Pacto Brutal: O true crime que buscou fazer justiça a Daniella Perez

Pacto Brutal: O true crime que buscou fazer justiça a Daniella PerezNesta coluna normalmente falamos sobre filmes de horror, terror ou obras ligadas a diretores, atores e gente da produção ligados a exploração do medo. Dificilmente falamos de documentários, mas é impossível ignorar a grande exploração de histórias de crimes reais apelidada de true crime, e seria natural se debruçar sobre isso e um dos grandes expoentes dessa linha foi o recente Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez, produção da HBO que investiga tudo o que se sabe sobre o crime que fará 30 anos nesse 2022.

Para tal o programa vai atrás da mãe de Daniella, a autora Glória Perez, que protagonizou alguns momentos no desenrolar dessa história. Para exemplificar e ficar só na esfera jurídica, é dito que assassinatos como o que ocorreu com a atriz Daniella Perez só se transformaram na classificação de crime hediondo graças ao esforço da autora em pressionar as autoridades jurídicas com a sua pequena influência como alguém famoso.

Muita coisa aconteceu desde o ocorrido, as pessoas que participaram dessa trama violenta mudaram muito, inclusive Glória, que foi totalmente modificada em seu pensamento e ação.

A carreira da escritora se solidificou, ela que em 1992 escrevia a novela De Corpo e Alma - novela onde Daniella fazia Yasmin - passou a ser conhecida por vários sucessos, entre eles América, Caminho das Índias, O Clone, tramas essas que abordam outras culturas, de forma complicada e clichê diga-se, apelando normalmente para estereótipos, normalmente carregando mensagens sobre mazelas da sociedade, chamado carinhosa e pejorativamente com merchandising social.

Por outro lado, Glória também se tornou uma defensora implacável de uma forma de justiça que mira o punitivismo, não à toa ela enfileirou - e possivelmente ainda enfileira, dada a defesa que faz a membros da sua equipe atual em A Travessia - discursos anticorrupção de qualidade duvidosa.

Foi defensora da Lava-Jato e seguiu assim até depois das denúncias ao juiz responsável.

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Dada a natureza da sua intimidade pós perda de sua filha, não é de assustar que ela haja assim, e é de se lamentar ainda mais os rumos da culpa amputada aos que tiraram a vida de sua filha quando ela era ainda tão nova.

O seriado foi dirigido por Tatiana Isso e Guto Barra, mas claramente só aconteceu graças ao desejo de Glória Perez em contar a história trágica de sua filha assassinada de um modo sóbrio, e não como um folhetim barato.

Isso possivelmente foi um dos motivos por não realizar o documental no serviço da Globo ou na Globoplay, e sim como grupo Warner Bros, sem ligações com a emissora que emprega ou empregava quase todos os relacionados a essa trágica história.

Um dos momentos mais emocionantes reside na fala de Gloria, que afirma que as punhaladas dadas em Daniella eram para ela, não para a filha.

Pacto Brutal: O true crime que buscou fazer justiça a Daniella Perez

Há um bom número de entrevistados, entre atores como Eri Johnson, Claudia Raia, Raul Gazolla, Fábio Assunção, Alexandre Frota, Maurício Mattar, Marieta Severo, Stênio Garcia, com os famosos sendo basicamente o elenco de De Corpo e Alma e outras pessoas próximas da família Perez.

Fora os atores, também deram depoimento e personalidades como Glória Maria e Sônia Abraão, além de desconhecidos, que fizeram parte fundamental do julgamento.

Entre os episódios, se destaca uma possibilidade atroz, atrelando ao assassino Guilherme Pádua como alguém sedutor, que teria cooptado a atenção e desejo da vítima para uma rede de violência.

Essa possibilidade foi muito explorada por Pádua, com publicação de livros e dezenas de entrevistas que ele deu, onde ele se dedicava a inundar a imagem de Daniella de manchas.

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Curiosamente, Guilherme faleceu recentemente, num dia 6 de Novembro e de infarto, tal qual a data de estreia da novela Explode Coração em 1995, que marcou o retorno de Glória a ribalta dos sucessos folhetinescos, já após o crime que vitimou sua jovem filha.

