Adaptação do romance de Colin Hoover, Verity traz elenco afiado, trama mirabolante e muita piada não intencional

O cinema de suspense vem passando por fases curiosas. Como a feitura de filmes de horror é algo barato, obras de tom mais ligados ao subgênero primeiramente citado acabam tendo elementos que ou relegam a trama ao formato Policial ou recaem no Horror. É em meio a esse cenário que Verity estreia, tentando ser apenas um suspense em formato thriller.
Dirigido por Michael Showalter, a obra se baseia no romance de Colleen Hoover e tem como trunfo um elenco premiado, em especial suas duas "protagonistas", que são Dakota Johnson, solidificada e respeitada após 50 Tons de Cinza, além de Anne Hathaway, que dispensa apresentações e faz o papel título.
A trama gira em torno de duas narradoras de histórias ficcionais, que tem suas vidas fortemente associadas a outro personagem importante, um homem atraente, sedutor e que completa a trinca de grandes atores famosos, uma vez que é feito por Josh Hartnett.
A questão que torna esse um filme curioso, vítima das circunstâncias e desperdiçado, de certa forma, é o timing.
Verity chega aos cinemas colado a outra adaptação literária que versa sobre temas de sucessão, ciúmes e troca de identidade - que é A Empregada de Paul Feig - além de ter em seu herói masculino o mesmo ator que protagonizou um filme de diversas reviravoltas, que é Armadilha.
Apesar das comparações, é fato que esse tem pouco a ver com ambos, já que é mais classudo e sisudo que A Empregada - além de ter seu material original lançado quatro anos antes do livro Housemaid de Freida McFadden - fora que o personagem que Hartnett faz aqui parece ser muito mais dúbio que o pai Cooper que M. Night Shyamalan concebeu.
Manuscrito x Carta
Da parte dos fãs do livro, há uma preocupação pregressa ao filme, que é sobre quais das versões do final da obra é a verdadeira - se é que há alguma.
No lançamento de Verity se buscou manter o máximo de segredo possível, mas essa se tornou uma tarefa complicada, visto que o livro é bastante famoso no âmbito internacional e no Brasil também.,
Ainda assim cabines de imprensa tiveram embargo e houve um pedido geral para não vazar informação da parte do público que foi até as sessões de pré-estreia.
Para além disso, é dado que entre os fãs e apreciadores da história, há dois sectos, os que acreditam no manuscrito, apresentado antes na trama, e na tal "carta", que aparece mais no final.
Os conteúdos de ambas são excludentes e é um verdadeiro desafio falar disso sem spoilers.
No entanto a versão de cinema claramente pende mais para um lado, que é o da carta. Em breve retornaremos com uma comparação de materiais entre o original e o derivado, para entender qual dos dois faz mais sentido, fato é que o filme escolhe o segundo caminho.
A gênese do projeto
A ideia de fazer uma adaptação cinematográfica do livro de Hoover começou através dos artistas Nick Antosca, roteirista do longa, de Alex Hedlund, futuro produtor do mesmo.
Aquela altura, a dupla contratou April Maguire e Will Honley para escrever o script antes de novembro de 2020. Depois de atrasos, o projeto chegou até a Amazon e aos MGM Studios em maio de 2024.
A essa altura, Hillary Seitz passou a trabalhar no roteiro. Depois de um rascunho adicional de Angela LaManna, Antosca assumiu a função e finalizou o texto sozinho em novembro de 2024. Nessa mesma época, Michael Showalter assinou contrato para dirigir o filme e Anne Hathaway concordou em liderar o elenco.
No mês seguinte, Josh Hartnett e Dakota Johnson foram escalados para estrelar o longa. A equipe criativa então contou com Antosca, Hathaway, Hedlund, Hoover, Jordana Mollick, Stacey Sher, Showalter e Johnson com produtores. São produtores executivos Lauren Levine e Kerry Orent.
