Nova aposta entre as adaptações de video game para o cinema, Resident Evil tenta ser reverencial, mas esbarra em mesmices e em clichês de abusar do humor e do body horror

Desde os anos 1990 há um clamor por uma adaptação decente para a série de jogos de survivor horror Biohazard ou Resident Evil como é chamada no ocidente. O produto que é lembrada por mostrar zumbis tomando zonas urbanas graças a experimentos de uma empresa privada grandiosa teve algumas adaptações autorizadas por sua companhia criadora, a Capcom, mas as tentativas foram muito criticadas.
Houve um momento em que o mestre dos zumbis George Romero, quase concebeu uma versão, como foi especificado no documentário George A Romero Resident Evil, após divergências criativas, houve uma série de seis filmes, organizados pelo estúdio alemão Constantin Films que detém os direitos de adaptação junto a companhia de video games Capcom.
Nessa versão foram incluídos esforços do realizador Paul W. S. Anderson e sua musa inspiradora Milla Jojovitch, em paralelo com ela, foram lanlçadas animações em CGI bastante fiéis aos jogos, iniciadas em , também houve uma tentativa de reboot, chamada Resident Evil: Bem-Vindo à Racoon City e uma série da Netflix, que foi bastante criticada.
A maioria dessas versões foi mal recebida e os motivos divergem, na saga mais longa começada com Resident Evil: O Hospede Maldito, a grita era graças a falta de fidelidade ao material original, em outras a crítica foi por pesar a mão no humor ou por voltar o escopo mais para o público juvenil e menos para o adulto.
Dessa forma a maioria das reclamações de gamemaníacos ou dos apreciadores de cultura pop cinematográfica era correta e devido a isso, o anúncio de Zach Cregger como realizador desse novo Resident Evil de 2026 foi um bálsamo.
A expectativa e a realidade em que o filme se passa
Pois bem, Cregger vinha do sucesso de A Hora do Mal, antes disso, fez o também elogiado Noites Brutais. Ambos foram obras independentes, com orçamento pequeno e bastante elogiadas.
A equipe criativa que o acompanha conta com Shay Hatten como co-roteirista, Produzem Cregger, Robert Kulzer, Roy Lee, Asad Qizilbash, Carter Swan e Miri Yoon. Na Tchequia, o produtor foi David Minkowski, com Oliver Berben, Robert Bernacchi, Nicole Brown, Victor Hadida e Richard Wright como produtores executivos.
Fazia sentido a aposta nele, que junto de Mike Flanagan e Jordan Peele é certamente um dos queridinhos do cinema de horror mainstream. Confiar a ele algo relacionado a uma franquia tão famosa fazia sentido.
Resident Evil 4 e as Plagas...
Uma das questões que mais chamava a atenção do que ele fala a respeito da saga de games, é que seu jogo preferido era Resident Evil 4, que para todos os efeitos, é uma ruptura dentro da franquia.

