Aviso: o texto abaixo contém algumas informações de cenas específicas do filme. Não são necessariamente spoilers, mas se você ainda não assistiu, leia por sua conta e risco.
No começo dos anos 2000, o produtor Jerry Bruckheimer, os roteiristas Terry Rossio e Ted Elliott e o diretor Gore Verbinski trouxeram de volta o clima de aventura de matinê dos filmes de piratas com o primeiro Piratas do Caribe, que fez sucesso o suficiente para se tornar uma bem sucedida franquia. Agora, o mesmo grupo tenta uma abordagem semelhante com o western. O Cavaleiro Solitário, que chega aos cinemas nacionais neste final de semana, repete, em sua estrutura, o que deu certo na cinessérie dos bucaneiros. Infelizmente, para a trama e os temas nela contidos, acaba repetindo alguns erros também.
O longa, que adapta os personagens criados na década de 30 por George W. Trendle, traz uma história de origem que, em um primeiro momento, parece ser simples e direta, mas é, na verdade, carregada de subtextos, alguns óbvios, outros nem tanto. O problema, contudo, está na condução da trama, que peca por nunca desenvolver completamente o que pretende, graças a recorrente necessidade de justificar os exagerados gastos com efeitos especiais (tal qual o penúltimo exemplar da franquia Piratas) que quase fizeram a Disney desistir de dar continuidade à produção ou ao uso do humor, ora bem-vindo, ora inadequado o suficiente para diminuir o impacto de sequências inteiras.
Para contar essa versão reimaginada do Cavaleiro Solitário, diretor e roteiristas optaram por um interessante recurso: começam a trama em 1933, no interior de um parque de diversões onde um garoto visita a tenda destinada ao Velho Oeste, apresentado com a reverência típica daquela época, que seria refletida também no cinema, pelos heroicos feitos dos protagonistas de "bang-bang". A imponência do búfalo e do urso, animais caçados quase ao limite da extinção, exposta ao lado do "nobre selvagem", (um envelhecido Johnny Depp em clara referência a O Pequeno Grande Homem), representado por Tonto, agora uma peça de museu. Assim, os realizadores usam como desculpa para os feitos impossíveis das cenas de ação o fato da história ser contada pelo índio para uma criança. Talvez tudo faça parte da mente perturbada de Tonto ou da fértil imaginação do menino.
Também no início, o espectador é apresentado a um dos temas recorrentes da obra: a troca. Barganha comum oriunda da colonização, em que espelhos, relógios ou outras quinquilharias eram usados como moeda para fazer os indígenas entregarem coisas muito mais valiosas, aqui encontra lugar para ser metáfora dessa situação, quando, na metade do filme, é contada a origem do parceiro do herói. Mais além, a troca também é símbolo de uma civilização que se deixa entregar pela corrupção, algo que será abordado no final, em uma cena emblemática para a jornada do protagonista. John Reid, vivido por Armie Hammer (esforçando-se para não desaparecer ao lado de Depp), passa por uma transformação de caráter e pensamento que, infelizmente, é tardia (levando em conta que representa o homem branco do futuro). Sua percepção de como deveria ser a sociedade é baseada na utopia de que leis podem funcionar sem a influência de grandes corporações ou políticos interessados em favorecimento próprio.