Estreia, nomenclatura e detalhes de gravação
A obra é uma produção dos Estados Unidos e estreou primeiro no dia 30 de setembro de 2026 na Bélgica, Suíça, França e em outros países. No circuito nacional houveram pré-estreias nessa data também.
Na Argentina, Brasil, Portugal e Itália chegou dia primeiro de outubro, já no Reino Unido e Estados Unidos, estreou dia 2.
A obra se chama originalmente Verity, e é chamada assim na maior parte do mundo.
Há variações sutis, como na Argentina. onde é conhecida como Verity: La sombra del engaño, enquanto na Áustria é Verity - Dunkle Geheimnisse. O longa foi rodado até fevereiro até abril de 2025. Gravações foram em Nova York, com cenas em Manhattan e no Pershing Square.
Os estúdios por trás do longa foram a Amazon MGM Studios, a Eat the Cat, a Heartbones Entertainment, Semi-Formal Productions, Shiny Penny e Somewhere Pictures.
A Amazon MGM Studios distribuiu nos EUA, já a Big Picture 2 Films
lançou o mesmo em Portugal. No Brasil foi a Sony Pictures quem distribuiu.
Quem fez
Michael Showalter é mais lembrado por ser ator e por ter idealizado a comédia Mais Um Verão Americano, que ganhou uma sequência na Netflix, chamada Wet Hot American Summer: Dez Anos Depois.

Seus filmes mais recentes incluem Doris Redescobrindo o Amor, Um Crime Pra Dois, Alerta de Spoiler, Uma Ideia de Você - obra que trabalha com Hathaway - e Um Natal Surreal.
Conduziu episódios de séries, como Love, Grace e Frankie, No Escuro, O Psiquiatra ao Lado e Happy Face: Um Serial Killer.
Antosca é conhecido por escrever seriados de mistério, como O Ato, Into the Dark, Vingança sabor Cereja, Candy e Cabo do Medo.
Escreveu o script dos filmes A Casa dos Fundos e Espíritos Obscuros.
Hoover teve outras obras suas adaptadas, como É Assim que Acaba, Se Não Fosse Você e Uma Segunda Chance, que ela também escreveu o roteiro. Ela foi produtora executiva dos dois primeiros e produtora do último.
Hathaway esteve em obras de sucesso recente, como Odisseia e O Fim da Rua. Produziu Uma Canção, Viciados em Amor, Instinto Materno e Uma Ideia de Você.
Hedlund foi produtor executivo em Assim na Terra Como no Inferno, Chucky, Candy, Crime de Uma Dinastia: O Caso Murdaugh e produtor de River.
Jordana Mollick produziu Um Crime para Dois, Uma Ideia de Você e Um Natal Surreal.
Stacey Sher produziu Respect: A História de Aretha Franklin, O Cara da Piscina e Herege.
Narrativa
Falar de Verity sem citar detalhes da trama é algo difícil. Por isso, o texto tentará se ater a fatos que já são sabidos, como trama, sinopse e fatos presentes nos materiais de marketing.
Em breve retornaremos a obra, para uma análise narrativa mais profunda.
A trama segue Lowen Ashleigh, a personagem de Johnson. Ela é mostrada como alguém insegura, como uma escritora tímida, calada, que se diz dona de uma "cara de paisagem", que dentro da história geral pode significar uma propensão a sociopatia, embora ela possa ser apenas uma pessoa neurodivergente, talvez dentro do quadro do TEA (transtorno do espectro autista) imune portanto há algumas das manifestações emocionais mais comuns, ou talvez mais resistente a esse tipo de emoção.

Parecendo portanto menos propensa as sensações comuns a o que toda humanidade vive, ela também é mostrada como alguém deslocada da vida, anestesiada, possivelmente graças a uma perda recente.
Além disso, ela lida com o insucesso de vendas de seus livros.
A dubiedade da trama tem um bom início nela. Como não se mostra muito de seu passado após sua mãe morrer, não fica claro se ela sempre foi assim. Ela afirma que sempre foi tratada como uma outsider, tanto no sentido literal brasileiro de renegada, como também no outro sentido, como excluída.
