Lisa e o Diabo: Um experimento pontual, agressivo, espirituoso e onírico de Mario Bava

Obra polêmica, Lisa e o Diabo é uma obra conceitual super e estranho, com Telly Savalas no elenco e direção do mestre Mario Bava

Lisa e o Diabo: Um experimento pontual, agressivo, espirituoso e onírico de Mario Bava

Lisa e o Diabo é um filme de Mario Bava que brinca com delírios, anseios estranhos e cores, muitas cores mesmo. Dito como um dos mais autorais do realizador, foi lançado em 1973 e é conhecido também como A Casa do Exorcismo, que é a tradução do nome de uma de uma de suas versões super editadas, em inglês.

Coprodução entre Itália, Espanha e Alemanha Ocidental, protagonizada pela alemã Elke Sommer, de Um Tiro no Escuro e Confidências de Hollywood, também é lembrado pela presença de Telly Savalas, no auge de sua fama.

A trama acompanha uma turista, feita por Sommer, que passa a noite em uma mansão espanhola abandonada, lugar esse que tem um aparente contato com domínios sobrenaturais, graças as pessoas que ali moram e a um mordomo excêntrico, vivido por Savalas.

Esse sujeito é feito pelo protagonista da série Kojak, que além de ser estranho e cheio de peculiaridades, guarda semelhanças com figuras diabólicas, vistas inclusive em antigas pinturas e afrescos.

Essa é uma obra onírica, um dos filmes de horror italiano que brinca com a estética de sonhos, cujo roteiro é tão repleto de viagens que em vários pontos não faz tanto sentido quanto deveria.

O longa tem direção de Bava, roteiro de Alfredo Leone (que assinava Alfred Leone) e do diretor, além dos não creditados Giorgio Maulini, Romano Migliorini, Roberto Natale e Francesca Rusishka.

Alfredo Leone é o produtor e José Gutiérrez Maesso é o coprodutor.

O Desejo de Bava

Mario Bava queria fazer esse filme há anos, muito antes da década de 1970 e após o enorme sucesso internacional de Barão Sanguinário em 1972, o produtor Alfredo Leone deu liberdade para o diretor realizar qualquer projeto que quisesse, com garantias de que poderia fazer o que quisesse, ou seja, teria grande liberdade.

Só dois anos após a morte do diretor que esse esse Lisa e o Diabo foi finalmente lançado em sua versão original completa fora da Itália.

Ironicamente, sua estreia foi uma exibição na televisão americana em 1983.

O modo de captação de som

O filme foi rodado sem som e os diálogos foram dublados após as filmagens principais.

Isso pode parecer algo diferenciado, mas em gialli, westerns spaghetti e obras italianas com atores estrangeiros em maioria isso era comum, ou se fazia assim ou cada pessoa falava seu idioma para ser dublado na pós-produção, de acordo com os estúdios e distribuidores locais.

Diz-se que, enquanto dirigia o elenco no set, Bava tocava o Concerto de Aranjuez, de Joaquín Rodrigo, para obter a emoção desejada dos atores.

Estreia

As primeiras exibições foram na França, em 9 de maio de 1973 no Cannes Film Market.

Em janeiro de 1974, passou na Avoriaz Fantastic Film Festival.

No final do ano, em novembro, passou na Espanha, em Barcelona e na Itália teve uma exibição limitada em 2 de abril de 1975.

Nos Estados Unidos, passou em dezembro de 1975, em Louisville, KY, com o nome House of Exorcism.

Nomenclatura

O título do filme durante a produção era Il diavolo e i morti, mas acabou sendo apenas Lisa e il diavolo.

Já a versão modificada ficou conhecida como La casa dell'esorcismo. ou House of Exorcism, em inglês.

Lisa e o Diabo: Um experimento pontual, agressivo, espirituoso e onírico de Mario Bava

Vale lembrar que ele ganhou esse título, além de cenas adicionais, graças ao sucesso de O Exorcista de William Friedkin.

Na Argentina é Lisa y el diablo, em inglês é chamado de Lisa and the Devil, como é na Austrália e Canadá. Nesse último também é chamado de La maison de l'exorcisme.

