Seria O Justiceiro uma das melhores séries de quadrinhos do ano?

Alguns personagens de quadrinhos são tão icônicos que uma adaptação para qualquer mídia que seja sempre vai causar alguma forma de descontentamento. Um bom exemplo disso é O Justiceiro. Surgido originalmente na revista Amazing Spider-Man 129, no longínquo ano de 1974. Frank Castle já passou pelo cinema três vezes (uma em 1989, outra em 2004 e novamente em 2008).

Isso nos traz a 2016, quando a Netflix apresentou a sua versão do personagem para a segunda temporada de Demolidor. Interpretado por Jon Bernthal, ator que se notabilizou na cultura pop pelo Shane, da série The Walking Dead, o novo Justiceiro teve uma aceitação tão grande (muitos até dizem que ele “salvou” essa temporada do Homem sem Medo), que o serviço de streaming anunciou uma série-solo para 2017.

Resultado: tivemos uma das melhores séries de TV desse ano que passou. O diferencial em relação às versões anteriores do personagem é que, agora, Frank Castle se mostra uma pessoa mais atormentada, mais conflituosa, e mais cheia de camadas. Essa abordagem foi, sem dúvida, um belo acerto, pois, permitiu explorar não só o desenvolvimento do personagem principal em si, como também de todos os que o cercam, como Billy, Curt, Lewis e Dinah.

É verdade que, para aquele espectador que já está um pouco saturado de séries baseadas em quadrinhos (principalmente, após os fiascos de Punho de Ferro e Inumanos), tudo aqui pode soar um tanto cansativo (afinal, são 13 episódios de quase 1 hora cada). Porém, nesse caso, é mais um erro da Netflix (que insiste em lançar as temporadas de suas produções de uma única vez), do que da série em si.

Analisando de maneira bem objetiva, O Justiceiro tem um roteiro muito bem estruturado, com ótimos personagens, atuações na medida e uma competente direção de todos os que passaram por esses treze episódios. Em termos de qualidade, fica de igual para igual com a primeira temporada de Demolidor. Talvez, se tivesse tido um episódio exibido por semana, para dar tempo do espectador se ambientar melhor à história, a série tivesse uma receptividade melhor. Mesmo assim, as qualidades dela são indiscutíveis, e, por isso, a série está aqui, como um dos destaques de 2017.

A seguir, uma análise (COM SPOILERS) episódio a episódio.

1º Episódio: 3 DA MADRUGADA

Logo de cara, já somos apresentados ao Justiceiro e à sua “peculiar” forma de lidar com criminosos, para depois, termos um salto no tempo de alguns meses e nos depararmos com um Frank Castle recluso, escondido entre civis. Arisco com todos, ele tenta superar os seus próprios traumas. Ao mesmo tempo, conhecemos Curt, amigo de Frank, que coordena um centro de apoio de ex-combatentes do exército. Outros personagens também vão se incorporando de maneira orgânica à trama, desde a agente do governo Dinah, até o misterioso Billy. E, ao final do episódio, podem ter certeza: vamos ver porque o Justiceiro é O Justiceiro. Ótimo cartão de visitas desta primeira temporada.

2º Episódio: DOIS HOMENS MORTOS

Aqui, Frank entende que não pode ficar escondido para sempre. Do nada, ele começa a receber ligações de um estranho que parece lhe conhecer muito bem. Nisso, vamos sabendo bem mais do passado do Justiceiro, quando ele ainda fazia parte do exército, e estava no Afeganistão, nas recentes incursões dos EUA naquele país. Já outros personagens começam a ganhar bastante espaço, como Dinah, e Karen, esta sendo uma jornalista que aparenta ter um grande envolvimento com Frank. Há ainda espaço para desenvolver um pouco mais o personagem Micro, justamente o estranho que está atormentando Frank com suas intermitentes ligações. Sim, há pouca ação de fato, mas, o desenvolvimento dos personagens é tão bom que uma narrativa mais movimentada acaba nem fazendo tanta falta assim.