Ora, RE 4 tem suas pitadas de horror, mas era uma obra que não se pautava em zumbis, se distanciava do horror - não que Resident Evil 2 e Resident Evil: Nemesis também não tenham optado mais pela ação que pelo terror e principalmente, por não ter muito a ver com o antagonismo da Umbrella Corporation, que é a empresa que causou todo o rebuliço em Raccon City, na trilogia original dos 32 bits.
Como esse é um filme que se passa em território dos Estados Unidos, na localidade de terra fictícia, com ligações a Umbrella, teoricamente sem as chamadas Plagas, que eram os antagonistas de Resident Evil 4, embora os monstros aqui presente lembrem bastante alguns dos seres do quarto jogo.
A história dos games é boa suficiente...
Além disso, repercutiu mal uma questão defendida por Cregger.
Vale lembrar, antes de entrar no assunto das entrevistas, que todo o material divulgação revelou pouco ou quase nada em termos narrativos e dramáticos. Foi instaurado um mistério tremendo, até as sessões para imprensa tinham informações embargadas.
Se preservou e muito os segredos a respeito dos segredos, até da sinopse, dito isso, o realizador afirmou que os games desenvolvem bem a trama e o comentário sobre a irresponsabilidade por parte de uma grande corporação farmacêutica.
Para ele, a exploração dos descuidos da Umbrella já foi amplamente discutida na mídia original e seu filme não precisaria servir a isso, tampouco precisaria se debruçar sobre denúncias a popularização das teorias da conspiração.
Por isso, ele acaba fazendo um conto a respeito desse universo, com temperos de bom humor, com muito gore, um bocado de suspense, adoçado com uma perspectiva que emula a imprevisibilidade de um cenário calamitoso, ou seja, ele imita a sensação que um gamer teria ao explorar um jogo de survivor horror, embora aqui pese muito a mão nos alívios cômicos.
Curiosamente, é dado que em exibições testes, havia uma reclamação do tom jocoso, por isso ele teria diminuído o número de piadas, que ainda assim, preenchem boa parte da história.
Estreia, locação e detalhes de estúdios
Essa é uma coprodução entre Alemanha e Estados Unidos. Na maior parte do mundo, estreou dia 16 de setembro de 2026, na França, Bélgica, Indonésia, Marrocos, Luxemburgo.
No Brasil e Alemanha, chega dia 17, nos EUA estreia dia 17 também, na Fantastic Fest, enquanto no circuito comercial, chega dia 18.
O nome original é Resident Evil. Há poucas variações, como na Argentina e Chile, Resident Evil: Noche Cero.A obra foi rodada entre outubro de 2025 e janeiro do ano seguinte, com gravações em Praga, República Tcheca.
As companhias que fizeram a obra são a Capcom Entertainment, Columbia Pictures, Constantin Film, Davis Films, PlayStation Productions, Robert Kulzer Productions, Stillking Films, TriStar Pictures e a Vertigo Entertainment.
A distribuição é da Columbia Pictures e TriStar Pictures nos Estados Unidos, e da Constatin na Alemanha. No Brasil foi lançado pela Sony Pictures.
A grande questão e a Constantin Films
A maior crítica na cinessérie inaugurada por W.S. Anderson em 2002, é que o filme e suas sequências não seguiam quase nenhum rumo dos games, que aliás, sempre foram elogiados por suas tramas, por seus puzlees e por sua mistura de terror com ação.
Desses, apenas o último aspecto era bem referenciado e embora houvesse elogios a alguns dos episódios - especialmente Resident Evil: Recomeço e Resident Evil: Retribuição, que foram muito abraçados pela parcela "vulgar" da cinefilia - o grosso dos comentários era negativo, e não à toa.
A grande questão é que nos cinemas, a empresa que normalmente encabeça essas empreitadas, é a Constantin Films, que fez os seis filmes originais, que fez a segunda tentativa de reboot comandada por Johannes Roberts, como também essa obra.

Claro que cada obra tem suas peculiaridades, mas é ingenuidade pensar que as cabeças que financiaram até aqui oito longas e mais uma série do principal streaming não interferiria.
Até onde se sabe dos bastidores, Zach Cregger fez o que quis, mas ninguém garante que ele já não foi chamado com essa ideia em mente, quase como um briefing e uma condição pré-acordada até antes de fechar o acordo.
Curiosamente, o diretor ainda fez declarações pedindo desculpas por não ter colocado Leon Kennedy como protagonista, visto que foi ele o herói no segundo jogo, no quarto - que como dito, é o predileto do realizador - e um dos queridinhos dos jogos.
Ainda assim, ter um ou outro personagem é apenas um detalhe. Ele poderia ter optado por outras figuras, daí, abrir mão da narrativa e do monstro central, é uma escolha no mínimo curiosa, corajosa e possivelmente, desastrosa.
Quem fez
Cregger dirigiu Miss Março: A Garota da Capa, também episódios de The Whitest Kids U´Know e Newsboyz. Também fez os já citados Noites Brutais e A Hora do Mal. Escreveu as obras que dirigiu, além da animação Mars.
Shay Hatten escreveu obras de ação como John Wick 3: Parabellum, Army of the Dead: Invasão em Las Vegas, episódios na série Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado, Exército de Ladrões: Invasão da Europa, Dupla Jornada, John Wick 4: Baba Yaga, os filmes Rebel Moon de Zack Snyder e Bailarina. Também escreveu Planet of the Dead, de Snyder, que ainda será lançado.
Robert Kulzer produziu DOA: Vivo ou Morto, Pompeia, Resident Evil 6: O Capítulo Final, Monster Hunter, Pânico na Floresta: A Fundação, Vício Perfeito e Nas Terras Perdidas. Foi produtor executivo em Quarteto Fantástico: Primeiros Passos.
Roy Lee produziu obras recentemente, como Until Dawn: Noite de Terror, A Hora do Mal, A Longa Marcha: Caminhe ou Morra, Psycho Killer: Em Busca do Assassino, Hokum: O Pesadelo da Bruxa. É produtor executivo da futura Crystal Lake, que adapta um prequel de Sexta-Feira 13.
Asad Qizilbash e Carter Swan produziram outras obras baseadas em games, como Gran Turismo: De Jogador e Corredor e Until Dawn. Foi produtor executivo em Uncharted: Fora do Mapa, The Last of Us e Twisted Metal.
Miri Yoon fez Não se Preocupe Querida, A Mãe, A Garota da Vez e A Hora do Mal. Ela foi produtora executiva em Death Noite e Eles, também foi coprodutora executiva em The Stand.
David Minkowski trabalhou na produção de Fubar e The Rookie. Foi coprodutor em Nosferatu, nas séries Entrevista com Vampiroe A Roda do Tempo, além de ser coprodutor executivo em Parceiras no Crime.
Falando da trama...sem spoilers
Tomando cuidado com possíveis segredos da trama, há alguns momentos (na verdade é um argumento e piada recorrente) em que se coloca na boca do protagonista Bryan a diferenciação grandiosa que há entre a vida real e o videogame.
Claro que na trama isso é bem contextualizado e até se valoriza em determinado ponto a mídia original de Biohazard, mas levando em conta o argumento de Cregger de que essa não é necessariamente a tradução dos momentos canônicos dos jogos, há de entender quem achar que essas linhas de diálogo são fruto de deboche e desdém com o material original.
Evidente que não é a ideia dos seus realizadores, mas no contexto, faz sentido interpretar dessa forma. Em breve deveremos fazer uma análise mais ampla da história, das referências e da narrativa no geral.
O que se pode falar é que essa obra possui um protagonista completamente diferente dos personagens que normalmente se apresentam nos jogos.
O Bryan Hodukavich de Austin Abrams é mais um pícaro que um herói de ação, um entregador, com uma encomenda e um dilema moral mundano, sentimental e que conversa facilmente com qualquer pessoa, especialmente com o espectador balzaquiano, que provavelmente jogou os primeiros jogos na infância e na época de lançamento e que nesse momento, beira os 30 anos.
A grande questão são os personagens periféricos e as monstruosidades.
Criaturas e periféricos
Quando o fã da saga original conferir esse, certamente se perguntará sobre o motivo de escolher criaturas monstruosas dignas de pesadelos - e da saga Hellraiser de Clive Barker - ao invés de Nemesis, Licker, Hunter, os Ganados e outros.
Há quem compare essas criaturas com figuras presentes em Resident Evil 7 e Resident Evil Village, mas a verdade é que podem sim ter se inspirado no design de algumas dessas, mas o grosso, são opositores originais.

