O filme policial e noir que narra o auge e a decadência de Al Capone.

Al Capone é um filme curioso em essência. Focado na figura do mafioso ítalo-americano que "brilhou" e atuou em Chicago na maior parte de sua carreira criminosa.
Essa é uma cinebiografia lançada em 1959, que reuni em si diversos elementos diferenciados, como uma estética noir, um drama forte que flerta com um tom teatral típico das peças shakespearianas, além de ter também um caráter condenatório para a figura criminosa de Capone.
Protagonizado por Rod Steiger, o filme é lembrado por Richard Wilson, escrito por Malvin Wald e Henry F. Greenberg, tem um elenco consideravelmente famoso, com dois vencedores de Oscar em suas fileiras, sendo esses: Steiger e Martin Balsam.
Produzido por Leonard Ackerman e John H. Burrows (que na época assinava John Burrows) essa é uma produção dos Estados Unidos, que fazia parte do esforço propagandístico contra figuras criminosas famosas.
Esse movimento teve um auge em décadas anteriores, especialmente nos anos 1930 e 40, com filmes como Alma no Lodo, Scarface: A Vergonha de uma Nação entre outros, mas obras como essa resgatavam essa pecha, mesmo que se beirasse os anos 60.
Processo
Durante a pós-produção houveram alguns reveses extra filme, como um processo judiciário movido contra o cineasta e produtores.
Uma membra da família do biografado, a irmã de Al Capone, moveu uma ação legal, cobrando US$ 10 milhões por invasão de privacidade e por não ter dado permissão para fazer este filme, que cita a família do criminoso
O processo foi arquivado em 1962, sem sucesso para a parente. Os motivos não foram divulgados em totalidade, mas supõe-se que tem a ver com o fato do filme mal citar o círculo familiar de Alphonse Gabriel "Al" Capone.
Estreia
Nos Estados Unidos o longa chegou em 25 de março de 1959, no Reino Unido saiu um dia antes, no dia 24 de maio de 1959. Na França em junho, na Suíça chegou em julho de 1959, no Locarno Film Festival.
O título original é igual ao nome brasileiro, Al Capone, mas os produtores usaram The Al Capone Story como nome de trabalho.
Houveram pequenas variações, como na Finlândia, onde chamada Lain ja oikeuden voitto, na Alemanha é Al Capone - Der größte Gangster aller Zeiten, na Lituânia é Al Kapone, na União Soviética era Аль Капоне.
Locações
As gravações ocorreram entre Illinois e Califórnia. Em Chicago, cidade que é a base da trama, foram rodadas apenas cenas de segunda unidade.
Já em Los Angeles gravaram cenas no Monogram/Allied Artists Studios em 1725 Fleming Street. Em Culver City, no Metro-Goldwyn-Mayer Studios - em 10202 W. Washington Blvd., serve de base para as ruas de Chicago.
Esse é um filme do estúdio Allied Artists Pictures, que distribuiu o filme nos EUA.
A Associated British-Pathé distribuiu no Reino Unido. A Arthur Rank Film lançou na Alemanha Ocidental e a United Artists lançou na França.
É comum também achar releases associando o filme a CBS e a Fox. Foram essas empresas nos Estados Unidos e Austrália, em VHS.
Quem fez
Richard Wilson dirigiu Tormenta no Paraíso, Convite a Um Pistoleiro e É Tudo Verdade. Foi produtor associado em A Dama de Shanghai e Macbeth: Reinado de Sangue.
Wald escreveu Cidade Nua, O Mundo é Culpado, além de episódios de Cachorro Lobo e Combate.
Greenberg trabalhou no roteiro do filme Alma nas Trevas, também nas séries Climax, Peter Gunn e The Detectives.
Ackerman produziu a série Os Corruptos e Confusões por Todos os Lados.
Burrows produziu Os Corruptos também, além de As Aventuras Eróticas de Robin Hood, Viajantes Selvagens, O Beijo da Tarântula. Foi produtor executivo em Stanley, o Répti Maligno e produtor associado em A Hora do Pesadelo.
Steiger tem muitos créditos de atuação, mas é mais lembrado por Sindicato de Ladrões, lançado cinco anos desse - onde estrelou junto a Martin Balsam e Nehemiah Persoff que também estão nesse Al Capone.
É lembrado por A Grande Chantagem, Oklahoma!, Seu Último Comando, A Trágica Farsa. Fez depois O Homem do Prego, No Calor da Noite e Quando Explode a Vingança.
Pouco menção a realidade em torno de Capone
Além de fazer pouca (ou nenhuma) menção a família do gângster, o filme praticamente não detalha os danos causados às operações de Capone pela unidade de agentes federais conhecida como Os Intocáveis.
A unidade, formada em 1930, concentrava-se nas operações de contrabando de Capone.
Essa força-tarefa foi tão marcante que virou a fonte de inspiração para o seriado Os Intocáveis, de 1959, que durou quatro temporadas e que era contemporânea a esse longa. Isso talvez explique o fato de suprimirem esse fato histórico.
Anos mais tarde, a série seria adaptada para o cinema, em Os Intocáveis, de Brian De Palma, onde Robert De Niro faz Al Capone e Kevin Costner faz Eliot Ness.
Os Intocáveis reais
Os agentes iniciaram batidas policiais em março de 1931, que custaram a Capone cerca de US$ 9 milhões em receita em seis meses.
Os esforços da unidade levaram Capone a ser indiciado por 5.000 violações da Lei Nacional de Proibição em junho de 1931, mas um juiz federal impediu que o caso fosse a julgamento, em vez disso, concentrou-se no caso de sonegação fiscal que fez condenar o bandido.

