Lançado em 2008, Train é um dos remakes sombrios dos anos 2000 e bebe da fonte de Albergue e companhia

Train é um filme de terror de baixo orçamento, que tenta ser uma nova versão de um “clássico” dos anos 1980, ao menos, em tese. Produção dos Estados Unidos originalmente pensada para o cinema, mas que chegou em DVD na maior parte do mundo, hoje é lembrada mais por ser protagonizado por Thora Birch e por seguir na linha do torture porn, estilo e subgênero como moda na década de 2000.
Dirigido e escrito por Gideon Raff, esse teve produção de Boaz Davidson, Danny Lerner, Les Weldon.
Foram produtores executivos Danny Dimbort, Avi Lerner e Trevor Short.Jack Birch foi coprodutor e D. Daniel Vujic foi produtor de estúdio, mas não teve créditos como tal.
A história gira em torno de um grupo de atletas dos Estados Unidos, que entram a bordo de um trem.
Os universitários participam de um campeonato e acabam enfrentando um bando de bandidos de intenções malignas.
Tal qual ocorreu em O Trem do Terror, aqui as pessoas sofrem contra assassinos de identidade escondida, saindo gente mascarada para entrar dessa vez figuras internacionais, maléficas graças a uma ótica torta da equipe de produção.
Estreia
Como dito, o longa-metragem foi programado para o cinema, tanto que em outubro de 2008, passou em sua terra natal, nos EUA, no Screamfest Film Festival.
No Japão estreou em 2 de maio de 2009, mas já em agosto houve uma premiere para o DVD.
Nos EUA, houve uma premiere igual, em novembro de 2009.
Nomenclatura, gravações e estúdios
O título original é Train, na Argentina se chama Expreso al terror. Na República Tcheca se chama Vlak do pekel e em Portugal é O Comboio Infernal.
As filmagens ocorreram em agosto de 2007, na Bulgária, no New Boyana Film Studios, em Sófia.
A companhia que o fez foi a Millennium Films distribuído pela Lionsgate Home Entertainment nos EUA.
Quem fez
Gideon Raff fez Retratos Mortais, esse e episódios de Prisioneiros de Guerra, Dig, Heroes: Rebirth e Quantico.

Também colaborou em texto das séries O Espião e Homeland: Segurança Nacional.
Les Weldon produziu Tubarões Assassinos, Herói, Tubarão em Veneza, O Concerto Maldito: Sinfonia do Mal, Submissão, Hellboy e o Homem Torto e Red Sonja.
Boaz Davidson foi produtor em Sharkman, Dia dos Mortos de 2008 e 2017, Ninja, Conan: O Bárbaro, Hércules de 2014 e Boyska: O Imbatível.
Foi produtor executivo em Confiar, Os Mercenários e suas sequências, Tubarão em Veneza, Massacre no Texas, Hellboy e o Homem Torto e Red Sonja
Dirigiu Ritmo Alucinante, X-Ray: Massacre no Hospital, O Último Americano Virgem, Cyborg: O Exterminador de Aço, O Vingador e Procurando Por Lola.
Danny Lerner produziu Zona de Tubarões, Tubarões Assassinos, Conan, Ruas de Sangue, Os Mercenários 2 e Agente do Futuro.
Sem duble:
Em entrevista para imprensa, o diretor Gideon Raff, afirmou que Thora Birch realizou muitas de suas próprias cenas de ação, sem necessidade de dublês.
Narrativa
Antes mesmo de aparecer qualquer diálogo ou interação humana, surge na tela cenas de gore bastante agressivas, embora com resolução baixa, visto que a qualidade da cinematografia é fraca.
Dessa forma aparece um corpo, perto de uma fornalha, em ambiente escuro, depois surgem restos mortais, pedaços de corpos, espalhados pelo chão, pela mesa e por objetos que por ventura estejam por ali, naquele cômodo.
A primeira interferência humana é de alguém de identidade incógnita, passando um bisturi em um corpo que parece um cadáver.
A partir daqui falaremos com spoilers.
O aviso está dado, leia a partir desse ponto sabendo desse fato.