No entanto mais bizarro que essas coincidências é a possibilidade de a morte de Daniella ter sido parte de um ritual, possivelmente satânico, fato que é levantado por alguns dos entrevistados, e que foi ganhando vulto com o advento da internet anos após esse causo.

O clima para a família de Dani era bom em 1992, o trabalho dela como atriz era em uma linha de crescimento, ela acabara de casar com Raul Gazolla, com quem organizava uma peça cheia de danças, arte essa que ela amava profundamente, sendo uma profunda estudiosa e praticante tanto de balé quanto de danças contemporâneas.

Fora isso, De Corpo e Alma era a primeira novela solo de sua mãe, que retornava a Globo depois de uma passagem pela Manchete, e todo esse otimismo foi pontuado pela fala da própria Glória, que se culpa, futilmente, por não ter almoçado com a filha no dia de sua morte.

Esse é claramente um fruto do luto, artifício que faz a pessoa se culpar por pequenos eventos, como se diante de pequenas atitudes diferentes, o destino pudesse ser outro, como se pudesse impedir de alguma forma a tragédia. Quando se é parente próximo é algo ainda mais comum, uma manifestação sentimental difícil de driblar.

Vale lembrar que Glória gosta de trabalhar sozinha, tanto que nem usa auxiliares na escrita nas novelas, tal qual foi com Janete Clair, sua inspiração na profissão de escritora de novelas, que também não tinha auxilio, exceção no final da vida, onde adotou a própria Glória como ajudante.

Pádua ganhou um bom papel, de Bira, um dos interesses românticos de Yasmin, papel de Daniella, na novela, e em algum ponto eles foram um par, embora sempre estivesse programado que Bira perderia espaço no folhetim.

O registro detalha perfeitamente as expectativas de Raul Gazolla, o esposo de Daniella, de que ela foi sequestrada já que essa era uma tendência violenta da época.

 

O seriado não tem pudor em mostrar as fotos de Daniella morta, já que na época essas imagens foram fortemente veiculadas em jornais, revistas e jornais televisivos.

Outra questão que assusta um bocado é a quantidade enorme de gente em volta, contaminando a cena do crime. Certamente haveria um isolamento mínimo, caso o crime tivesse ocorrido na contemporaneidade.

Os envolvidos se emocionam até hoje, lembram muito vividamente os detalhes daquele dia, Gazolla inclusive vai aos prantos. Esse movimento é comum, momentos traumáticos marcam a vida das pessoas, e registram esses momentos como marcantes demais para deixar a memória apagar.

Entre os sentimentos mais vividos estão a negação da parte de todos (especialmente parentes), de que algo tão terrível ocorreu com a moça.

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A riqueza de detalhes é imensa, a própria Perez reclama da relação de uma das autoridades, o delegado Mauro Magalhães, que havia sido denunciado no caso da Casa da Morte de Petrópolis, um centro de tortura da época da ditadura.

Também se alimenta bastante o absurdo que foi a tentativa dos acusados em esconder a participação da esposa de Guilherme na época, Paula Thomaz, que chegou ao cúmulo de ser liberada de maneira bem suspeita, pedindo para sair da investigação e possivelmente prisão basicamente por que estava grávida.

Quando Guilherme foi liberado, vários atores foram atrás da onde ele morava, em Copacabana. Tem uma cena dantesca, de Frota e Mattar acalmando a multidão, mas também nervosos, querendo pega-lo. Parecia uma cena de filme de horror.

Glória critica muito fortemente a cobertura midiática das revistas de fofoca e novela, na época, que colocavam fotos de Yasmin e Bira nas capas, associando a morte ao casal da novela, forçando a barra de que aquilo continuava a trama da novela

"Isso é muito mais agressivo que (a exposição) as fotos dela morta...é continuar matando a pessoa."

