Review: Gotham S01E01 - Pilot

gothampiloto03O conceito de Gotham é perigoso. Há uma linha muito tênue que divide a boa ideia de contar a história de uma das cidades mais sombrias da DC Comics e a de criar uma série situada no mundo do Batman, sem jamais mostrar o herói. Quantas temporadas o produtor e criador do programa, Bruno Heller, pretende levar adiante, apenas a aceitação do público vai dizer, mas pelo episódio piloto, já fica bem claro que ninguém vai se sentir enganado e que, quem diria, o Homem Morcego pode nem fazer falta.

A trama do primeiro episódio gira em torno do assassinato de Thomas e Martha Wayne, da investigação liderada por Harvey Bullock (Donal Logue) e seu parceiro novato James Gordon (Ben McKenzie) e de uma crescente batalha pelo controle do submundo, atualmente comandado por Carmine Falcone (John Dooman), um gângster à moda antiga que pode encontrar em uma de suas subalternas, uma terrível inimiga: Fish Mooney (Jada Pinkett Smith). Com tanta coisa acontecendo, o espaço dado ao jovem Bruce Wayne (David Mazouz) e seu mordomo Alfred (Sean Pertwee, em abordagem mais "durona") é bem menor do que o esperado, deixando evidente que o personagem é apenas mais um entre tantos afetados pela podridão de Gotham City e o que a série se propõe a mostrar é justamente isso.

O espectador sabe que Bruce será o Batman, assim, a trajetória mais interessante é a de Gordon. Também é sabido que no futuro ambos se unirão contra o crime, mas o caminho percorrido pelo policial novato até chegar ao trabalho de Comissário é o que deve chamar atenção, pelo menos durante a primeira temporada. McKenzie constrói seu James Gordon como alguém disposto a fazer a coisa certa em um lugar que a coisa errada é quase sempre a opção mais segura. Por isso seu conflito constante com Bullock, que graças à interpretação de Logue surge como um coadjuvante repleto de nuances. Até que ponto o policial veterano fecha os olhos para o crime, até onde vão suas ligações com o submundo e, talvez o mais importante, qual a possibilidade para ele de uma eventual redenção?

Outro personagem que promete uma participação memorável é Oswald Cobblepot, o jovem Pinguim vivido por Robin Lord Taylor. No piloto sua interação com Mooney é a de empregado, algo que muda drasticamente nos últimos momentos do episódio, dando dicas para o futuro criminoso que irá se tornar. Taylor rouba as cenas em que aparece, com suas afetações e comportamento dúbio e apesar de cair para uma visão caricatural do Pinguim, vai de encontro com a abordagem da série para o universo dos quadrinhos. Ao contrário da versão de Christopher Nolan em sua Trilogia O Cavaleiro das Trevas, Gotham prefere construir um mundo criado a partir de pastiche, sem uma época definida, e visualmente criativo, evocando a arquitetura gótica dos filmes do Tim Burton e o caos urbano de metrópole real criado por Nolan. Nessa união se sobressai o estilo e praticamente todo take do piloto exibe algum tipo de correção de cor ou artefato para ajudar a construir a ambientação do seriado.

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Fica difícil dizer se Gotham conseguirá entregar tudo que promete neste primeiro momento. Episódios de estreia geralmente são lotados de exposição desnecessária e aqui não é diferente. Tomara que as próximas semanas reservem diálogos melhores, menos personagens aparecendo apenas pelo bem da referência, como o Ed Nygma (Cory Michael Smith) ou Ivy Pepper (alusão a Hera Venenosa, que nos quadrinhos se chama Pamela Isley) e mais tempo para desenvolver as subtramas e personagens, já que desta vez tudo foi corrido demais (o que, infelizmente, também é comum em estreias). Se Bruce Wayne aparece pouco, a pequena Selina Kyle (Camren Bicondova) nem diálogo tem, surgindo apenas como observadora, ao mesmo tempo em que é, também, efeito colateral da complexa cidade. Como dito acima, são muitas plots paralelas, e as ramificações e possibilidades são inúmeras. Assim como as chances dos roteiristas se perderem, em uma visão mais pessimista.

De qualquer forma, Gotham é interessante o suficiente para trazer o espectador de volta, graças justamente a enorme quantidade de personagens feitos sob medida para afetarem e serem afetados pela cidade. Porque a ideia principal aqui é ir um pouco mais além do que aquela velha discussão sobre Batman criar seus inimigos. Se até mesmo o Morcego é fruto da onda de crimes presente em Gotham City, porque não seus nêmesis?

Alexandre Luiz

5 comments

  1. Carla Machado 23 setembro, 2014 at 22:59 Responder

    Putz, Alexandre Gotham não me convenceu não , mas darei outra chance e continuarei mais uns capítulos.
    Ben McKenzie não me convenceu sendo durão, precisa de maior carga emocional.
    O que mais me preocupa é o dedo podre do Bruno Heller que tenho mil pés atrás, por tudo que ele fez de besteira e enrolação em The Mentalist.
    Mas tou pagando pra ver. Espero que melhore mais..

  2. willtage 24 setembro, 2014 at 22:45 Responder

    Achei bem lugar comum… Visualmente a série é interessante, design de produção lindo. O protagonista é bom. Mas não me senti preso a trama, achei bem batida, sabe. O início da morte dos pais do Bruce também não senti. Mas, sim, promete algo mais.

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