Outro ambiente
Logo a trama vai na direção do tal do grupo de estudantes, que estão em um ginásio, em um número de luta.
Mesmo sem os avisos, se nota que aquela é uma terra estrangeira, já que há letras diferenciadas no cenário, ou seja, eles não estão em território estadunidense.
Todd Patterson (Derek Magyar) perde a luta, segue inconformado, acredita que foi roubado, depois de discutir com sua namorada Alex (Birch) seu par, resolve ir numa festividade local, a convite do adversário de Todd.
A ida aos festejos
A reunião é em uma espécie de boate e o casal resolve ir com quatro pessoas, Alex, Sheldon (Kavan Reece) a bela e desinibida Claire (Gloria Votsis) e o supervisor da equipe Willy (Gideon Emery) e eles estão em Kanyaz Boris em Naxavisimosti, Bulgária.
Depois de uma briga com um dos russos - que aliás, tenta roubar uma das meninas para si, dopando para seduzir a mesma - ocorre uma briga, que visa resgatar Claire.
Esse é um ponto curioso, visto que há destaque nos anúncios oficiais para Thora Birch, mas na prática, não há muito destaque as figuras femininas nesse início.
Na primeira parte da trama, elas são apenas acessórios, como coisas e não como pessoas de verdade. É curioso que elas não pareçam tangíveis, reais ou sequer caricatas, são desprovidas de caracterização fora a de seus corpos bonitos.
Ainda há de se destacar que tridimensionalidade não é uma questão compartilhada entre os personagens que aqui aparecem.
Questão do idioma
O professor deles, chamado de treinador Harris (Todd Jensen) dá um esporro nos funcionários da estação de trem e quer passagens para Odessa, na Ucrânia.
Ele se irrita por conta de ninguém falar sua língua, o que é um absurdo, como se pessoas locais tivessem a obrigação de falar o idioma de um país que fica além mar, distante, em outro continente.
Uma mulher aleatória interfere e recebe toda a atenção de Harris, basicamente pelo fato de falar inglês. Prontamente ele aceita o auxílio dela, sem suspeitar da conveniência em alguém atender o seu chamado, vai então na direção da sua indicação, que mira um lugar secreto.
O grupo chega a uma plataforma e estranha tem pessoas que parecem suspeitas, algumas sem alguns membros dos corpos, prenunciando o mal que acometeria eles.
Esse é o ponto onde se nota a óbvia fonte de inspiração na xenofobia utilizada em O Albergue, mas sem a anarquia narrativa de Eli Roth, tampouco sem a ironia que o outro realizador normalmente emprega em suas obras.
Na embarcação
O grupo decide seguir viagem a bordo de um trem, o Strasdania, comandada por Vasyl (Valentin Ganev) mas antes de embarcar, o condutor dá as boas-vindas a eles, citando Dosvidanya, que em russo, significa adeus, ou seja, o destino manifesto deles já estava em curso.
No interior, dois sujeitos pedem o passaporte de Alex, que entrega sem pensar quase nada, mesmo eles sendo suspeitos.
Ela, que é a personagem mais esperta da trama, não apresenta qualquer resistência.

Eles dizem que é para proteger ela, a moça atende e rapidamente eles jogam na fornalha, deixando-a em território estrangeiro sem identificação e sem qualquer cerimonial dramático.
São ruins desde o momento um.
Aqui a obra abraça os tropos dos slasher, punindo as pessoas tolas.
Normalmente se faz isso associando o destino maléfico também a libertinagem sexual, mas nesse caso, o pagamento pecaminoso é unicamente relegada a burrice, embora outra personagem fosse bastante sexualizada. Alex, no entanto é preparada para ser a garota final perfeita.
Passando mal
Depois do começo da viagem, a bela Claire vai ao banheiro, uma vez que está com problemas digestivos.
Enquanto vomita, não fica claro o motivo desse mal-estar, visto que náuseas são comuns em viagens de barco, não de trem. Fica inclusive o receio de que ela possivelmente está grávida. A moça pode ter sido envenenada, mas isso não é dado, mesmo por que minutos antes ela estava muito bem.
Aparentemente, passa mal por motivos de conveniência e quando se abaixa, aparece a sua peça íntima, de cor branca e um formato bastante revelador. Nesse momento ela é sexualizada de maneira desnecessária.
Ela se assusta com um sujeito inofensivo, que tem uma cicatriz de queimadura no rosto, mas aparentemente ele não faria mal a ela, sendo assim um dos únicos que foge do escopo preconceituoso que o filme propõe.
Aqui se brinca com a questão de que pessoas feias são necessariamente malvadas.
Clichês diferentes em conflito
Enquanto os jovens brincam de verdade ou desafio - um filme com supostos adolescentes não poderia ser mais óbvio na interação entre esses - o treinador que minutos antes arrumou uma pretendente, sofre com flagelos típicos de torture porn.
Isso serve de exemplo, para o fato de que nenhum dos ataques é de surpresa, são bastante óbvios e os que causa e perpetram esses momentos, são estereotipados ao extremo.