Acredita-se que o único encontro entre Capone e Eliot Ness - o líder dos Intocáveis ocorreu quando Ness era um dos agentes federais que levaram o mafioso à estação de trem para sua viagem à penitenciária federal de Atlanta, a fim de cumprir sua pena por sonegação fiscal.
Obras posteriores se deram ao luxo de apelar a licença poética, de armar mais embates entre eles, mas até onde se sabe, só houve esse "embate" mesmo.
Sem família
Como vários outros filmes em que Al Capone é retratado, este não faz nenhuma referência à esposa ou aos filhos de Capone.
Todas pessoas que rodeiam o personagem nesse âmbito são personagens fictícios, criados para o filme.
Narrativa
O filme começa com uma narração de James Gregory que também faz o sargento Schaeffer também e que valoriza a história "real" a ser cantada.
Nos créditos iniciais, se ouve uma fanfarra e um jazz conduzido e orquestrado por David Raksin.
Nesse ponto da trama, já aparece a versão de Al Capone de Steiger, um homem gordinho, rotundo, que veio de Nova York, oriundo da gangue cinco pontos no Brooklyn.
Ele se apresenta como alguém engraçadinho, que dá sustos nos amigos que encontra, em especial, em Johnny Torrio, personagem interpretado por Nehemiah Persoff, que é tal qual Capone, um mafioso real e célebre.
Persoff:
No mesmo ano em que este filme foi feito, Persoff interpretaria uma figura semelhante a Capone, no caso, Little Bonaparte, na comédia quente de Marylin Monroe, a clássica obra Quanto Mais Quente Melhor.

O ator também teve um papel recorrente na série de TV Os Intocáveis, interpretando, entre outros papéis, o contador de Capone, Jake Guzik, também conhecido como "Pulmão Seboso".
Jogos:
Enquanto pratica jogatinas, jogando dados sobre uma mesa de cassino, Capone conhece Jim Colosimo, outra figura famosa da cadeia criminal real de Chicago.
Aqui ele é um homem de negócios locais, interpretado por Joe De Santis, um bom membro da sociedade, que obviamente esconde suas reais intenções atrás de negócios de fachada.
A escolha de De Santis para esse papel parecia contra intuitiva, já que Jim Colosimo era um homem corpulento, de cabelos escuros, com um bigode volumoso.
O próprio Rod Steiger se parecia mais com ele do que De Santis.
O verniz social
A verdade é que, a priori, nenhum personagem se apresenta como um bandido, necessariamente.
Eles são mostrados como gente comum, com defeitos e qualidades, que gostam de ópera e arrumam confusão graças a questões de gênio, ou seja, a primeira vista, são gente comum, não vilões puros e simples.
Nesse segundo tomo já é manifestado o gênio forte do personagem título, já que ele expulsa um homem de um bar, sem que seja mostrado o motivo. O cara simplesmente persegue ele, entra numa briga e o coloca para fora de maneira autoritário.
Nesse ponto, Capone é observado pelo personagem de Martin Balsam, que já havia aparecido antes.