3º Episódio: KANDAHAR

Neste episódio o passado de Frank é desnudado. Passamos a saber mais sobre o que, de fato, aconteceu no Afeganistão, mais precisamente, em Kandahar, e qual a relação do protagonista com Billy e Rawlins. E alguns momentos, por ter como ambiente direto a guerra, este episódio é o mais tenso e brutal até aqui, e passamos até a perceber certa crítica em como a hierarquia do exército possibilita que coisas absurdas ocorram. Mais um ótimo episódio da série, que continua num crescente muito coeso, sem atropelos, e com uma trama que, de fato, prende a nossa atenção.

4º Episódio: REABASTECIMENTO

Dos melhores episódios dessa temporada, “Reabastecimento” consegue unir desenvolvimento de personagem com narrativa, sem atropelos. Os melhores momentos ficam por conta do estabelecimento de Dinah como chefe de seu departamento após o assassinato de Wolf, e a crescente perturbação de Lewis, que se vê cada vez mais imerso na paranoia de ter que pertencer a um exército, chegando ao ponto de se “alistar” num grupo paramilitar para se sentir um pouco melhor. A sequência final do episódio (uma cena de ação até razoável) tira um pouco o brilho por conta de alguns furos de roteiro, mas, ao final, convence por apresentar o primeiro encontro de Frank com Dinah.

5º Episódio: GUNNER

Enquanto Dinah se recupera do acidente ocorrido no episódio anterior, e tenta investigar o paradeiro de Frank Castle, que todos julgam estar morto, o mesmo Frank, junto com Micro, resolvem ir buscar mais informações para continuar o plano de vingança do Justiceiro. Para isso, têm uma ideia um tanto quanto irresponsável de irem atrás de um antigo amigo de Frank. Mesmo com algumas conveniências meio forçadas de roteiro, o episódio mantém um bom nível de qualidade no contexto da série até aqui, mesclando muito bem momentos de tensão, com outros em que podemos ver melhor o comportamento de certos personagens, como Karen Page ou Rawlins, por exemplo.

6º Episódio: O INFILTRADO

Não à toa há o nome Judas neste episódio. Afinal, ele fala de questões como confiança, mentira, e, principalmente, traição. Traição, essa, que pode ser da mais sacal (como aquela envolvendo os filhos de Micro), até a que vai reverberar numa importante revelação do episódio, e que muda os rumos da história de maneira interessante. Mas, talvez, a traição que mais seja significativa em “O Judas Cabra” seja a que sofre Lewis, ao descobrir que O’Connor, ferrenho militarista e nacionalista que participa dos encontros de veteranos, é, na realidade, um impostor, o que culmina numa ação brutal de Lewis, que, dada a sua instabilidade emocional, era inevitável. E, temos mais um ótimo episódio que explora muito bem o enredo e os seus personagens.

7º Episódio: NA MIRA

Logo no início deste episódio vemos Lewis lidando com as consequências de sua trágica ação envolvendo O’Connor no capítulo anterior. Ao mesmo tampo, Frank e Micro vão atrás de mais um dos envolvidos na conspiração que vitimou a família de Frank. O cerco se aperta mais e mais, e o Justiceiro fica bem próximo de realizar o auge da sua vingança. Ótimos dilemas (em especial, os de Lewis e de Dinah) são colocados no roteiro, mais uma vez, bem dosado e com competente desenrolar da trama.

8º Episódio: AÇO RESFRIADO

Um dos episódios mais medianos dessa primeira temporada, o que não significa, necessariamente, que seja ruim. O problema é que muito tempo é perdido com situações que acabam não chegando a lugar nenhum, que não fazem a estória “caminhar”, como o relacionamento entre Frank e Sarah, a “viúva” de Micro, culminando numa cena dos dois bêbados, que é bem constrangedora. Em contrapartida, a interação de Frank com o filho de Micro é legal, bem como o choque entre duas as operações táticas distintas, uma comandada por Dinah, e a outra, por Billy, ambas com o intuito de capturarem Frank, o que causa uma carnificina sem precedentes. Um episódio que, com certeza, poderia ter sido mais curto, mas, ainda assim, aceitável.

