A Testemunha : O média metragem que adapta o texto original de R.F. Luchetti

A Testemunha : O média metragem que adapta o texto original de R.F. LuchettiA Testemunha é uma adaptação de um texto de Rubens Francisco Lucchetti, organizada por uma oficina pública de cinema. Esse é um média-metragem que regrava um episódio antigo, de um seriado que tinha apresentação de José Mojica Marins, o famoso cineasta e interprete do Zé do Caixão e que tenta ser fiel ao material base, obviamente que sem um grande orçamento por trás.

Nessa nessa reinvenção, Liz Marins, a filha do homem, foi chamada para apresentar a história, agindo assim como uma espécie de mestra de cerimônias, trajada como a famosa personagem Liz Vamp, que mesmo aparecendo brevemente, abrilhanta e traz riqueza a obra.

O filme é resultado do esforço da Oficina Avançada de Cinema Meu Primeiro Filme, realizada na cidade de Batatais. Foi um projeto que recebeu verba do Ministério da Cidadania e Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e foi contemplado pela Lei Aldir Blanc, realizado com recursos limitados, através de leis de incentivos, com equipe técnica e elenco batataense.

A história original foi publicada no extinto programa Além, Muito Além do Além, que foi sucesso entre os anos de 1967 e 68, na recém-inaugurada TV Bandeirantes. Ele tinha direção de Lucchetti, produção de Mojica Marins, que também apresentava.

A série tinha episódios de 30 minutos, passava as sextas-feiras, trazia histórias de suspense e horror, como essa. Foi um sucesso no canal, alcançou até o primeiro lugar no ibope, mas seus registros se perderam em um incêndio na Rede Bandeirantes de Televisão.

A Testemunha : O média metragem que adapta o texto original de R.F. Luchetti

O programa era exibido às sextas-feiras e trazia diferentes histórias de medo e fantasia. Foi um dos primeiros sucessos da emissora, alcançando muitas vezes o primeiro lugar em audiência. O programa teve apenas um ano de duração, por conta da mudança de Mojica e Lucchetti para a TV Tupy onde estrearam O Estranho Mundo de Zé do Caixão.

O roteiro desse episódio foi um dos que foi preservado. Vale lembrar que a primeira versão de A Praga também passou nesse mesmo programa. Certamente se pensou em fazer essa obra graças ao resgate recente que o editor e produtor Eugênio Puppo fez ao média-metragem rodado em 1980 por Mojica.

O filme tem direção de Rogério Takashi, cineasta de carreira ligada sempre a exploração do cinema B, tanto que foi cinematógrafo no curta R.F. Lucchetti, a Multiplicidade da Linguagem.

Nesse A Testemunha ele também monta o longa. Sua equipe é curta, conta com André Menari como diretor de fotografia, direção de arte de Kelly Gonçalves e composição musical de Arthur Zamboni.

Fora Liz Marins a figura mais notória na equipe de produção é José Adalto Cardoso, o produtor executivo, conhecido por ser diretor, redator e editor de alguns filmes adultos e de comédia. Foi diretor de ...E a Vaca Foi Para o Brejo e O Motorista do Fuscão Preto, montador em A Virgem e o Bem-Dotado, Paraíso da Sacanagem e Sedentas de Sexo.

Quando o projeto estava para sair do papel, se louvou bastante a carreira de R. F. Lucchetti. Durante a divulgação do média pela internet, se destacou o caráter autodidata do autor, que teve escolaridade até o ginásio apenas (atual ensino fundamental) além de ter uma carreira prolífica, a partir do texto A Única Testemunha em outubro de 1942.

Embora a ideia fosse promover o filme, é inegável que lembrar da carreira do escritor é algo sensacional, para além de motivos de publicidade. Em quase todos os anúncios se falava a respeito do fato de Lucchetti ter escrito mais de cem obras, além de relembrar tanto a parceria dele com José Mojica Marins e o apelido carinhoso do mesmo, como o pai da PulpFiction no Brasil.

A Testemunha : O média metragem que adapta o texto original de R.F. Luchetti

A narrativa inicia com Liz Vamp funcionando como uma apresentadora da história. Seu desempenho é impecável, ela parece dar a vida para repetir as frases que seu pai gravou, está bem diferente das aparições recentes que fez, como na comédia terrir recente A Noite das Vampiras. Sua performance é bastante digna e inspirada.

O texto dela é de fato o mais certeiro nesse script, a imitação que ela faz de Zé do Caixão não abusa de referências, não inclui trejeitos, é tão somente no jeito de falar e se impor, embora ela não imite nem o tom de voz e nem os maneirismos de ala. É uma boa e esperta homenagem, singela até, que copia o espírito e não a forma.

A sinopse é sobre a vida de Bernardes, um homem pacato, interiorano, que está em viagem. Interpretado por Ariel Saostt, ele dirige por um cenário no campo. Depois, para em um ponto da mata, onde vê um homem ferido mortalmente.

O sujeito é interpretado por Ricardo de Sousa, ele está sangrando pela barriga.

A maquiagem é convincente e esse início é bem promissor. Saostt e Sousa desempenham bem os seus papéis, há também um grande cuidado com o visual, com a cinematografia "louvando" os tons beges e marrons da mata, fazendo essas cores permanecerem valorizadas até a cfhega na estrada de terra por onde o carro passou.

A Testemunha : O média metragem que adapta o texto original de R.F. Luchetti
O homem parece estar prestes a morrer, sabe disso, tanto que sonega até a informação de seu nome.

