Crítica: Operação Red Sparrow

A guerra fria acabou com a queda do muro de Berlim em 1989, mas é inegável que seu contexto seguiu influenciando diversas gerações de autores mundo afora décadas depois. Um exemplo disso está nesse filme que marca o reencontro de Jennifer Lawrence com seu diretor na franquia Jogos Vorazes, Francis Lawrence. Baseado num livro homônimo do ex-agente da CIA, Jason Matthews, Operação Red Sparrow conta a história de Dominika Egorova (Lawrence), uma bela bailarina russa do Bolshoi que acaba recrutada por seu tio para integrar o serviço de segurança do país a fim de usar a sedução como arma para subjugar o inimigo.

Começando bem com um primeiro ato interessante no que tange à introdução da trama, os dilemas e motivações de seus personagens principais (Dominika, por exemplo, encontra-se num beco sem saída quando aceita o “convite” do tio e descobre, das piores maneiras possíveis, a natureza cruel do treinamento a que se submete), o filme, contudo, se perde nos dois atos subsequentes por conta de um desenvolvimento trôpego da história que acaba se tornando redundante e refém de reviravoltas que se atropelam para culminar numa “surpresa” final que tem pouco peso e sentido em retrospecto.

Se expondo fisicamente como nunca, é verdade, Jennifer Lawrence tem algumas cenas excelentes como aquela em que, num ato de empoderamento consciente, anula e domina, sem jamais usar a força, um algoz que a atacara violentamente durante o treinamento (e você saberá exatamente de que cena falo quando assistir ao filme). Assim, é uma pena que o roteiro de Justin Haythe (Foi Apenas um Sonho) explore tão mal as nuances que a personagem sugere ter quando o filme começa, preferindo apenas lançá-la num turbilhão de ações e reações que se contradizem o tempo todo (numa hora Dominika surge ingênua só para se tornar a mestre da manipulação no momento seguinte, por exemplo, e em outro se mostra totalmente capaz de encarar uma disputa física bastante sangrenta sem que jamais tivesse dado mostras disso até então).

Ainda que conte com nomes de peso em papéis coadjuvantes como os dos veteranos Jeremy Irons, Ciarán Hinds e Charlotte Rampling (que rouba a cena quando aparece, mas acaba praticamente ignorada depois), Operação Red Sparrow, no entanto, jamais se preocupa em dedicar a seus personagens qualquer desenvolvimento mais elaborado tornando-os figuras apenas acessórias para a trama. E assim, ainda que parta de uma premissa curiosa e promissora, o filme jamais faz jus a ela falhando tanto como drama - e aqui a relação ambígua que o roteiro tenta estabelecer entre a personagem de Lawrence e o agente americano sem graça feito por Joel Edgerton surge como maior expoente -, quanto como o thriller de espionagem moderno que pretende ser.

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