9º Episódio: ESTE LADO PARA O INIMIGO

Finalmente, as atitudes de Lewis reverberam para algo maior e mais trágico, o que faz com que Frank mude temporariamente o foco de suas ações, principalmente quando a vida de Karen e Curtis ficam na mira de Lewis. Mesmo que a espinha dorsal da trama principal tenha dado uma leve “parada” nesse episódio, os acontecimentos acabam, no final das contas, para revelar a todos que Frank está vivo, ou, como nas palavras dos telejornais locais, “o Justiceiro está de volta”. Faltou apenas o debate a respeito do porte de armas ser mais aprofundado, e menos simplório. Ainda assim, o tema ainda conseguiu render uma interessante crítica à hipocrisia que permeia essa questão. Mais um ótimo episódio dessa temporada.

10º Episódio: VIRTUDE DOS MAUS

Um dos episódios mais catárticos de toda essa primeira temporada. Excelente ver que, mesmo quando não se foca tanto em seu protagonista, a série consegue explorar uma boa história de maneira coesa. A narrativa, indo e voltando no tempo, orientando o espectador apenas pela hora do relógio, de início, pode parecer confusa, mas, depois, faz bastante sentido. Muito bom ver também um debate mais aprofundado sobre a questão das armas, mostrando que não existe “inocente”, quando a questão é se promover às custas de um assunto polêmico, como faz o senador Ori.  Ponto negativo fica somente para a personagem Dinah, que poderia ter percebido quais as intenções de Billy bem antes da sequência na escadaria. Fora isso, um episódio nota dez.

11º Episódio: PERIGO PRÓXIMO

O que o episódio anterior tinha em termos de ação, este tem em tensão. Frank Castle está com a cabeça a prêmio em metade do país, sendo perseguido intensamente por Rawlins, Billy e Dinah (todos por motivos diferentes, claro). A situação se torna complicada quando Sarah e os seus filhos são colocados no meio desse fogo cruzado, e aí temos um vislumbre do Justiceiro que conhecemos habitualmente dos quadrinhos, incluindo um fan service que todos os fãs esperavam: a famosa caveira branca em seu uniforme. É apenas o prelúdio para a sequência mais violenta da série, mostrando um Frank Castle frio e calculista, ou, mais ou menos, como nos habituamos a enxergar o personagem.

12º Episódio: LAR

Penúltimo episódio dessa primeira bem-sucedida temporada de “O Justiceiro”, e talvez o que justifique a série ser considerada, por muitos, a mais violenta da história da TV. De fato, o arco final, envolvendo Frank, Billy e Rawlins, é extremamente brutal e tenso. Antes disso, pudemos ver uma interessante interação entre Frank e Billy, numa sequência que poderia soar verborrágica, caso os personagens não tivessem sido devidamente estruturados ao longo da temporada. Mas, como foram desenvolvidos, vamos nos envolvendo naqueles diálogos entre dois homens outrora amigos, culminando na sanguinolenta sequência final. Bastante incômodo, mas, justificável diante da narrativa construída até então.

13º MEMENTO MORI

Desfecho necessário para esta primeira temporada, mesmo que ele soe clichê em alguns momentos, e arrastado em outros. É verdade que muitas cenas deste episódio poderiam ter sido editadas, porém, o destino que cada um dos personagens segue ficou bem satisfatório. O Frank encontra uma certa paz, Micro finalmente se reúne com a sua família, até chegar a “origem” daquele que, provavelmente, será o grande vilão da segunda temporada: Retalho. E, como diz Dinah em um determinado momento: A PUNIÇÃO FOI FEITA.

Erick Kaiwoá Silva

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