Em seus últimos momentos, tenta avisar o prestativo estranho para ir embora, até ri da ironia da situação, diz que ele não deveria ter parado, devia seguir em frente.

Ele então falece, fazendo com que Bernardes fique confuso, procurando nele algum tipo de pista de quem ele era. Encontra então três documentos de identidade (RGs)f, acha suspeito e simplesmente sai, sem perceber que era vigiado por alguém.

Até esse ponto as atuações são razoáveis, comedidas e acertadas.

O mesmo não se pode dizer quando são mostrados outros personagens, como João, a testemunha vivida por Matheus Bueno, que vê Bernardes saindo com o carro. O sujeito imediatamente supõe que foi ele quem matou o outro sujeito e anota a placa dele com uma faca, na madeira de um galho.

Quando a polícia entra em cena, liderados pelo delegado interpretado por Fulvio Setti, já se estabelece que Bernardes é o culpado. As autoridades tomam a anotação da placa como uma prova correta e vão atrás do sujeito, sem maiores preparações ou suspeitas, já na intenção de resolver o caso, acusando o protagonista de ser um criminoso.

O policial é meio grosseirão e caricato, mas não seria o personagem mais estranho entre os apresentados. A esposa de Bernardes, Helena (Nina Oliveira) consegue ser ainda mais caricata que ele. Ela é uma personagem que não apresenta muita variação de comportamento, é tão somente uma pessoa que gosta. Todas as suas linhas de diálogos são nervosas, expositivas e nada naturais.

Vale dizer que os roteiros de Lucchetti geralmente eram assim, tinham uma ironia fina que se não fosse interpretada de maneira específica, de modo malemolente e solto, soavam bobas. Aqui o elenco se leva um bocado a sério, dessa forma lembram mais o desempenho de um grupo teatral iniciante, parecendo menos com a galhofeira típica do cinema pornochanchada que habitava dava o tom para os textos que Rubens Francisco fazia na época.

Não demora até que o delegado e o personagem entrem em confronto, não físico, obviamente, mas no campo moral e até (figurativamente) espiritual.

Na reunião da delegacia é relembrado a todo momento que ele está em uma situação complicada, sendo isso falado tantas vezes que seria possível fazer um drink game só com a repetição dessa sentença.

Há muitos detalhes que ajudam a incriminar o sujeito, como as impressões digitais dele na arma (somente quem viu a cena na totalidade tem noção de que ele só tocou nela quando o sujeito já havia morrido) e claro, a fala de João, que afirma, mentirosamente, que viu tudo.

Graças ao conto aumentado dele, a situação fica ruim para Bernardes, fora a estranha questão do morto guardar consigo três identidades consigo. Obviamente ele queria esconder quem de fato era.

Bernardes é trancafiado também graças as suas reações. Ele fica nervoso ao ser acusado de ser suspeito, mas não há motivo para imputar culpa alguém graças apenas a esquisitices.

Preso, ele segue inflexível, não muda uma palavra de seu depoimento, não tenta tornar sua versão mais plausível. É a encarnação do homem justo e firme, que se sustenta dessa forma e que aparentemente é inocente, vítima das circunstâncias, que sequer sabia da vida da vítima, tampouco sabia dos crimes do sujeito, que se chamava Gregorio e praticava terrorismo.

Bernardes é irredutível, que se assume como um homem distante das acusações que lhe são atribuídas, distante do absurdo de ser chamado de terrorista ou de assassino. Ele não conhecia o homem que morreu, tampouco sabia da filiação do mesmo. É bizarro como tentar se manter correto é o que condena a cabeça do sujeito.

A parte do tribunal não garante muita sorte ao personagem, mas o evento é interrompido na última etapa do processo, por uma pessoa cuja identidade é escondida até o último momento possível. Apesar de tentativa de surpresa, é bastante óbvio que aquele era Gregorio.

O grave problema do filme é o desempenho do elenco. Fora Sousa, quase ninguém acerta. O cúmulo disso é o advogado que Luciano Dami interpreta, ele parece ter alguma afeição por Helena, mas não justifica a aproximação física que tem com ela, nem mesmo o quase beijo que ocorre entre eles. A câmera parece fazer crer que eles têm um caso, mas isso jamais é desenvolvido.

A interferência de Gregório não é explicada. Se justifica unicamente para não permitir que algo terrível ocorresse com seu quase salvador. Ele subiu do mundo dos mortos, o juiz acatou a sugestão, tomou o papel que indicava onde estava o real culpado e soltou Bernardes. A terra onde ele estava enterrado estava levemente alterada e esse é o máximo de exposição do caso.

A parte final é narrada por Liz Vamp, fato que é confuso. A conclusão acaba sendo fiel demais ao material base, fato que diverge da máxima cinematográfica de "mostre, não fale". De qualquer forma essa foi a escolha artística de Takashi, afinal, ele escolheu homenagear o modo que o seriado fez. Isso tem seus prós e contras, mas deixar na mão da atriz mais tarimbada esse trecho faz todo sentido.

A Testemunha é mais um drama e suspense, sobre injustiça e sobre a condenação sem provas, com pitadas de eventos sobrenaturais. É uma denúncia sobre o sistema jurídico e sobre a punição à teimosia, uma boa apropriação do fantástico, com um pé na realidade tangente, que demonstra que a justiça pode ser errônea se não prestar atenção ao que realmente é uma prova.

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