Federal | Entrevista com roteirista Erico Beduschi

O filme de ação policial nacional Federal que estreou em outubro foi dirigido por Erik de Castro e teve roteiro escrito por Erico Beduschi. O Cine Alerta proveitou e conversou com exclusividade com roteirista do filme.

Como você entrou no projeto do filme?

Erico Beduschi: Conheci o Erik em 1988, quando morei em Brasília pela primeira vez (a segunda foi em 1999, já trabalhando com a BSB Cinema). Eu já gostava de escrever na época, e ele já queria fazer cinema, então tínhamos muito em comum. Durante uma de nossas conversas ele me falou sobre uma idéia para um filme policial envolvendo um grupo de policiais caçando um traficante que tentava se estabelecer em Brasília. Ele tinha tudo muito definido, e embora algumas coisas tenham sido modificadas ao longo do processo,  eu posso dizer que naquele momento nascia o Federal. Quando retornei para Brasília dez anos mais tarde, começamos a desenvolver o roteiro. Foi praticamente um ano de conversas diárias e muita pesquisa. Em 2000 voltei para Curitiba e trabalhei na primeira versão, e assim fomos lapidando o roteiro até chegarmos ao resultado final.

Quanto tempo voce demorou pra escrever o roteiro completo?

Erico Beduschi: Considerando todos os tratamentos, algo em torno de dois anos e meio.

Quando o roteiro estava sendo escrito, vocês já esperavam as comparações com Tropa de Elite?

Erico Beduschi: Absolutamente não, mesmo porque durante todo o processo jamais havíamos ouvido falar do Tropa de Elite. Quando eu assisti ao primeiro filme (o segundo ainda não tive a oportunidade de ver), o Erik já estava rodando o Federal. Quando vejo comentários dizendo que o Federal veio “no rastro” do Tropa, eu acho graça. Provavelmente algumas pessoas tiram essa conclusão porque os dois filmes permeiam o mesmo gênero, mas quem assistir a ambos vai claramente perceber que a semelhança termina aí.

Qual maior desafio em apostar em um gênero pouco explorado no Brasil?

Erico Beduschi: Flertar com os clichês é o maior desafio de um roteirista. Desde o primeiro tratamento eu sabia que inevitavelmente alguém iria dizer que o Federal é “americanizado” porque tem tiroteio, perseguições, etc. Mas vamos lembrar que os Estados Unidos não criaram este estilo de cinema, eles apenas o popularizaram. Ninguém é “dono” do gênero. Na Europa, especialmente na Alemanha, os caras fazem um filme atrás do outro com tudo o que você pode imaginar: desde policiais de estrada até cavaleiros Templários imortais, e nem por isso as pessoas dizem que eles estão copiando filmes Norte Americanos. Quando eu escrevia cada cena do Federal, tudo o que eu queria era envolver o público, porque para mim cinema é, acima de tudo, entretenimento.

No Brasil os filmes que fizeram maior sucesso, contavam a historia do lado dos “bandidos”, diferente de Federal que mostra a policia. Em seu ponto de vista, o Brasil deveria apostar mais nesse estilo de filme?

Erico Beduschi: Todo mundo gosta mais do vilão do que do mocinho, não é verdade? Eu sempre fui fã do Darth Vader, nunca me vi na pele do Luke Skywalker ou do Han Solo. Certa vez eu li que o que salvou a carreira do Schwarzenegger foi ele ter escolhido o papel do Terminator ao invés do herói. Mas o que eu curto mesmo é a dualidade que existe em todos nós, e é assim que eu sempre trabalho meus personagens. Uma coisa que eu e o Erik sempre quisemos com relação ao roteiro era manter aquela imensa “área cinza”, sem preto nem branco, porque é justamente nesta “área cinza” que os policiais do Federal tem que entrar para combater o inimigo. Enquanto os traficantes fazem o que fazem pelo poder, pelo dinheiro, os nossos policiais fazem por um código de honra, pelo bem maior, pela justiça. Eles são a linha de frente no campo de batalha, estão levando bala pela gente. Mas eles sabem que para enfrentar o mal, eles têm que ser enérgicos, duros, ou do contrário vão perder a luta. Saber quais são os limites é o ponto-chave, porque é muito fácil acabar se tornando o “monstro” que se está combatendo. A grande pergunta do Federal é: até que ponto você pode chegar para fazer o que é certo? Eu certamente adoraria ver outras produções Brasileiras abordando tramas semelhantes, e acho que existem diversos gêneros que poderiam ser explorados.

