Pra Refletir: Cinema não é parque de diversões

Na fila para a sessão de ‘Conan - O Bárbaro’, encarei por alguns momentos um enorme display de ‘Pequenos Espiões 4D’. Um filme que além dos efeitos em três dimensões, proporcionará também experiências olfativas. Tem algo errado aí. De repente, me passou pela cabeça que o cinema pode estar sendo confundido, por seus produtores e principalmente pelo público, com outra forma de entretenimento: um parque de diversões.

É bem verdade, que no início, quando a sétima arte nem era considerada arte e os filmes não mostravam nada além do que a câmera capturava, o cinema não era mais do que uma atração de exposição. Mas, o tempo passou, inúmeros cineastas transformaram aquela forma de dar movimentos à fotografias em um meio pra se contar belas histórias. Com isso, o cinema passa a ter sua própria linguagem, seu próprio objetivo: emocionar através de som e imagem. Platéias choraram com ‘...E o Vento Levou’, vibraram com ‘Ben-Hur’, se divertiram com ‘Star War’s, se assustaram com ‘Drácula’. Grandes obras, de grandes autores que não precisaram que as cadeiras do cinema tremessem, nem que o espectador tivesse a impressão de que objetos saltariam da tela para que funcionassem. Se um filme é bom, bem dirigido, bem escrito e com atuações marcantes, ele não precisa usar desculpas tecnológicas como muleta pra conseguir se sustentar. Isso vale pro 3D, pro 4D e pra qualquer nova dimensão que possam tentam enfiar goela abaixo do público.

Essa noção, de que o cinema se transforma cada vez mais numa atração de circo, proporciona momentos que seriam cômicos, se não fossem lamentáveis. Grandes obras como ‘A Árvore da Vida’, do diretor Terrence Malick, são obrigadas a enfrentar a fúria do público que acha que o cinema está ali apenas para diversão. Esquecem que cinema não é o nome do prédio onde estão assistindo o filme. Cinema é uma arte. E como tal, usa de várias formas, dentro de sua proposta, para contar uma história. Um filme não é uma porcaria porque você não o entende. Principalmente quando a intenção da obra é tão clara como a do longa citado: fazer o espectador refletir. E a preguiça do grande público em pensar pode dar fim a qualquer expressão genuína de arte. É assim: se se interessam menos por determinado gênero, os estúdios param de financiá-lo, mesmo se for de grande qualidade. Um exemplo? Filmes de Western. Quantos você vê estreando no Multiplex mais próximo?

Filmes nem sempre tem de ser espetáculos visuais, repletos de efeitos especiais e tramas rasas. Claro, produções assim são divertidas, mas como tudo na vida, cinema não é só diversão. Por que se privar da sensação de assistir um longa-metragem que estimule a inteligência? Que faça você refletir sobre determinado assunto, mesmo que você não concorde com o ponto de vista de seu realizador. Só o ato de refletir, gerar discussões, já é gratificante o suficiente. Exercitar a capacidade de abstrair idéias é um passo importante pra que sejamos pessoas melhores, que conseguem compreender questões relevantes sobre sua própria natureza. É isso que um bom filme, que o bom cinema, proporciona. Não são somente 2 horas de escapismo que poderiam ser comparadas a um passeio na montanha russa ou na roda gigante. Ou será que vivemos num período tão cruel e lamentável, que precisamos de diversão barata a todo momento?

Não defendo que o cinema deva ser usado apenas como difusor de discussões filosóficas. Mas também não defendo a noção de que seja uma forma de se "desligar o cérebro", como muita gente adora dizer pra explicar fenômenos de bilheteria como a série ‘Transformers’, de Michael Bay. O interessante disso tudo é que grandes blockbusters como ‘De Volta Para o Futuro’, ‘Star Wars’ ou até mesmo recentes obras baseadas em HQs, não tomam seus espectadores por máquinas com botão de liga e desliga. E mesmo assim tem seu público fiel, que garante milhões aos bolsos de produtores e da indústria em geral. E, por causa deste respeito ao espectador, ficaram e ficarão na memória de muita gente, por vários anos.

Pedir por entretenimento de qualidade não é "pedir muito". É simplesmente ter o mínimo de senso de auto-preservação pra não querer entrar na estatística de "gente que não entende o que vê". Exigir qualidade é dar valor à boas produções e procurar compreender as mensagens nelas implícitas.

P.S.: infelizmente, o filme que estava indo assistir e que me fez refletir pra escrever este texto se provou mais um exemplar de obras que esperam ser apreciadas por um público imbecil. Como Conan está tendo um péssimo retorno, tanto da crítica especializada como de seus espectadores, só comprova que os estúdios estão errados em achar que a grande massa é idiota. Preguiça de pensar é só um sintoma, não é uma doença. Ainda há tempo pra cura. Pensem nisso.

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Alexandre Luiz

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22 comments

  1. Beto Brandao 22 setembro, 2011 at 08:32 Responder

    Eu precisava ler isso… Fui assistir ao Árvore da Vida e saí pensando q eu estava fora da realidade por ter achado um bom filme… a maioria do povo saiu xingando.

  2. Leandro 22 setembro, 2011 at 13:14 Responder

    Eu acho q cinema é uma diversão sim. Vai de pessoa e gosto de vc ir ou nao assistir um filme. Concordo q muitos subestimam a" plateia" mas vc ve os resultados nas grandes bilheterias.

    MICHAEL BAY RULES EVER !!

  3. Antonio 23 setembro, 2011 at 14:10 Responder

    Há de se levar em consideração que é uma opinião sua e que deve ser respeitada. Se outro fala que cinema é só diversão , ela também deve ser respeitada. Mas uma fato é incontestável.: se o filme der grana não tem opinião contra ou a favor da diversão que faça os estúdios mudarem de idéia. Avatar tá aí pra por qualquer argumento contra por terra. Se a tecnologia 3D, 4D ou o que for vier pra ficar ou não, aí só o tempo vai dizer.. No mais sempre é o dinheiro que fala mais alto. Mesmo A Árvore da Vida vai render grana na hora de vender DVD, BD, TV aberta, a cabo, etc. E sabe como Star Wars era definido na época pelos críticos? Cinema fliperama.

  4. Daniel 28 dezembro, 2011 at 12:06 Responder

    é isso ae…filmes descerebrados como transformers só servem pra encher os bolsos dos produtores… achar q esse tipo de filme diz alguma coisa de relevante ou significativa é muita pretensão…

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