Básico do cinema parte 2: Você sabe ler um filme?

Na primeira parte desta série de posts, um dos destaques do texto dizia que filmes foram feitos pra que sejam assistidos com a máxima atenção. Cada elemento na tela é importante, e quando não é, temos um dos fatores que caracterizam uma execução ruim.

Assistir a um filme sem prestar atenção é como deixar de ler um livro, simplesmente para passar pelas páginas vendo ilustrações. Cinema é um meio audiovisual que requer do espectador imersão, para que toda a mensagem seja transmitida da forma pretendida.

Ainda usando a analogia do livro, já que cinema é uma linguagem, pode-se dizer que o "idioma" da sétima arte é aquele que você aprende a partir de sua constante leitura, para decodificar a mensagem além das imagens.

Por isso é importante, pra quem é cinéfilo, assistir filmes de todos os gêneros e nacionalidades. Claro que existem inúmeras fontes teóricas para se adquirir conhecimento sobre cinema, mas muito se consegue aprender a partir da observação, que se for o método mais lento, ao menos é o mais "divertido".

Cada elemento do processo cinematográfico contribui para que o espectador compreenda o que está sendo passado. Um deles, que começa a ser definido na pré-produção, num trabalho conjunto do diretor com o diretor de fotografia e o artista de storyboards, é o de escolher os enquadramentos de cada cena, principalmente os de momentos-chave da trama, onde o diretor pretende chamar mais a atenção do público para determinado acontecimento.

Entender o básico dos enquadramentos já é meio caminho andado para começar a entender o que essa língua tão complexa, a do cinema, está querendo dizer.

Basicamente existem três enquadramentos que podem ser considerados os mais importantes, já que são os mais usados: o plano de conjunto, o plano americano, e o close. Esses três podem vir acompanhados de outros (e virão), mas normalmente são os mais comuns. Claro que para se chegar a uma experiência satisfatória é necessário o alinhamento de outros elementos como a movimentação da câmera, o som, a edição, as interpretações e a iluminação, por exemplo, mas vamos nos focar nos enquadramentos e como cada um pode ajudar o diretor a contar a história, sem o uso de uma palavra sequer.

Plano de conjunto: contextualiza o personagem no cenário, além de estar ligado à idéia que a cena quer passar. Um bom exemplo é este quadro do filme Tudo Pelo Poder.

Nele, podemos ver o personagem de Ryan Gosling, um inteligente assessor de imprensa do político interpretado por George Clooney. Nesta cena em particular, Gosling acaba de perceber que talvez não seja tão importante quanto acredita e, pra piorar, seu idealismo também pode não significar muito pras pessoas à sua volta. Reparem em como apenas um frame consegue dizer tudo isso pelos seguintes elementos:

A linguagem corporal do ator: ele está de ombros caídos, cabisbaixo;

A iluminação: apenas sua silhueta, representando um momento sombrio para o personagem;

A bandeira ao fundo: como Gosling está atrás do palco, a bandeira é mostrada ao contrário para o espectador, numa metáfora visual representando a inversão de valores pela qual o protagonista passa durante toda a trama;

A imensidão da bandeira em relação ao personagem: demonstra como ele é apenas uma pequena peça do complexo jogo político.

É importante dizer o quanto esse plano, ou enquadramento, é fundamental por destacar todos os ítens acima. Em um plano médio não conseguiríamos a dimensão do tamanho da bandeira, por exemplo. Em um close, perderíamos a linguagem corporal, tão importante em identificar o sentimento de Gosling naquele momento.

Plano Americano: o nome vem da popularidade deste enquadramento no cinema hollywoodiano dos anos 40/50. Em westerns por exemplo, em que, nos duelos, era fundamental mostrar a rapidez do herói ou do vilão em sacar seu revólver. Até hoje esse plano é comum na sétima arte e é o mais usado na TV também. Sua característica é de enquadrar o personagem do joelho para cima.

Vejamos o exemplo deste quadro mostrando o personagem de Harvey Keitel no filme Caminhos Perigosos, de Martin Scorsese.

Na trama, Keitel está tentando "subir" na vida de crimes, mas é constantemente prejudicado por seu senso de responsabilidade perante seu amigo interpretado por Robert De Niro, um apostador inconsequente. Nesta cena, ambos estão em um bar, cuja iluminação já determina sua natureza criminosa, jogando sinuca. Enquanto De Niro se diverte com uma história contada por outro gângster, Keitel não se sente confortável, principalmente porque o caso descrito envolve um padre e o protagonista é católico praticante. No quadro, além do plano americano, outro elemento é usado para demonstrar um certo ar de superioridade e reprovação por seu amigo estar rindo e se divertindo. É o movimento contra-plongé, identificado por esse ângulo de visão vindo de baixo para cima.

Encerrando os exemplos, vamos ao famoso close. Usado principalmente para destacar o rosto de algum personagem, com criatividade do diretor de fotografia pode ser muito mais útil para a narrativa.

Em Piscina Mortal, de 1975, Gordon Willis, responsável por essa função no filme, usou um close para definir a personalidade de uma das coadjuvantes da história ou, pelo menos contribuiu para que o espectador tivesse exatamente a mesma percepção de Olivia Devereaux que seus parentes demonstram. Uma mulher fechada em seu mundo, difícil de se relacionar e de intenções obscuras. Além de usar o close para aproximar a personagem do espectador, Willis posicionou sua câmera atrás de uma grade, criando esse efeito semelhante a um "véu" que cobre parcialmente o rosto da atriz Coral Browne, dando à cena uma expressão única que praticamente nenhum outro plano/enquadramento conseguiria.

Espero que com esse post, que já está ficando gigantesco, tenha conseguido mostrar um pouco de como nada é por acaso no cinema, e que cada detalhe, por menor que possa parecer, só funciona na tela porque foi planejado antes, com muito cuidado, por uma equipe que espera de quem assiste, a total atenção para que todo esse trabalho não tenha sido em vão. Como dito lá nos primeiros parágrafos, vários outros elementos existem para contribuir com a linguagem, mas isso é assunto pra uma próxima oportunidade. Até lá!

Alexandre Luiz

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