Locações

Gravado em sete semanas, entre setembro e novembro de 1972, houveram filmagens na Espanha, em Toledo, Castilla-La Mancha, no Barcelona Airport na Catalunha e em Madri também.

As cenas adicionais de A Casa do Exorcismo foram rodadas em abril de 1974

As filmagens foram interrompidas em certa ocasião pela polícia, que prendeu Espartaco Santoni, acusado na época de bigamia e fraude.

Estúdios

As companhias que fizeram a obra são a Leone International, além das não creditadas Euro America Produzioni Cinematografiche, Roxy Film e Tecisa.

Surpreendentemente, não houve sucesso em conseguir um distribuidor para o filme, mesmo após exibições bem-sucedidas em festivais.

Por fim, em uma tentativa desesperada de levá-lo aos cinemas, ele foi fortemente remontado com novas cenas envolvendo um padre e uma versão possuída da personagem-título.

Distribuíram a Procinor na Espanha, a Allied Artists Pictures na versão dublada dos Estados Unidos, tanto no cinema quanto na TV.

A Filmhansa lançou na Alemanha Ocidental, a já a Alpha Video Distributors lançou em VHS nos EUA, a Télé Monte Carlo lançou a obra nas tvs italianas

Quem Fez

Bava tem dezenas de filmes no currículo, em funções de direção, roteiro, cinematografia, etc.

Suas mais lembradas obras são Olhos Diabólicos, As Três Máscaras do Horror (ou Black Sabbath como é mais conhecido) Seis Mulheres Para o Assassino, O Planeta dos Vampiros, O Ciclo do Pavor, O Alerta Vermelho da Loucura e Mansão da Morte.

Lisa e o Diabo: Um experimento pontual, agressivo, espirituoso e onírico de Mario Bava

Leone era contumaz parceiro de Bava, foi produtor em Barão Sanguinário, Cães Raivosos e colaborou com esses.

Giorgio Maulini escreveu apenas esse, foi diretor assistente em Ou Tudo ou Nada, Fuoco! e Lucrezia giovane, atuou em Quatro Noites de Um Sonhador.

Romano Migliorini escreveu O Ciclo do Pavor, Um Dolar Para Matar, A Noite dos Demônios, Sob o Fogo das Pistolas e O Expresso Blindado da S.S. Nazista.

Roberto Natale escreveu Vivo Pela Tua Morte, Gatilhos da Vingança, Desesperadas de Amor e Pecados da Juventude.

Francesca Rusishka escreveu apenas esse a versão de 1975.

Narrativa

A trama inicia após uma abertura lúdica, que exibe em tela cartas sobre uma mesa vermelha, onde mostra personagens e os créditos, em uma mistura de crupiê e tarot.

Lisa está em uma excursão, junto de sua amiga e quase xará Elise, que era interpretada por Kathleen Leone, cujo único papel no cinema, foi esse. Ela era filha do produtor Alfredo Leone.

Aqui se destaca a música boa de Carlo Savina, cujo currículo incluída canções em A Doce Vida e O Poderoso Chefão.

Na parede à sua frente, aparece uma obra de arte que captura sua percepção.

Ela fixa o olhar em uma entidade humanoide, caucasiana e careca, parecida com Telly Savalas. De fato era uma pintura daquele personagem.

Lisa e o Diabo: Um experimento pontual, agressivo, espirituoso e onírico de Mario Bava

Logo a moça entraria na casa de um artesão, no último andar acharia não somente o artista, mas também um homem careca, como o da tal imagem.

Ao procurar uma praça, se impressiona com as pessoas e com a vazies dos corredores, depois encontra Leandro e o boneco realista, que é bem parecido com uma pessoa de verdade.

Claridade

Depois do estranho encontro com o personagem de Savalas, ela encontra um outro sujeito. Em volta de si há uma estranha neblina, que parecia tal qual um sonho, ou pesadelo.

O sujeito se aproxima, tenta ter com ela e chama de Elena. Ela o empurra e ele cai da escada e do seu bolso cai um relógio de bolso.