Em meio a crise financeira, oriunda de dificuldades de manter suas contas em dia - visto que vende pouco e cuidava de sua mãe doente terminal - ela recebe do seu agente um convite curioso, de ir até um prédio chique, para receber uma proposta.
A proposta
A inadequação da moça aumenta quando ela vai até o prédio onde ocorrerá a discussão e a proposta de trabalho.
Distraída, com um fone de ouvido gigantesco que obviamente abafa o som ao redor e a aliena do resto do mundo, Lowen quase faz parte de um acidente de trânsito como vítima fatal, visto que o atropelamento ocorre pouco antes de atravessar uma das avenidas mais movimentadas da Nova York.
A menina do interior, agora órfã, simplesmente é banhada por sangue, depois que um ciclista é atravessado por um carro.

Não fica claro a natureza daquele incidente, nem se ele foi provocado ou se é fruto do acaso. Esse poderia ser um tempero a mais, mas não ocorre assim.
A questão é que nesse ponto, parece que aquele é um entregador de produto, ou alimento, ou seja é um trabalhador precarizado, alguém em situação tão preocupante financeiramente quanto ela.
Ou seja, a mensagem para o espectador é que esse universo proposto é cruel e sanguinário, com quem ousa transitar para ele.
Para alguém letárgica como Lowen, essa é questão ainda mais digna de travar corpo e mente.
Interferência
Eis que alguém a interpela, um sujeito belo, bem-vestido e muito atencioso. É o sujeito feito por Hartnett, que tenta ajudá-la, indicando um café ali perto, onde há um banheiro e a leva até lá, trancando a porta do toalette masculino, junto dela.
Não fica claro se é pelo choque, se é só falta de noção e/ou pudor ou se é por conta do sujeito ser atraente aos olhos, fato é que Lowen retira a própria blusa, suja de sangue, limpa seu rosto e muito friamente joga a peça de roupa no lixo.
O sujeito, antes até de dar seu nome, de modo muito cavalheiro, se vira, para dar a ela ao menos a sensação de não estar seminua diante dos seus olhos.
Evidentemente que isso não garante nada, mas é um gesto percebido pelo espectador e mais ainda pela escritora, observadora que é.
Ela sai do banheiro depois que o homem oferece a sua camisa, ficando assim com uma blusa que ficava por baixo e seu blazer. Os dois trocam olhares, citam o primeiro nome um ao outro, mas não passam desse flerte visual. Ela tem uma reunião e Jeremy também.
A Chegada
Quanto se encontra com seu amigo/parceiro/agente Corey (Ismael Cruz Cordova) ela descobre que não está atrasada, visto que ele mentiu para ela sobre o horário.
Aqui ela também percebe que não é senhora nem mesmo de seu tempo.
A tal reunião tem como cliente Crawford, o mesmo que a socorreu com uma camisa - devidamente trajado de outra forma, visto que passou no hotel antes de subir o prédio - e mira seguir as anotações de uma outra escritora, que é a esposa do sujeito.
Aparentemente, Verity passou por um acidente, está impedida de terminar sua principal série literária e precisa terminar essa sequência de
best-sellers, em um prazo X.
Recusa e aceite
Depois de dispensar Corey e a editora, Jeremy fala diretamente com Lowen. Nesse momento, consegue ser ainda mais sedutor.

Ele fala que a proposta é baixa, manda ela cobrar meio milhão de dólares, também detalha que ela terá que viver com eles e tomar nota das anotações antigas de Verity, para capitular corretamente a história que a outra mulher redigiria, emulando claro seu estilo.
Um dilema além do ghost writer
Ser uma escritora fantasma não é o ideal, mas parece ser algo melhor do que qualquer coisa que ela faz na atualidade. Seria garantia de dinheiro, garantia de ser lida e ter um sonho parcialmente avaliada pelo grande público.
Além disso, mesmo que ela jamais tenha lido Verity, ela fica sabendo que a escritora leu seus livros, mesmo não sendo veiculado de maneira ideal.
