Crítica: A Bela e a Fera

Ainda que seja possível desagradar as pessoas mais puristas, é certo que a lógica por trás dos grandes estúdios de cinema é extrair o máximo possível de seus produtos, sem falar na exploração sem fim das marcas mais conhecidas e que já renderam milhões e bilhões ao longo dos anos e décadas. Desse modo, tendo a noção de que as animações em 3D suplantaram o lançamento das animações em 2D, a Disney, que possui em seu leque de produtos marcas conhecidas mundialmente como Star Wars, a maior parte do universo cinematográfico Marvel e, claro, as suas famosas princesas, decidiu, dessa vez, transformar em live-action um dos seus maiores clássicos, A Bela e a Fera.

A Bela e a Fera é uma história já bastante conhecida por todos, no entanto, é um daqueles contos que continuam habitando o imaginário e encantando os mais diversos espectadores dispostos a revisitá-lo. Ao ser novamente exibida nos cinemas, a mais recente versão do filme é um verdadeiro espetáculo visual, repleto de efeitos que saltam aos olhos de qualquer um, revelando e contando a trama nos pequenos e grandiosos detalhes.

Para essa empreitada, a Disney tratou de se cercar de nomes já ligados ao filme em 2D da década de 1990 do século passado. Um destes nomes é Alan Menken, responsável pela trilha sonora da animação citada. Outro é o letrista Tim Rice; juntos, Menken e Rice ainda trouxeram três novas canções para a versão 2017. Além deles, há um elenco estrelado por Emma Watson que, como sabemos, trocou um musical — o oscarizado La La Land, cujo papel que seria da Watson ficou com a outra Emma, a Stone —, para poder estar em A Bela e a Fera, curiosamente, uma fábula mezzomusical, mezzodrama tradicional. Para viver a Fera, temos Dan Stevens. O ator, que já atuou em séries de televisão (sendo Downton Abbey um dos seus trabalhos mais conhecidos), tem ganhado certo destaque como o David Haller, da série Legion. Para rechear o elenco com atores ainda mais conhecidos e gabaritados, a Disney tratou de ter nomes como Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Stanley Tucci e mais alguns outros e outras.

Visualmente impressionante, se o filme não tem o apuro visual de Mogli, ao menos entrega figurinos e cenários que fazem bons usos das cores para passar algumas mensagens sobre o próprio andamento das plots e sobre o emocional dos personagens. Através, por exemplo, de um uso primoroso de contrastes de cores opostas em suas diferentes tonalidades, é possível identificar e perceber como a história do filme vai sendo contada, construindo-se gradativamente a partir de interessantes combinações. Desse modo, os figurinos acabam por entregar e revelar o que está destinado aos personagens. É nessa perspectiva que torna-se possível compreender a personalidade dos atores centrais: a Bela e a Fera.

De início, com um vestido azulado, só que composto por um pequenino detalhe vermelho, o figurino trajado por Bela conta um pouco sobre sua personalidade. Considerada uma verdadeira estranha no vilarejo devido a seu gosto por leitura, o azul inicial de sua vestimenta atribui um toque mais fechado e discreto a sua personalidade, ao mesmo tempo em que já indicava, com um mínimo detalhe vermelho que, muito provavelmente, ela despontaria para o amor. E é o que acontece. Aos poucos, com o desenrolar da história, o vestido da Bela vai adquirindo cada vez mais toques de vermelho, como que se deixando contaminar pelo amor à medida em que sua afeição pela Fera vai crescendo, até que em um determinado momento, a personagem aparece com um vestido todo vermelho, mostrando que o amor, enfim, chegou.

Igualmente, as cores contam muito sobre a Fera. A princípio, suas vestimentas recebem tonalidades mais escuras, as chamadas cores frias, e que indicam visualmente acerca da personalidade sombria da personagem, até que vão adquirindo um tom de azul cada vez mais claro, apontando como a Fera vai adquirindo uma postura mais serena a partir do convívio com a Bela moça que o cativa, conquista e que, assim como ele, tem uma imensa uma paixão por literatura.

A narrativa culmina em um dos momentos mais sublimes e encantadores: a cena da valsa, no qual os contrários se misturam, se combinam, conversam entre si, representados pelo dourado/amarelado/alaranjado do vestido da Bela e o azul com toques dourados do figurino da Fera, exibindo então o despertar para o amor das personagens que se deixaram contagiar pela emoção. Assim, figurinos e cenário se compõem de forma a enaltecer e representar os dois extremos opostos representados pelo casal principal: razão (azul) e emoção (dourado).

É possível também perceber o acertado uso das cores em um dos principais cenários da história: o castelo da Fera, que, inicialmente é representado por tons escuros e tenebrosos, com um azulado escuro que perpassa todos os cômodos, sendo discretamente iluminados por alguns dos objetos, representando a emoção do ambiente, até alcançar uma total iluminação com o desfecho da narrativa, alaranjando-se.

Por fim, ainda que o filme caminhe por uma das atuais tendências hollywoodianas: reboots, prequels, remakes, certamente A Bela e a Fera é um filme que vale a pena ser assistido e apreciado por quem viu e quem não viu todas as versões anteriores devido à todo encanto das fábulas e a beleza retratada nos mínimos e mais bem pensados detalhes, suscitando reflexões sobre sonhos, sobre a fragilidade das aparências e o quão bonito pode ser um encontro de essências.

Jônatas Andrade

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1 comment

  1. Klaus 29 março, 2017 at 09:48 Responder

    que bom v uma crítica de cinema que não apenas comenta o filme a partir da sinopse e elenco

    parabéns

    tem gente que se interessa por detalhes técnicos e nunca consegue ler sobre eles nas críticas

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