Lingle x Keely
Seu nome é Mac Keely, um personagem da comunicação de Chicago, que trabalha nos jornais.
Esse homem é baseado em uma pessoa real, Jake Lingle. Ele era em um repórter real do Chicago Tribune que publicava histórias relacionadas a gangues para o jornal.
Lingle tinha laços estreitos com outros gângsteres além de Capone, era notoriamente conhecido por seu caráter corrupto e por ter proximidade com o Departamento de Polícia de Chicago.
Era bem pago tanto por mafiosos quanto por um comissário de polícia e foi morto a tiros em 9 de junho de 1930, como retratado no filme, depois de "ficar muito famoso" e exigir muito por seus serviços.
Apesar da fala de Capone - foi ele quem disse que o repórter estava celebre - se dizia que foi um rival de Capone que pagou pelo assassinato dele.
Questões legais provavelmente impediram os produtores de usar o nome, mas poucos meses, a série de Os Intocáveis contou a história de Lingle, logo no terceiro episódio e usou seu nome verdadeiro.
Não demora até que o Policial Schaeffer (Gregory) apareça, para liberar o bandido.
A lei seca
Com a proibição nacional do comércio de bebidas, começou o contrabando, que envolvia Capone e Torrio.
Os dois reuniram os líderes da poderosa gangue da zona norte, que incluíam Dion Didi O'Banion (Robert Gist) o matador perneta com 25 assassinos suspeitos, George "Bugs" Moran, (Murvyn Vye) um homem rico metido a bacana, Earl Weiss (Lewis Charles) conhecido como o polaco cristão Hymie, o mais temido pistoleiro de Chicago.
Al tenta convencer Johnny a passar por cima do chefe Jim, mas sua postura não é altiva, ao contrário. Ele é quase digno de pena, se arrasta, é persuasivo, recebe um tapa, mas não se furta a tentar convencer seu parceiro.
Sua personalidade é um bocado caricatural, tanto que ele parece um sujeito bufão, mas ainda assim consegue o que quer.
Sua próxima cena é com dois homens, levando uma encomenda de bebida para Colosimo, sob o pretexto de matá-lo e o faz sem remorso.
Um Capone propositalmente fraco de espírito
Essa versão de Al Capone talvez tenha sido contaminada pelo esforço de tentar desconstruir o personagem como alguém digno de admiração.Por isso ele parece mais sujo e covarde do que era.
Isso é contradito em partes, já que Steiger atua tão bem que faz essa condição ser contradita, especialmente na segunda metade de o longa.
Há que defenda que ele foi uma das fontes de inspiração para alguns dos chefões famosos do cinema, como o Don Vito de Marlon Brando em O Poderoso Chefão.
Mesmo que ele carregue um código ético forte, Capone é um sujeito que varia bem entre estados de espíritos conflitantes.
Sua evolução de carreira é rápida e apressada, a ascensão meteórica que é mostrada aqui justifica suas falhas de caráter e ajuda a apresentar as camadas diferenciadas do seu comportamento enquanto bandido raso e chefe do crime.

A atuação de Rod é tão boa que ajuda a esconder as fragilidades do roteiro, que em menos de 20 minutos apresenta Al Capone, a Lei Seca, os assassinatos e a ascensão do homem ao posto de chefão. Tudo é tão rápido que parece ser automático.
Se exige muito da suspensão de descrença e ela só não falha por conta da dedicação do ator principal.
Eventos como os conluios políticos, a rivalidade com O'Banion, a eleição do prefeito de Cícero-Illinois e o avanço sobre os sindicatos tem seu peso diminuído pela velocidade com que são mostrados.
O par
Al passa tempo demais flertando com Maureen Flannery (Fay Spain) a ex-esposa de Pete, um sujeito que foi assassinado. Capone jura não ter sido ele quem cometeu a morta, até leva Eddie Donofrio, o suposto assassino, para confessar a ela, sendo coagido para assumir o erro.
Essa subtrama é inspirada em Ricardo III, de William Shakespeare.
Semelhanças com questões de Genovese e Costello
Depois de um atentado, Torrio desiste de Chicago. Essa trama conversa bem com o caso real da batalha campal entre Frank Costello e Vito Genoveses, mafiosos de Nova York, que de fato disputaram lugar de poder alguns anos depois, em NY.
Genovese teria tentado se aposentar, largando a criminalidade, mas sem sucesso, como foi visto no recente filme ficcional Alto Knights Máfia e Poder.
Torrio tenta, mas não consegue sair do círculo de crime, aparentemente prevendo a fala Michael Corleone em O Poderoso Chefão Parte III, sobre querer sair, sendo puxado para dentro novamente, contra a sua vontade.
Se Big Bill Thompson fosse eleito, Johnny ganharia muito dinheiro, mas ele não liga mais para isso e simplesmente desiste do seu posto e status.
Quis o destino que Johnny ficasse bem, cumpriu apenas um ano de prisão, depois saiu de Chicago sem alarde, deixando os espólios para o seu parceiro.
Curiosamente o destino de Frank Costello acabou sendo parecido com o dele, tendo sido condenado, ficando pouco tempo na prisão, morrendo de velhice, já liberto. Costello também seria uma forte inspiração para Don Vito Corleone, no romance de Mario Puzo.
Chicago e caos
Sob a gestão de Alphonse, a cidade vira um caos.
Cenas de homens elegantes, com terno e chapéu fedora, segurando armas de "lata de goiabada" só ocorrem depois que o personagem título se torna o número um.
Finalmente se observa a máquina de escrever de Chicago, a famosa arma Tommy Gun, a popular metralhadora Thompson sendo largamente usada.

