Crítica: Fúria de Titãs 2

A propaganda é a alma do negócio e a Warner soube vender, como ninguém, Fúria de Titãs 2. Foi uma estratégia calculada. Primeiro os produtores e até o ator principal, Sam Worthington, declararam o descontentamento com a conversão em 3D do longa inicial. Depois começaram a dizer que se uma continuação saísse, seria melhor tanto na trama, quanto em sua versão tridimensional. Aí, o estúdio deu sinal verde e os trailers de Fúria 2 eram realmente muito bons. Bem editados, com uma música marcante ao fundo (o cover de Sweet Dreams, feito por Marilyn Manson), e pontuados por boas cenas de ação, os vídeos em si eram melhores que o primeiro filme. Mas, propaganda é mesmo a alma do negócio, e um bom marketing é capaz de vender qualquer coisa. As facas Ginsu provaram isso durante toda a década de 90.

A trama deste novo filme abandona qualquer relação com a Mitologia Grega, além dos personagens, claro. Perseu agora está vivendo numa vila de pescadores com seu filho Hélio (John Bell), dez anos após os eventos do longa anterior. Ao mesmo tempo, seu pai Zeus (Liam Neeson), seu irmão Ares (Edgar Ramirez) e seu tio Poseidon (Danny Houston) descem ao Tártaro para um encontro com Hades (Ralph Fiennes). O Deus dos Mortos, mais uma vez retratado como vilão, revela seus planos para libertar Cronos, pais dos Deuses, enfurecido por sua prisão, para acabar com o Panteão grego e reinar absoluto na Terra. Zeus, obviamente é contra a atitude mas acaba capturado e agora apenas Perseu é capaz de salvar seu pai e, claro, o planeta inteiro. Deste ponto em diante, a estrura básica do filme é a mesma de seu antecessor. Até aí, tudo bem, já que é também a mesma de várias histórias sobre heróis, gregos ou não. O problema é, nem roteiro, nem direção, oferecerem qualquer atrativo que justifique a produção do filme. Excluindo, lógico, a vontade do estúdio em criar uma franquia que renda alguns milhões.

Dos personagens coadjuvantes, cujas motivações não fazem sentido (como o semi-Deus Agenor, interpretado por Toby Kebbell), à direção truncada de Jonathan Liebesman, Fúria 2 sofre de todos os problemas possíveis. A começar pelo roteiro, repleto de diálogos cuja função é explicar o óbvio. Um bom exemplo disso é a subtrama envolvendo a Lança de Triam, arma criada com a união dos artefatos de Zeus, Poseidon e Hades. Todo momento em que é citada, um personagem surge para dizer quais dos três ítens estão faltando para que ela seja montada. Quando finalmente Perseu consegue uni-los, a grandeza da cena é subitamente interrompida quando alguém diz: "A Lança de Triam". Sim, por mais de uma hora o espectador é exposto a todo o conceito da arma para que quando ela finalmente apareça a cena tenha um tom épico e majestoso, arruinado por uma constatação estúpida.

E há a direção de Liebesman, que funciona bem apenas acidentalmente, já que sua estética de "câmera na mão" não deixa o espectador prestar atenção suficiente nos personagens digitais mal feitos, ou seja, nas criaturas mitológicas responsáveis por quase todas as cenas de ação. A batalha com o Minotauro (uma das demonstrações do desvio que os roteiristas fazem da Mitologia Grega) é decepcionante. O bicho praticamente não aparece, sendo resumido a um mero borrão na tela cada vez que ataca Perseu. Apenas Cronos surge de forma interessante, dando a impressão que um parte generosa do orçamento se destinou à sua criação (embora tenha ficado muito parecido com o Balrog de O Senhor dos Anéis).

Graças ao cineasta, ainda, Fúria de Titãs 2 não é dotado da menor noção espacial, principalmente nas batalhas, com cortes que não se comunicam, deixando as cenas incompreensíveis, do ponto de vista geográfico. Mas Liebesman se sai bem ao menos uma vez quando ensaia um plano-sequência no ataque de Perseu à Quimera. Embora insuficiente para salvar o longa, gera uma certa satisfação no espectador.

Como vários produtos com uma propaganda tentadora, Fúria 2, infelizmente, é desnecessário, sem sentido e descartável. Tal qual o jogo de facas perdido em algum armário, daqui um tempo muita gente nem vai lembrar que o comprou, ou pior, se lembrar, vai sentir vergonha.

 

Alexandre Luiz

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