Noite

Depois, quando a noite cai, ela encontra um chofer, chamado George (Gabriele Tinti) acaba recebendo uma carona, depois de quase se acidentar, no banco de trás há um casal, um homem velho e uma moça, respectivamente Francis, de Eduardo Fajardo e Sophia Lehar de Sylva Koscina.

Ivan Rassimov (Mundo Canibal e Todas as Cores do Medo) deixou o papel de George pouco antes das filmagens. O veículo quebra e eles vão até uma casa, onde Leandro, o sujeito que Savalas interpreta, mora.

O destino parece querer reunir Lisa e o homem sem cabelos.

Falta de logica

George sobe para o interior do lugar, que parece um castelo. Então, aparece outro sujeito, parecido com ele, mas com roupas diferentes.

Esse é Max (Orano) que mora naquele lugar, junto de familiares. Os três entram na casa, mesmo que Lisa não queira.

São apresentados para a condessa, vivida por Alida Valli, que o trata como filho e o chama de Maximilian.

Lisa e o Diabo: Um experimento pontual, agressivo, espirituoso e onírico de Mario Bava

Esse personagem foi ofertado a Anthony Perkins o astro de Psicose, mas ele recusou. Outros atores foram cogitados, comoBurt Lancaster (A Um Passo da Eternidade) recebeu a oferta para um papel importante.

Sobre a Condessa

Os produtores esperavam conseguir Bette Davis para o papel da Condessa, mas conseguiram Valli, que vinha de Olhos sem Rosto e faria um papel importante em Suspiria.

O diretor era supersticioso e considerava a cor roxa um sinal de azar.

Quando Bava viu Alida Valli usando um vestido roxo como parte do figurino, achou que era um mau presságio e de fato, ocorreram complicações durante toda a produção, especialmente no pós-termino das gravações.

Lisa e o Diabo: Um experimento pontual, agressivo, espirituoso e onírico de Mario Bava

Desejo não concluído

Lisa não sabe o que fazer, não quer estar ali e não quer contato com Leandro.

Mesmo sem telefone, que era o objetivo inicial para bater na porta do castelo, eles acabam se hospedando, driblando as próprias suspeitas de que algo está errado.

O ambiente remete a um tempo antigo, mas os personagens parecem não se importar muito com isso, tanto que quando George reaparece está servindo sua senhora, de formas carnais.

Na casa, Lisa repara em relógios de pulsos, de cor dourada, tal qual o que o vitimado próximo de Lisa segurava.

Também se nota que o lugar é cercado por diversos outros marcadores de horas sob os móveis.

Ao ver alguém na penumbra, ela se assusta, corre para fora e é convencida por Max de que era só um boneco. De fato um apareceu no enquadro, mas não parecia ser naquele momento.

Refeição

No dia seguinte os visitantes vão ter com a Condessa, ela diz que havia um quinto elemento e que não era o chofer.

Depois Maximilian se irrita, acha que é perseguido dentro de casa, por algo ou alguém que costuma fazer isso.

Será medo real? Será outra ilusão?

Delírios

Lisa se encontra com Max e quando o faz, vê brinquedos em caixas de música rodando.

Não demora até que Sophia vá atrás de George, que supostamente, consertou o carro da família, então o encontra morto, e demonstra seu apreço pelo amante na frente do marido.

Entre conversas com Lehart, Leandro fuma com o senhor, depois arruma um pirulito. Savalas havia recentemente parado de fumar e usava pirulitos como alternativa.

Os pirulitos se tornariam uma marca registrada do personagem em sua série de televisão americana Kojak, que estreou naquele mesmo ano.

Lisa e o Diabo: Um experimento pontual, agressivo, espirituoso e onírico de Mario Bava

O onírico retorna

No meio da noite, outra pessoa, um homem de bigode aparece e chama Lisa de outro nome, no caso, Elena.

A moça então foge, fica a dúvida se essa é uma aparição de vida passada?

É parte da tristeza em forma de sonhos?

Lisa se perde em um cômodo, justo no que tinha alguns bonecos.

