

Fica a dúvida se o horror maior é a cena do presente, com suas roupas e objetos colados na cadeira ou no passado, com ele recebendo do Inimigo de Deus a notícia fatídica.

Corman consegue apresentar uma trama divertida e criativa, mesmo sendo uma imitação de algo popular em sua época, mas que se perdeu com o tempo. Por vias tortas, acabou imortalizando seu objeto de cópia e ainda driblou bem a falta de orçamento, já que essa não parece ser uma obra tão barata quanto é.

O horror para Os Desencarnados tem um alvo em seu início e muda no final, pervertendo expectativas, resultando em uma boa exploração de seus temas, além de ser uma visão única sobre a disputa entre o diabo, a humanidade e a ganância da espécie criada a imagem e semelhança de Deus. Acaba sendo então mais profundo do que se pretendia, o que é ótimo.

6 comments

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