Crítica: Creed - Nascido Para Lutar

Creed PosterTodo o background de Ryan Coogler, posto à prova em seu filme anterior Fruitvale Station: A Última Parada vem à tona logo no início de sua nova empreitada, iniciada em uma casa de reabilitação, ocupada basicamente por meninos negros. Adonis é um rapaz problemático, com sérias complicações morais e éticas, sua agressividade se manifestava no trato com os outros meninos. A introdução serve para mostrar o destino completamente inverso do que deveria ser sua rotina, ligada a realeza no esporte consegue estabelecer bem qual é o status quo de Creed – Nascido Para Lutar, uma história de superação do mesmo naipe de toda a saga Rocky, ainda que o escopo seja a realidade de um afro-americano.

Há um cuidado interessante por parte de Coogler em não repetir tanto os signos da franquia de Sly. Os primeiros momentos da atualidade se passam entre Tijuana e Los Angeles, e não na saudosa Filadélfia de Balboa, entre as tentativas de Adonis de se livrar do peso sobre sua cabeça, deixado pela presença de seu pai, e claro, a tentativa fracassada de ter uma vida normativa, fora dos ringues.

O emocional é muito presente no roteiro de Coogler e Aaron Covington, e faz eco com a sensação de não pertencimento a um mundo corporativo. Adonis tem muito do ideário de seu pai, e as semelhanças entre Michael B. Jordan e Carl Weathers são até surpreendentes se comparadas as fotos, mas é no interno, no porão da alma que se vê a aproximação do sujeito com outro pugilista. A decisão de parar na Filadélfia, a procura de um treinador soa forçada, de início, mas aos poucos se enquadra na proposta de mostrar uma trajetória de legado e inevitabilidade do destino.

Como foi em Rocky – Um Lutador, no capítulo quinto e em Rocky Balboa, há em Creed a mesma sensação de biografia não oficial de Sylvester Stallone, dada a transposição no roteiro da recusa do ator em reinterpretar seu papel mais conhecido. Apesar do notório pouco talento em expressar emoções, há um carinho e esmero especial do intérprete em executar mais uma vez este papel, pela primeira vez sem conduzir nem texto e nem direção. Estar “solto” ajuda Sly em seu desempenho, que funciona em sua entrega gradativa, tanto ao desenrolar da trama, quanto em seu papel como mentor.

As figuras de inspiração para a construção do velho sábio são diferenciadas. Personagem que antes estava sob os holofotes, Rocky se permite ser muito mais emocional do que eram Mickey e o Senhor Miyagi – apesar de seus métodos serem muito parecidos em relação a motivação e eventos pitorescos. Balboa se permite ainda visitar o túmulo de seus antigos companheiros, e existe até uma boa justificativa para ele retornar ao velho hábito de deixar uma cadeira à sua espera na árvore do cemitério. Novamente há um monstro em seu porão, querendo urrar e se manifestar, e cabe ao antigo campeão domá-lo. Sua natureza não é calável, tampouco as manifestações de sua alma de guerreiro.

Tudo ao redor de “Hollywood” Donnie exala uma tentativa de diferenciação da figura paterna que ele jamais conheceu. A técnica de direção Coogler em filmar a luta emula o Scorsese de Touro Indomável, ao usar a câmera como adversário do lutador dentro do ringue. Donnie tem um parentesco enorme com o Rocky original, no sentido de dar vazão a sua insegurança por meio de subterfúgios quase infantis. O temperamento intempestivo do rapaz combina com a imaturidade de uma estrela em ascensão e a construção da amizade paternal dele com Rocky é muito bem conduzida.

Através de subterfúgios criativos, há um retorno de Balboa ao protagonismo, já que na segunda metade, a batalha por sobrevivência é repartida em duas, variando entre a preparação de Adonis Creed, ostentando finalmente o nome de seu pai, e seu treinador, tendo que lidar com uma nova batalha pela vida, contrariando até as próprias expectativas de seu passado. Mesmo os momentos reprisados da franquia tem um novo significado, fugindo da tola repetição, apresentando as mesmas superações por ângulos diferentes, o que por si só já garante um ineditismo inesperado nesta sétima encarnação da história de Robert Rocky Balboa.

Contrariando qualquer perspectiva esportiva técnica, o ringue é um lugar onde as emoções prevalecem e a luta deste novo Creed finalmente ocorre, contra qualquer especulação de ser algo repentino e de não propagação de um legado. O último round de Donnie contra o atual campeão da categoria não deve em nada as duas – ou três – batalhas de Rocky e Apollo, inclusive por causa da troca de declarações familiares entre as duas gerações de boxistas. Balboa e Creed seguem vivos, no imaginário do cinema, na mente de seus fãs e prosseguem rumo a uma nova geração de adoradores, pontuadas por uma dedicação talentosa de um artista comumente subestimado.

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