No papel, o roteiro de Rossio e Elliott talvez parecesse mais interessante do que o produto final. Mas, na prática, o resultado não é tão satisfatório quanto poderia. Embora se saia bem como diversão, sua tentativa de abordar, tanto conceitos críticos quanto momentos de aventura, acaba gerando certa estranheza, uma sensação de falta de foco que, apesar de não estragar completamente a experiência, atrapalha ambas as pretensões. São como dois filmes entrando em um conflito que nunca os permite chegar exatamente onde querem. Parte da culpa cai nas costas de Depp, que carrega sua interpretação com os exageros físicos de um Jack Sparrow. Assim, quando seu personagem deveria ser sério, e por mais que seus diálogos o sejam, acaba soando inadvertidamente engraçado. Mas não é apenas isso. O texto também não ajuda, quando inclui personagens que nada acrescentam à trama, a não ser minutos a mais no filme. A prostituta interpretada por Helena Bonham Carter, por exemplo, parece estar ali apenas para fazer jus à contratação da atriz, nada mais que uma coadjuvante de luxo. Cenas trágicas que perdem o impacto pela imediata inclusão de piadas também existem aos montes. A mais grave interfere até mesmo em uma das maiores discussões de O Cavaleiro Solitário: a relação entre o índio e o homem branco. Com diálogos fortes vindo dos nativos, como “nós já somos fantasmas”, tudo é posto a perder por conta de uma gag desnecessária envolvendo um cavalo equilibrado no galho de uma árvore.
Mesmo com problemas de percurso, é na leitura mais profunda que o longa se sobressai. O Cavaleiro Solitário não poupa comentários como o do soldado (Barry Pepper) que, ao perceber que fora manipulado o tempo todo, prefere continuar atuando do lado errado, simplesmente porque, caso contrário, teria de reconhecer o sistema falho no qual está inserido. Ou as ligações inescrupulosas entre o empresário vivido por Tom Wilkinson e o assassino interpretado por William Fichtner, que servem como metáfora de como o crime pode andar de mãos dadas com o progresso. Isso também é explorado pelo nome do trem que pretende atravessar as terras indígenas para unificar os Estados Unidos: Constitution. A Constituição, alicerce da formação de qualquer sociedade democrática, representada pela locomotiva cuja força atropelará uma minoria considerada selvagem.
Em meio a tropeços, Gore Verbinski aproveita para homenagear mais um pouco a filmografia de Sergio Leone. Depois de Rango, que fazia referências diretas ao cineasta italiano, O Cavaleiro Solitário continua na mesma linha, com quadros quase criados a partir de filmes como Era Uma Vez no Oeste ou a Trilogia do Dólar (o relógio de bolso é uma das maiores homenagens, inclusive) e personagens sujos, barbados e suados, como aqueles que Leone sempre mostrou em seus westerns spaghetti. A direção de fotografia de Bojan Bazelli merece destaque pelo uso acertado do formato widescreen, privilegiando as paisagens do deserto e as montanhas típicas do lugar, ao mesmo tempo em que mostra a pequenez dos personagens diante de tamanha extensão de terra. Direção de arte e figurino merecem igual destaque; a cidade inteiramente construída na locação, o cuidado com os cenários e objetos de cena e o perfeccionismo das texturas dos tecidos e detalhes em uniformes ou vestes indígenas saltam aos olhos. O mínimo que se espera de um longa com orçamento em torno de 250 milhões de dólares, elevado ao máximo da qualidade técnica disponível atualmente também é sentido nos efeitos visuais. Embora envolvidos nas sequências mais fantasiosas da fita, não há aquela sensação de artificialidade ainda sentida em produções de igual valor.
Quem também reverencia o faroeste italiano é Hans Zimmer. Com seus temas à lá Ennio Morricone, o compositor, obviamente, não abre mão da imortal Abertura de William Tell, já parte da própria mitologia do Cavaleiro Solitário, desde suas aventuras no rádio. Zimmer sabe exatamente quando o tema deve entrar e enquanto isso, exibe sua competência habitual no desenvolvimento de suas próprias composições.
Assim, apesar de jamais conseguir atingir plenamente seu objetivo de se tornar um audacioso filme de verão, com heróis que unem Don Quixote com Buster Keaton, O Cavaleiro Solitário surge como surpresa por ao menos tentar algo assim. Em meio a tanta diversão pela diversão, é gratificante saber que existam realizadores dispostos a algo mais. Mesmo que não sejam suficientemente competentes para que cumpram o prometido.









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