Crítica: "O Hobbit - Uma Jornada Inesperada" por Alexandre Luiz

The-Hobbit-PosterNuma tela de cinema, vivia um hobbit. Não se tratava de uma tela qualquer, com projeção normal e som sem muito a acrescentar. Esta era com projeção em 48fps e em 3D, exatamente como Peter Jackson gravou O Hobbit – Uma Jornada Inesperada. Ou seja, exatamente da forma como o cineasta gostaria que o público assistisse ao longa. E, neste formato, um hobbit nunca paraceu tão vivo, tão real. A escolha, que pode soar mercadológica, com a intenção de levar o público, mais acostumado ao home vídeo do que nunca, para uma experiência mais imersiva no cinema, foi extremamente significativa. E em um filme de fantasia, em que efeitos especiais são esperados para recriar um mundo imaginário, ela parece ainda mais relevante, uma vez que adiciona mais realismo à imagens que a audiência já espera que sejam “falsas”. Mas, como nem todos terão a oportunidade de conferir essa nova adaptação da obra de Tolkien desta forma, a grande pergunta é se o filme vale a pena, independente da inovação tecnológica que traz.

Os fãs já sabem disso, mas para o espectador mais desavisado é bom esclarecer: O Hobbit não é O Senhor dos Anéis. Isso deve ficar muito claro logo no início. Enquanto A Sociedade do Anel começa com a narração de Galadriel (Cate Blanchett) prevendo uma ameaça que pode destruir os povos da Terra-Média, Uma Jornada Inesperada inicia com Bilbo, em idade avançada, vivido por Ian Holm, escrevendo suas memórias como uma grande aventura. Os tons das duas histórias são completamente diferentes, mesmo com Jackson, em alguns momentos, deixando O Hobbit um pouco mais sombrio que sua contraparte literária.

A trama permanece a mesma do livro, obviamente. Bilbo Bolseiro (Martin Freeman) é levado por Gandalf (Ian McKellen) à “jornada inesperada” do título: a busca dos anões, liderados por Thorin (Richard Armitage), por seu lar, antes um dos maiores reinos da Terra-Média, que está agora dominado pelo dragão Smaug. O que Peter Jackson e suas roteiristas Philippa Boyens e Fran Walsh fazem é estender a história (que neste primeiro longa cobre os seis primeiros capítulos do livro) para que várias ligações sejam feitas com a Trilogia do Anel. Essa decisão ajuda a criar uma unidade melhor entre ambas as obras que nem mesmo Tolkien havia pensado, uma vez que escreveu O Hobbit sem pretensão de um dia contar a saga de Frodo, Aragorn e Cia. Agora, a ameaça do “inimigo” passa a ser mais evidente, com Gandalf preocupado com o destino da Terra-Média, fazendo assim, suas ações terem um maior propósito que simplesmente ajudar os anões a recuperarem seu lar outrora perdido.

O problema de se estender a história é sacrificar o ritmo. Infelizmente isso ocorre nos dois primeiros atos. São quase 40 minutos no Condado e mais uns quase 20 em Valfenda que poderiam ter sido condensados um pouco mais. Por outro lado, o terceiro ato é uma grande recompensa. Ágil, fazendo valer o gênero aventura, não deixa o espectador (e nem os personagens) descansar. E são nas cenas agitadas desse último momento que a opção pelo 3D se faz justificada (e principalmente os tão falados 48fps). Como o cineasta tenta criar uma espécie de “espelho” entre Uma Jornada Inesperada e Sociedade do Anel, existem várias semelhanças entre a estrutura de ambos, inclusive a inclusão de Azog (Manu Bennett) como vilão para dar ao espectador uma narrativa mais familiar, com um antagonista perigoso para gerar um clímax cheio de heroísmo e ação, bem parecido com o ataque dos Uruk-hai. E não é só isso. Existem cenas que lembram a vitória de Isildur contra Sauron, a partida do Condado, a chegada em Valfenda, a passagem por uma montanha com obstáculos elementais e a entrada em uma montanha para enfrentar uma horda de orcs. Estes são apenas alguns momentos que são compartilhados pelos dois filmes. Isso sem contar nas rimas visuais, como Gandalf batendo a cabeça no lustre da toca de Bilbo ou a primeira vez que o hobbit usa o Um Anel, com enquadramentos praticamente idênticos de quando acontece o mesmo com Frodo. Mas nem por isso pode-se dizer que Peter Jackson está refilmando a primeira trilogia. O diretor intenciona apenas criar uma unidade, mais ou menos como George Lucas tentou fazer com a nova trilogia de Star Wars. A diferença é que Jackson faz isso com muito mais competência.