Enquanto isso, Sophia surta, quase consegue fugir com o marido, até assassinar ele com o carro, passa por cima do corpo, onde se destaca um grande e tosquíssimo boneco.

Estranhos

As pessoas que moram na mansão se demonstram como pessoas esquisitas, com hábitos cada vez mais peculiares.

A partir daqui falaremos sobre curvas decisivas do filme, portanto, haverá Spoilers.

Lisa e o Diabo: Um experimento pontual, agressivo, espirituoso e onírico de Mario Bava

Maximilian mata sem motivo aparente, comete crimes por conta de surtos comportamentais, que podem ou não ter influência espiritual.

Já Leandro conversa sozinho, na verdade, com os bonecos, os trata como pessoas vivas, há uma influência invisível, que leva essas pessoas aos atos mais malvados possíveis.

Lisa chega a ver a Condessa matar Sophie. A trama corre de maneira não linear, como quando Lisa começa a ser adulada por Max, que a leva para o quarto e mostra o cadáver em ossos de sua antiga amada, que segundo o mesmo, não significa mais nada para ele.

Mórbido sexo:

O sujeito age de maneira doentia, inebria a personagem-título, a desacorda, despe a menina, enquanto olha a caveira de uma pessoa morta.

O rapaz se excita, tenta ter com ela.

Lisa e o Diabo: Um experimento pontual, agressivo, espirituoso e onírico de Mario Bava

Não fica claro se ele consegue adentrar ela, em seu caso de assédio, mas ao tentar ter com ela, ouve risos, vindos da direção do cadáver,  afirma que não consegue com ela ali.

Também se revolta com os motivos funerários,  com o cheiro de morte.

Depois, discute com a mãe, que assume a culpa pelo que houve com Carlo (Espartaco Santoni) ele a mata, depois vê a mesma se aproximando dele, na verdade parece ser apenas o corpo dela, ou um boneco, manipulado por Leandro, que surpreende por estar ali, como se fosse quase um fantasma.

Ele cai da janela, vê a mesa com todos os mortos, cai e tem o peito atravessado.

A última das ilusões

Lisa, acorda do transe, vê quadros, quando finalmente levanta, nota o quarto sem paredes, com a natureza exposta.

Esse trecho é repleto de lisergia, ela vê mais bonecos, alguns bastante parecidos com Max.

Esses falam consigo, mas ela ignora e sai da casa, onde encontra crianças, que a chamam de fantasma, visto que a mansão, segundo elas, não tem ninguém morando ali há mais de 100 anos, segundo as pequenas.

Uma bola de vôlei corre o cenário, Leandro aparece, o artesão faz uma boneca, às pressas, com as medidas de Lisa, que enfim foge, toma um avião e vai embora daquele pesadelo.

Voa praticamente sozinha, apesar de ouvir o piloto, ao pedir o serviço de bordo e não ser atendida, nota que há algo estranho, que está sozinha.

Ao andar pelo interior e não há ninguém.

Lisa e o Diabo possui um final em aberto, bastante estranho e que ainda assim assusta bastante, especialmente graças a entrega dos seus atores, da atmosfera nonsense e do clima diferenciado e exploração dramática de muita classe. É uma obra para se apreciar para além de suas fragilidades textuais, sendo uma exploração mega criativa da parte de sonhos do cinema de horror italiano.

3 comments

  1. Stash Bookkeeping 19 abril, 2026 at 13:12 Responder

    Lisa and the Devil is such a strange but fascinating film because it plays with reality in a dream-like way where nothing feels fully stable or logical. The story itself feels more like a psychological experience than a traditional horror plot, especially with how identity, memory, and control keep shifting throughout the film.

    What stood out to me is how the idea of hidden systems running in the background of everything connects across different fields. In real-world work environments, whether it’s managing operations or handling structured reporting through online bookkeeping services or tools like QuickBooks bookkeeping services, consistency and control become essential when multiple layers are involved. Even roles like a Berkeley bookkeeper depend heavily on maintaining clarity when things get complex over time.
    https://stashbookkeeping.com/bookkeeping-services-in-san-jose-ca/

Deixe uma resposta