O texto é tão pesado na fobia ao estrangeiro que beira a ofensa, quando não avança por cima de qualquer possibilidade de bom senso.
Nenhum personagem é tridimensional, não há quem seja realista e nem os que são caricatos são chamativos. Nenhum deles é retratado de maneira cartunesca e exagera ao ponto de fazer simpatizar.
Todo o esforço em vilanizar os europeus é só tosco.
Até existem alguns momentos de violência gráfica bem empregada, com golpes secos nos personagens imbecis, mas nem esse gore compensa.
Nos momentos finais o quadro muda, ligeiramente.
Bons momentos
Raff ainda tenta ousar, colocando algumas cenas de ação boas, das pessoas se esgueirando do lado de fora do trem.
Esses momentos devem ter sido difícil de filmar e isso já é uma melhor utilização do cenário do que foi visto nas outras versões dessa mesma história, tanto Trem do Terror quanto Terror Train e Terror Train 2.
O fim dessa sequência surpreende pela qualidade, mostra Willy e Alex encontrando os amigos até então perdidos, descobrindo o real mal que se esconde nos vagões.
Pobreza em plots
A grande questão é que o texto é pobre e não há qualquer preparação para eles terem decidido ir até lá.
Fato é que os 40 minutos melhoram bastante de qualidade, se enxerga melhor as crueldades que ali ocorrem, embora seja bizarro que tenha tortura em determinada classe e nas outras a viagem segue normal.
Nesse momento o trem está repleto de civis, de pessoas que supostamente nada tem a ver com os crimes ali cometidos.

Nem mesmo a questão da língua deveria justificar tal incongruência.
Considerando a melhora que o filme sofre nesse trecho, o espectador mais exigente releva essas fragilidades, a fim de não perder o pouco de trama interessante que o longa apresenta, mesmo que não faça quase nenhum sentido.
Conluio
Aparentemente, todos os passageiros estão reunidos em torno do propósito de humilhar e maltratar os estadunidenses.
É quase como se fosse aqueles filmes de "vilas malditas", como A Aldeia dos Amaldiçoados ou Maldição: Raízes do Terror mas que não habitam um lugarejo e sim um meio de transporte popular de difícil manuseio.
Ideal
O motivo das torturas é confuso, já que aparentemente, se rouba os órgãos das vítimas para traficar, no entanto, a mulher que transita entre os bandidos, sugere que há um intuito filantrópico, de municiar pessoas carentes e deficientes, entregando os órgãos roubados de turistas.
É simplesmente a justificativa mais esdrúxula possível e é tão estúpida que quase funciona, uma vez que esses, além de torturadores, agem como versões de Robin Hood do tráfico humano, roubando partes de ricos para dar aos pobres.
O final ainda aguarda quedas de bonecos do trem - que fingem ser pessoas, mas não enganam ninguém - entre outros trechos confusos e desnecessários.
Train é um filme aquém, que tenta usar a base já conhecida, mas que se acovarda ao tentar produzir um final adocicado para sua personagem principal. É sensacionalista, apela para uma filmografia mais obscura mas não possui coragem para aprofundar nenhum dos seus aspectos, o que é uma pena, visto que havia potencial aqui.
Confira todas as versões da série Terror Train/ O Trem do Terror
1980 - O Trem do Terror
2008 - Train
2002 - Terror Train
2022 - Terror Train 2.