Em breve poderemos descortinar com mais detalhes essas figurars, mas o que se assiste aqui são momentos agressivos, violentíssimos, de seres que se unem rumo ao mal e que lembram criaturas típicas da imaginação do mestre em efeitos práticos Screaming Mad George, especialmente nos filmes de Brian Yuzna como em A Sociedade dos Amigos do Diabo.
Dessa parte, não há muito o que reclamar, ao contrário, há uma diversidade considerável de seres, tantos que faz com que o efeito replay do filme seja desejado por parte do espectador unicamente a fim de catalogar o que aparece em tela, seja em cenas mais longas ou nos relances das cenas rápidas.
Humor...
No entanto os personagens humanos não dispõe desse mesmo cuidado. Fica uma sensação de que Cregger e Hatten pensaram nesse longa como uma paródia.
Os cientistas, os agentes da cidade Racoon e os sobreviventes são todos pessoas tolas.
O cinema de Cregger tem elementos de humor e o cinema de terror pode apelar para graça. Sam Raimi e Eli Roth fazem muito isso, apelam para um estilo diferenciado de sustos que vez por outra cai em um humor involuntário, embora ambos tenham estilos completamente diversos de cinema.
No entanto, aqui o estilo passa por cima da trama. É fácil categorizar esse como um filme de horror com muito gore e que apela demasiadamente para jumpscares.
Conclusão
O longa é uma obra curiosa, que mira imitar a sensação de desolação dos primeiros jogos. Além disso, se escolheu permear toda a duração com um inventário de referências aos jogos.
Além disso, na tela se espalha diversas malignidades típicas de um mal sonho, que poderiam perfeitamente estar em um jogo de horror da Capcom. Possivelmente o fã mais radicalizado não gostará do fato de quem o esqueleto dramático não passa pelas teorias da conspiração típicas dos games clássicos.
O aficionado pode chiar também graças a falta dos protagonistas ou vilões mais conhecidos.
Esse parece demais os jogos cooperativos spin-offs, chamados de Resident Evil: Outbreak, que eram cooperativos, e eram vividos por pessoas comuns da cidade e não por membros do alto escalão do grupo de elite STAR.
Zach Cregger consegue aproximar o seu filme de uma obra autoral, o que é um elogio considerável, mas se afasta tanto do cerne da saga que poderia facilmente ser parte de uma iniciativa distinta e própria, ou poderia ser parte da saga Hellraiser, tal qual Enigma do Horizonte, de Paul Anderson também foi acusado de ser.
Ainda assim Resident Evil resgata boa parte das boas sensações de receio, comuns a quem joga pela primeira vez um capítulo de Biohazard, o que é muito mais do que qualquer tradução da franquia para o cinema já fez.








A tentativa de Zach Cregger de inovar em Resident Evil parece interessante, mas o desequilíbrio no tom pode enfraquecer justamente a identidade que tornou a franquia tão marcante. Fica a impressão de que a obra busca se reinventar sem encontrar o ponto certo entre horror e espetáculo.