Crítica: Prometheus

"Grandes coisas tem inícios pequenos". A frase dita por David (o androide interpretado por Michael Fassbender) em Prometheus é uma espécie de comentário sobre a ligação do filme com Alien - O Oitavo Passageiro. O longa de 1979, concebido como um filme B, deu origem a uma franquia lucrativa cujas entradas beiram o genial (os dois primeiros longas) e o medíocre (os dois últimos). Por outro lado, a citação deveria servir de lição à Ridley Scott, diretor do original e que depois de 30 anos longe da ficção científica (seu último projeto no gênero foi Blade Runner), volta ao universo que ajudou a criar com a pretensão de dar início a uma nova série. O problema é que, com seu nome envolvido e com a responsabilidade de agradar aos fãs de sci-fi e de Alien, Scott comete o erro de tentar começar grande demais.

Não se engane. Prometheus é um bom filme. Há motivos de sobra para, inclusive, classificá-lo como uma das melhores produções de ficção científica dos últimos 10 anos, pelo menos. Um deles, o mais pessimista, é porque o gênero não está em uma de suas fases mais criativas. E no que se refere à criatividade, Ridley Scott estava bem fértil na concepção de alguns elementos de seu novo filme. À começar pela técnica. Das primeiras tomadas, uma seleção de belíssimas imagens gravadas num terreno, à primeira vista, extraterrestre (rodadas na Islândia), passando pelas cenas externas da nave que dá nome à produção e pelos corredores da estrutura alienígena encontrada pelos pesquisadores na remota lua LV-223, tudo é impecável. Houve um cuidado enorme por parte da direção de fotografia (com o uso de paletas pálidas na representação de um planeta sem vida na cena inicial) e do departamento de arte (que teve a consultoria de H.R. Giger, designer do primeiro Alien) pra fazer de Prometheus uma experiência visual imersiva como Scott há muito, não criava. O próprio interior da embarcação, com seu design prático e limpo, indicando desde o primeiro momento a diferença entre esta, uma nave com fins científicos, e a Nostromo da produção de 1979, um veículo espacial destinado à mineração, denota como várias horas foram usadas para elaborar ambientes com tanta personalidade.

A trama mostra uma equipe de cientistas que parte para um mundo distante em busca da origem da Humanidade, graças às evidências de que uma raça alienígena, chamada de Engenheiros pela Dra. Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), pode ter iniciado a vida na Terra.

Isso leva a outra razão pra Prometheus estar acima da média: o trabalho de seu elenco principal. Além de Rapace, Charlize Theron no papel da fria e misteriosa Meredith Vickers, a representante da Corporação Weyland, que financia a missão de exploração e o já citado Fassbender vivendo David, oferecem o peso dramático que a trama deveria pedir, mas que o roteiro falha em determinados momentos em instigar. Tomando como exemplo a Dra. Shaw, uma personagem interessante por sua dualidade: ao mesmo tempo que fez de sua missão descobrir a origem da vida na Terra, não esconde suas convicções religiosas. Apenas essa ideia já seria suficiente para que inúmeras questões filosóficas fossem levantadas, mas o roteiro de Damon Lindelof nunca sai do básico e do óbvio. Num diálogo com seu colega e amante, o Dr. Holloway (Logan Marshall-Green), a protagonista é questionada se, com a descoberta da humanidade estar ligada a outra raça, não viria a confirmação da não-existência de Deus. Sua resposta perante tal dúvida, não poderia ser menos científica: "Não. Afinal, quem os criou?". Ora, se sua premissa é essa, porque se dar ao luxo de viajar tantos quilômetros pela galáxia em busca de respostas? Mais uma vez, não é por falta de esforço de Rapace que a personagem se torna perdida e sim por uma visão limitada do roteiro a respeito de conceitos complexos. Irônicamente, a pessoa que representa o ceticismo não é da equipe de ciências, mas uma executiva. Vickers, como interpretada por Theron está ali pra garantir que o uso das tecnologias da Weyland não seja em vão. E, ao mesmo tempo que deixa claras, as intenções da personagem, a atriz é muito competente em conferir emoções mais sutis, principalmente com a tensão sexual entre o piloto Janek (Idris Elba). A interação entre ambos, por sinal, rende uma das cenas mais engraçadas do longa, um dos acertos do roteiro, já que faz o espectador relaxar para deixá-lo devidamente nervoso nas cenas seguintes que envolvem alguns dos momentos mais dignos da tradição de sustos da franquia Alien.