Novamente cercado de um elenco que faz jus à escolha do departamento de casting, o cineasta se dedica a mostrar a qualidade de pelo menos três dos astros principais. McKellen, Armitage e Freeman se provam opções acertadas para seus papéis. O ator que interpreta Gandalf traz de volta todo o carisma do mago cinza. Armitage consegue transformar Thorin em um personagem ainda mais honrado, fazendo o espectador se sensibilizar por sua luta. E uma cena em especial foi modificada do livro justamente para criar essa ligação do público com o príncipe da Montanha Solitária. Na chegada à toca de Bilbo, os anões se comportam como “arruaceiros” num momento até bobo, em que os personagens quebram o limite do infantil e passam para o infantiloide. Mas, quando Thorin aparece, sua liderança é imediatamente reconhecida, fazendo com que todos passem a se comportar de forma diferente e mais condizente com a personalidade de cada um como descrita por Tolkien. Já Martin Freeman é um Bilbo engraçado, mantendo vários elementos da interpretação de Ian Holm (como a forma de andar), mas que também consegue ser trágico, na saudade de sua casa, ou corajoso e inteligente na cena que reproduz o capítulo Adivinhas no Escuro. Nesta, inclusive, há a esperada aparição de Gollum, novamente interpretado por Andy Serkis e criado com ainda mais competência pelos efeitos digitais da Weta. Nunca a criatura esteve tão real. Apenas os anões sofrem um pouco com o desenvolvimento, com vários ficando relegados apenas à alívio cômico e poucos tendo real destaque.

E, no que diz respeito aos efeitos visuais, O Hobbit é um primor. Além disso, novamente, a direção de arte recria a Terra-Média de forma convincente levando o espectador para aquele mundo de fantasia e aventuras. Nas categorias técnicas, na verdade, o longa mantém a mesma competência vista na Trilogia do Anel. Desta vez Peter Jackson exibe ainda mais segurança e, junto com a montagem de Jabez Olssen, cria belos momentos como a transição de tempo entre o velho e o jovem Bilbo ou na passagem entre algumas cenas em que o raccord é impecável. E, claro, para completar o pacote, Howard Shore novamente empresta suas melodias para cada momento do filme. Criando agora um novo tema, que compartilha do mesmo “DNA” da música de O Senhor dos Anéis, o compositor também utiliza vários acordes da trilha dos filmes originais.

Com um primeiro filme mais do que satisfatório, mas não livre de falhas, Peter Jackson pavimenta o caminho para os outros dois longas, deixando os fãs com a dúvida de o quanto da história ainda será estendida e o quanto dos trabalhos paralelos de Tolkien será utilizado, principalmente na parte três, que originalmente nem havia sido planejada. Uma aventura divertida e o retorno a um dos mundos mais adorados pelos fãs de cinema embalados por uma grande inovação tecnológica que deve trazer outros exemplares e evoluir ainda mais nos próximos anos, Uma Jornada Inesperada é tudo que os fãs da obra poderiam esperar.  Já os amantes do cinema tem motivos para reclamações, mas que ficam bem pequenos em relação aos para comemorações. Se “em um buraco no chão vivia um hobbit”, é na tela do cinema que o público acredita que isso é possível.

Alexandre Luiz

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6 comments

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    José Guilherme 16 dezembro, 2012 at 21:21 Responder

    Fiquei emocionando com essa crítica, tanto quanto fiquei com o filme… Você tirou todo um peso das minhas costas cara. Pois nos últimos dias tinha me achado um xiita, por não entender essa verdadeira perseguição quanto ao filme.
    Taxaram ele de pedante, sem senso de proporção épica, infantilóide, cheios de referências plásticas e pobres a Trilogia do Anel, um dos maiores equívocos já feito, Nárnia manda um abraço para seu primo mais próximo… e por aí vai. Eu nem sou muito de ligar para o que falam, mas achei coisas desse tipo um tanto quanto grosseiras, para com um filme que em não merecia pedradas com essa.

    Valeu mesmo por esse texto sensato e reconfortante Alex.

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    Eduardo Pinheiro 19 dezembro, 2012 at 06:09 Responder

    Melhor crítica nacional que li sobre este filme. Realmente feita por alhuém que captou a proposta do mesmo, e pq jamais deveria ser comparado com SdA, uma burrice que está presente em 99% das críticas negativas do filme.

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      Alexandre Luiz 19 dezembro, 2012 at 14:39 Responder

      Eduardo, fico imensamente grato com seu elogio. Nós sempre tentamos traçar os comentários mais coerentes possíveis, apontando o que o filme acerta e o que ele erra. Com O Hobbit não foi diferente. Que bom que gostou e aprovou a argumentação. Grande abraço!

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    Cristiano 20 dezembro, 2012 at 22:10 Responder

    Ótima análise, mas agora uma dúvida que pode pairar na mente de todos aqueles que assistiram ao filme: O filme se encerra de forma aparentemente ilógica, com o grupo sendo largados no alto de um cânion de onde não há como sair, e porque as águias não os levaram direto para Erebor? Eu sei o motivo porque li o livro, mas quem não leu deve ter ficado com essa interrogação, e já que o diretor optou por contar a história sem pressa poderia ter explicado essa cena ao público em geral, que não é fã. Fora isso o filme foi muito bom!

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    Erika Schmeiske 9 janeiro, 2013 at 14:24 Responder

    Excelente crítica! Concisa, objetiva e madura. O Hobbit, junto com Vingadores, é na opinião desta cinéfila, o filme do ano! Vale cada centavo do ingresso todas as vezes que se dispuserem a assistir.

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