Crítica: Desejo de Matar (2018)

Remake do famoso filme setentista se perde em um festival de maniqueísmos e conveniências

A análise de qualquer filme (ou, simplesmente uma obra de arte em geral) precisa ser feita única e exclusivamente com base naquilo que a obra propõe. Caso estejamos falando de uma comédia, é necessário que ela faça rir (não importa se ela tem piadas sofisticadas ou se trata de puro pastelão). Já, em se tratando de terror, o ideal é que a obra inspire medo, pavor. Caso contrário, não terá cumprido a sua “função”.

É aí que chegamos neste remake de Desejo de Matar, tendo com protagonista Bruce Willis, e dirigido por Eli Roth. Para quem conhece o mínimo da carreira cinematográfica de Roth sabe muito bem o quanto os seus filmes são apelativos em termos de violência, fazendo parte daquele movimento intitulado torture porn, do qual Jogos Mortais também se enquadra. Ou seja, alguém com esse currículo filmando uma história como a de Desejo de Matar, é meio caminho andado para sabermos exatamente o que vamos encontrar, certo?

Não exatamente.

Ao contrário do que se poderia imaginar, este remake é violento, sim, mas ele não espirra sangue e tripas na tela o tempo todo. Ao contrário: nesse sentido, a produção é até comedida, quase tímida em se tratando de mostrar certas cenas. Incrivelmente, também, a direção de Roth é precisa, e não deixa o ritmo cair em nenhum momento. Para completar, o elenco principal está muito bem, com destaques para Willis e Elisabeth Shue.

Porém, os elogios acabam por aí.

Isso porque a produção peca num ponto fundamental: o roteiro. O primeiro ponto a se destacar nesse sentido é a manipulação forçada em relação à construção dos personagens, em especial, Paul (personagem de Willis). Para se ter uma ideia, em três momentos distintos, identificamos fácil essa manipulação: quando o protagonista decide fazer uma cirurgia de emergência em um criminoso, quando ele se recusa a revidar uma agressão sofrida por um desconhecido e quando ele quita uma dívida de agiotagem do irmão.

Se estivéssemos falando de uma comédia romântica, por exemplo, poderíamos só dizer que Paul é “gente fina”, uma pessoa que vê a importância de cumprir o seu trabalho de médico, e que não precisa bancar o “grande machão” em público. Só que, como estamos falando de um filme de vingança, a mensagem subliminar presente nessas cenas é bem clara: o erro de Paul é ser “bom demais”, “ético demais”, “pacifista demais”.

Isso sem contar que o roteiro carrega nos estereótipos. Todos os criminosos apresentados aqui ou são negros ou aparentam ser de descendência latina (o primeiro a aparecer em cena, por exemplo, possui o sugestivo nome de Miguel Javier). E, mais uma vez: se fosse uma produção com uma temática qualquer, esses momentos não incomodariam tanto. Porém, são instantes que cumprem um papel bem específico: disseminar o preconceito. Paralelo a isso, temos umas tentativas um tanto furadas de debate a respeito da violência urbana, com recortes bem toscos de programas sensacionalistas, onde o mote principal são frases de efeito a rodo.

“Mas, um filme desses precisa ser profundo?”

Não, de fato, não precisa (vide a simplicidade desconcertante de um filme como Doce Vingança, por exemplo). No entanto, o próprio roteiro desse remake quer se levar a sério o tempo todo, tentando discutir temas espinhosos como violência e porte de armas, mas, de uma maneira bastante rasa e simplória, transformando questões que deveriam ser serenas em algo “cool” (a sequência de Paul decidindo por se armar e fazer justiça com as próprias mãos ao som de “Back in Black”, do AC/DC, é dantesca).

Após as vinganças começarem, o roteiro, que antes pecava pela manipulação ideológica, agora passa a errar também em furos absurdos na trama. São conveniências em cima de conveniências que levam Paul a assassinar os bandidos que encontra pelo caminho. E, claro, mais uma vez, com antagonistas bem carregados nos estereótipos. Aqui, ainda temos um detetive que tenta ser uma espécie de contraponto moral para o protagonista, mas, que, no final, só serve para justificar a sua loucura.

Não há nada de errado em fazer um filme com uma opinião bem própria sobre determinado assunto. Se os realizadores do remake de Desejo de Matar acham realmente que a polícia é ineficiente, que somente as armas podem proteger um “cidadão de bem”, e que um homem sozinho e armado consegue diminuir a criminalidade de uma cidade, ótimo. Façam um filme assim. No entanto, que as justificativas e os argumentos sejam plausíveis.

O que fica complicado nesse tipo de filme é o roteiro impor o que o espectador deve pensar, não deixando margem para dúvidas ou questionamentos mais profundos. Ainda há uma cena, bem isolada, onde um homem, tentando imitar a atitude de Paul, tenta fazer justiça com as próprias mãos, mas, acaba sendo morto. Porém, trata-se de uma cena muito rápida, e que esvai qualquer debate saudável a respeito do assunto.

O que sobra é mais um filme de vingança que se leva a sério demais, mas, que não consegue solidificar os argumentos das próprias ideias que propaga. No final, fica raso, bobo, infantil, e, até certo ponto perigoso. A última cena (novamente ao som de “Back in Black”) é a síntese disso: transformar a violência em algo “cool” e o discurso conservador em algo necessário e sem questionamentos.

Erick Silva

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