Durante todo o processo de gravação, vocês tiverem que alterar bastante o roteiro?

Erico Beduschi: Não foi necessário. Chegamos ao set de filmagem com um roteiro bem trabalhado, definido e coerente, justamente para que na hora de gravar não aparecesse nenhum imprevisto.

Você acompanhou de perto todo o processo do filme?

Erico Beduschi: Como o filme foi todo rodado em Brasília e eu estava em Curitiba, naturalmente a logística me impedia de estar presente no set tanto quanto eu gostaria. Além do mais eu estava ocupado com outros roteiros, então tinha que abrir espaço na minha cabeça para as idéias que eu estava desenvolvendo. Mas a turma da BSB Cinema sempre me mantinha informado do que estava acontecendo, e isso foi muito legal. Continua sendo assim agora que estou na Itália. Eu fui ao set apenas uma vez, durante três dias, porque eu queria assistir à gravação de uma seqüência de ação. Quando estava fazendo a conexão em São Paulo eu encontrei o Selton, que também estava indo para Brasília depois de uns dias de folga. Quando eu me aproximei e me apresentei, o Selton sorrriu e disse: “Ah, então você é o Erico Beduschi? Eu estava começando a pensar que você não existia!” No set foi a mesma coisa. Naquele momento eu percebi a importância de “dar as caras” pelo menos uma vez, conversar com os atores e com a equipe, ver como o processo funciona na prática. Isso enriquece você como profissional. Mas tudo isso sem interferir no trabalho do pessoal. Roteirista no set é, acima de tudo, um espectador, porque o nosso trabalho já foi feito, portanto é hora de deixar a turma fazer a parte deles.

Qual foi  melhor parte de estar trabalhando em um projeto nacional?

Erico Beduschi: Saber que eu fazia parte desta renovação pela qual o cinema Brasileiro está passando. Apoiar é fundamental, mas contribuir diretamente é um privilégio.

Para encerrar, você está trabalhando em algum próximo projeto? Tem como adiantar algo pra gente?

Erico Beduschi: Sim, atualmente estou envolvido em duas produções de longa metragem aqui na Europa, envolvendo parcerias com a Inglaterra, Alemanha, Espanha e Polônia. Aqui se trabalha assim, como uma grande família. Temos também uma excelente parceria nos Estados Unidos. Um destes projetos é um roteiro original meu, uma história de “horror gótico” que já vem circulando aqui na Europa desde o ano passado. Meu grande parceiro por aqui é o diretor paranaense Werner Schumann (também brasileiro e que mora em Berlin), com quem já trabalhei no longa “O Coro”, recentemente exibido no Festival de Mar Del Plata. Mas por enquanto eu tenho que obedecer ao código de ética do roteirista, que é igual a padre no confessionário, então infelizmente não posso comentar muito. Eu prometo que assim que eu estiver “liberado” para falar sobre estes projetos, vocês serão os primeiros a saber.

Tiago Batista

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3 comments

  1. @DavidDVDL 8 dezembro, 2010 at 13:57 Responder

    Grande entrevista, parabéns ao Tiago e ao Cine Alerta. Quanto ao Erico Beduschi, é de profissionais asim que o cinema nacional precisa…Sucesso a todos!!!

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