Após deliberar com seu agente, a moça decide ir na direção do chamado à aventura que a vida lhe proporcionou.
Em uma situação normal, certamente ela estaria preocupada, mas o ideal do roteiro mira nela uma personagem que tem na curiosidade o cerne de seu entendimento.
O lugar onde os Crawford vivem é grandioso, uma verdadeira mansão, à beira do lago.
Moram ali o marido, Verity, a cuidadora/governanta Anna (Irina Dvoronko) e o filho do casal, o jovem Crew, feito por Brady Wagner.
O dono da casa oferece a ela o quarto principal, onde ele e a esposa dormiam, já que ambos estão em outro andar, para facilitar a locomoção da escritora.
Também apresenta a ela o escritório, o lugar onde a "mágica" acontecia, onde eram redigidos os volumes da saga.
É ali que Lowen trabalha e lá em que ela se refugia, depois de notar que a sra. Crawford está inativa, em estado vegetativo.
Nesse lugar, a moça imagina Verity escrevendo no grande computador, elegante, sempre de vermelho, nas cores do ódio e da paixão.

Protelando e o manuscrito
Lowen vasculha os objetos de sua "musa inspiradora". Aparentemente ouvir os áudio livros da obra dela não foi suficiente.
Eis que ela encontra um pen drive, com apenas um arquivo ali, um texto que afirma ser uma autobiografia, que conta segredos sórdidos de Verity, seus piores pesadelos, anseios, vontades e descuidos.
É a partir daí que começa o mistério, uma vez que a personagem ao invés de gastar o tempo do prazo escrevendo, passa apenas lendo o texto, absorvida e capturada pelo enredo e pela boa escrita de Verity.
Curiosamente, momentos antes, ela havia dito que não lia os livros dela por receio de gostar, além de chamar os romances pejorativamente como publicações de aeroporto.
Um Novelão e a Obsessão
Verity não poupa detalhes, envolve a leitora com detalhes de seu antigo amor, com as artimanhas e trambiques do marido, além de lidar também com questões de maternidade não desejada.
Tomando cuidado para não revelar detalhes, é impossível não falar que Lowen não se sente apenas envolvida, mas também seduzida pela presença literária da dona da casa.
Os sustos e paranoias que ela sofre acrescentam mais duplicidade e dubiedade, mas não garantem em suma a surpresa dentro da virada de plot.
Atuações e o mistério
Johnson faz bem o papel de menina idealista, que não tem receio de pecar quando se vê convidada a tal.
Já Hathaway apresenta diversas camadas. Funciona como a mãe de caráter duvidoso, como femme fatale e criadora de mundos vis em que os malvados vencem e até como a dona de casa submissa ao marido, mesmo não sendo "do lar" e muito menos recatada.
A sucessão entre elas é bem estabelecida e faz lembrar as histórias de folhetins antigos, especialmente os latinos.
Lembra e muito tramas de novelas mexicanas, como A Usurpadora, não à toa fica a sensação de que esse e A Empregada são filmes primos, como eram os mockbusters, seja Piranha ou Orca A Baleia Assassina com Tubarão, ou Carnossauro com Jurassic Park.
No entanto falta um cuidado mínimo da parte da direção. Showalter não ousa, dirige de maneira quase televisiva de tão estática que é sua câmera.
Os cenários bonitos e os trajes caros ajudam a deixar a imagem com um quadro mais belo, funcionam junto ao desempenho de Johnson, Hartnett e Hathaway.
Esses fatores ajudam a formar atmosfera de mistério, mas ainda assim, não se causa tanto espanto quanto poderia, ainda mais em se tratando de uma trama tão cheia de reviravoltas.
Verity é um passatempo que contém bons mistérios, mas acaba padecendo graças a um humor involuntário que acompanha a condução escolhida por seu realizador. Vale claro pelas atuações e pelo esforço de remontar o universo de mistérios de Hoover, mas ainda assim não consegue se permitir ser mais que um suspense típico das madrugadas de sábado da Globo.