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Como a série conta com a participação da Glória, obviamente que se dedica um bom tempo falando de seus métodos de escritas, e a figura dela é exaltada, como uma mãe zelosa, trabalhadora.

O seriado é chapa branca em relação a figura da autora, é tratada como alguém quase santa, mas uma justiça que o programa fez - e corretamente - foi o de não procurar Paula ou Guilherme de Pádua para dar depoimento.

Chega a ser irritante acompanhar entrevistas dadas pelos dois, tanto na época quanto depois.

Algumas compilações dessas são postas no documentário, com destaque para uma conversa entre Paula e Pedro Bial no Fantástico, onde ela age como uma vítima das circunstâncias, e dezenas de participações de Guilherme, que claramente atua também nas entrevistas.

Entre as conversas posteriores a pena, Pádua conversa com o apresentador Carlos Massa, o Ratinho, em seu programa no SBT, e mesmo com o caráter muito sensacionalista, o que se percebe é uma irritação do entrevistador, pelo fato de que Guilherme se recusa a falar sobre qualquer coisa, afirmando que é assediado judicialmente por "forças sinistras", pelos advogados da família Perez.

Em 2010, Guilherme de Pádua irritou Ratinho na TV

Vale lembrar que a pena de Pádua foi bastante branda, e muito escrutinada no documentário, e ele basicamente se blinda de falar, e ainda conta com a paciência de boa parte do público, se aproveitando da fama que teve nos anos noventa.

Uma das boas entrevistas inéditas foi a de Marcela Nunes, que foi a menina que tirou uma das fotos com os atores, que serviu de grande prova no julgamento.

Aqui, ela aparece já crescida obviamente, dá um depoimento bem emocionada, de que ela sentiu que algo errado aconteceria, além de falar que queria ser fotografada apenas com Dani, e não com o interprete de Bira.

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Nunes diz que após as fotos, pediu para seguir o carro do ator, e se culpou bastante pelo que aconteceu.

Entre os momentos mais pitorescos é que Pádua não gostava de ser associado a homossexualidade, inclusive após ser associado ao assassinado. O documentário detalha a participação dele em shows gays, como um dos "leopardos", em exibições explícitas, de strip tease cujo público majoritariamente era gay.

O assassino era vaidoso, foi transformado pelo seriado como alguém incapaz de pensar em qualquer pessoa. Suas lamentações na época não eram relacionadas a violência que Daniella sofreu, e sim com a vida dele ter simplesmente se tornado uma tragédia.

Analisando anos depois sua jornada, de transformação em pastor evangélico e tentativa de refazer sua imagem como cidadão de bem, conservador e religioso, não é difícil encarar ele como isso, que dirá sua ex-esposa, Paula, que mudou de nome e matriculou a filha nas mesmas escolas de dança que Daniella fez, fora que ela estudou direito com o promotor que a condenou Mauricio Assayag.

O último capítulo mostra o julgamento que só ocorreu em 1997, dá destaque ao advogado da família Perez o senhor Arthur Lavigne, e se dedica demais a mostrar Pádua como uma espécie de showman patético, que encena todo o assassinato na frente do juiz.

Entre os destaques negativos, há uma forte crítica aos advogados de Pádua e Thomaz, inclusive com um deles, Paulo Ramalho, após fazer todo uma atuação sensacionalista e desonesta, tentando jogar na lama a identidade da vítima, quis cumprimentar a família de Daniella.

Virou um circo de horrores, macabro e bizarro, com ampla divulgação midiática, com desempenhos mambembes que buscavam chocar e confundir membros do júri.

Pacto Brutal é certeiro, violento quando precisa e sem receio de tocar dedos nas feridas do Brasil. Poderia ser menos complacente com Glória, mas se tratando de um produto cuja participação é fundamental, é natural que seja assim. O ponto mais alto certamente é o resgate a carga emotiva, incomum em produções de true crime, resultando enfim em algo diferente, que faz justiça a Daniella, sem cair na esparrela de dar muita vazão aos assassinos e as teorias de que foi tudo um evento espiritual mesmo que use a palavra pacto no título.

14 comments

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