Nervoso, após discutir com a esposa, Capone se sente sufocado, acha que está gastando demais, acredita que deveria ter mais liberdade e menos gastos.
Em reunião com Bob Buell (Joseph Sargent) corrige a pronúncia de seu nome, o que é um fato curioso e pouco utilizado. Diz ser chamado como se fala no Brasil, Capóne e não Capône.
Bob Buell (Joseph Sargent) fala em nome do promotor de justiça. Ele é meio turrão, come de boca aberta, mas reclama de falta de educação do seu funcionário, que gritava na casa. Também é passivo agressivo com Buell, o trata mal depois de sugerir suborno, tendo negado a sua compra.
Capone ainda tem derrotas políticas, já que Thompson não se reelege. Com isso a proteção em torno dos seus homens acaba e a polícia rende um grupo de mafiosos e dois deles, ainda armados, mata todos os outros.
É curioso é que nessa ação, usam tampões, para não ficarem surdos. Depois fica claro que essa foi uma ação de Capone. Esse se tornou o famoso caso da chacina de São Valentim, no famigerado dia dos namorados dos Estados Unidos.
Johnny Torrio costura a paz, mas os federais são mais rápidos. A parte do enquadro dos federais é bastante rápida e corrida, a participação do jornalista é boa, até por deixar explícito qual é o real caráter do bandido.
Al Capone é mostrado como alguém irascível, que até bate em Keely, por meramente mencionar a palavra traição.
Contestação da trairagem
O jornalista nega que tenha entregue seu "amigo" embora assuma estar ao lado de Moran nesse momento, já que Capone está acabado, até fala que ele não teria coragem de matar policiais ou jornalistas, mas ele acaba morto, numa grande e esperta cena, no metrô, cujo mandante da morte não fica claro, parecendo ser um circo armado para incriminar Capone.
Sobre pressão, encurralado, Al assume para Maureen que matou o seu ex-marido. Ela sente nojo, embora sempre soubesse disso. Surta, bate nele, diz que vai levar sua filha consigo, fato que talvez tenha inspirado a cena de Michael batendo em Kay Adams, em O Poderoso Chefão 2, assim que ela decide também levar os filhos de Corleone embora.
A parte dramática é bem rica.
O escândalo de Keely e a ascensão de Schaefer para inspetor apertam o cerco de Capone. Na cadeia, ele sofre emboscadas e apanha bastante, já que está sem proteção.
A partir daí, ele nunca mais foi o mesmo, foi solto após sete anos, dito aqui que saiu doente, com um mal incurável.
Na verdade, o criminoso teve sífilis avançada, que se transformou em neurossífilis. Devido ao código de produção em vigor na época, se preferiu esconder o nome da doença, que teve seu momento esse registrado em Capone de Josh Trank, que conta com uma atuação de Tom Hardy bastante dedicada, mesmo sendo essa uma obra execrável.
Al Capone morreu em 1947, com a mente comprometida.
O filme termina com a frase de efeito "devemos combates as sequelas da máfia por ele criado e que ainda hoje afetam todos nós."
Al Capone tropeça nas próprias pernas e erra demais ao narrar os fatos históricos, mas ainda assim acerta na caracterização de Rod Steiger e na violência que acometeu Chicago. É uma obra cheia de altos e baixos, mas consegue antecipar várias das questões modais do cinema policial e do exploitation de Máfia.
Confira mais obras sobre Al Capone
1932- Scarface: A Vergonha de Uma Nação
1959- Al Capone
2020- Capone
Podcast Alerta Vermelho: Os Intocáveis









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