E, claro, há o androide David. Fassbender definitivamente domina as cenas em que está presente e entrega os diálogos mais interessantes. Interpretando o robô como uma espécie de Pinnochio adulto, como deixa transparecer o sub-texto de sua conversa com Holloway, o ator ainda emula Peter O’Toole em Lawrence da Arábia ao mesmo tempo que suas atitudes duvidosas fazem o espectador questionar a todo momento quais são suas reais intenções na expedição. Com isso Lindelof e seu parceiro Jon Spaihts, criam uma pontual referência a Prometeu, o personagem mitológico que rouba o fogo dos Deuses para dar de presente aos mortais. David, tripulante da nave que leva o nome de tal figura, em determinado momento "rouba" material alienígena dos Engenheiros. Seu ato leva a uma série de momentos dasafortunados que poderiam ser encarados como "castigo" por lidar com coisas além da compreensão humana. Mas, como fazem com diversas outras boas ideias, os autores preferem destacar a ação do robô como gatilho para liberar várias conveniências para a história. Sua interação com o namorado da Dra. Shaw culmina na gravidez da personagem, um elemento que deveria adicionar mais questionamentos, desta vez sobre criação (basicamente o tema principal do filme) e maternidade, mas que apenas leva a uma cena que, mesmo angustiante (pontos pra Scott que dirige a sequência com muita competência), serve muito mais como espelho para o momento mais memorável do longa de 79. Ou seja, ao invés de se tornar coerente com Alien de forma temática (a maternidade é recorrente na série), prefere fazê-lo gratuitamente, arriscando inclusive toda a credibilidade do filme, uma vez que Shaw, mesmo após uma complexa intervenção cirúrgica, demonstra uma capacidade física incomum nas cenas seguintes.

A gravidez é, também, o estopim para mais conveniências, agora no clímax, partindo para a solução mais fácil no derradeiro confronto com o Engenheiro sobrevivente. Como uma coisa leva a outra, essa sequência de problemas culmina na última cena de Prometheus, um desnecessário "agrado" aos fãs, como se fosse obrigação entregar apenas aquilo que esperavam ver.

O desfecho, inclusive, é um dos pontos mais fracos da fita de Scott, que parece querer compensar o tom lento e contemplativo dos primeiros atos com a convergência de vários sub-plots, de maneira apressada, no último. Além disso, adiciona outro conflito, mais um que poderia levar a horas de reflexão, cuja natureza está mais para Blade Runner do que pra Alien (já que envolve o encontro com o criador para motivos egoístas), mas graças à forma abrupta com que é finalizado, não chega nem perto de transmitir ao espectador o mesmo peso do filme oitentista.

E, se por um lado, o trio de protagonistas se destaca, aos coadjuvantes não sobra a mesma sorte. Alguns até conseguem pelo menos justificar suas presenças, como a dupla formada por Sean Harris e Rafe Spall, mas outros passam a impressão de que estão ali apenas para "fazer volume" na nave. Sem exagero, em determinado momento, é impossível não se perguntar "de onde vieram esses tripulantes?". Aliás, um comentário sobre o biólogo vivido por Spall. Um dos grandes erros de filmes de sci-fi é tratar cientistas como estereótipos e aqui não é diferente. Afinal, como explicar a atitude imbecil de, no primeiro contato com uma criatura alienígena que se comporta como uma cobra naja, tratá-la como se fosse um gatinho inofensivo? Talvez os roteiristas tenham assistido muitos programas de TV cujo apresentador lida com animais selvagens como bichos de estimação, mas na vida real a atitude desses profissionais é bem diferente.

Talvez possa parecer que para cada boa ideia de Prometheus exista uma ruim, o que não é o caso. Mas, se tem uma coisa de que Scott e sua dupla de roteiristas são culpados é não se aprofundar no que o filme tinha a oferecer de melhor. Muitos devem se contentar com alguns sustos, e nessa categoria o longa realmente não faz feio, mas fica claro desde o primeiro momento que seus idealizadores tinham uma pretensão maior. No entanto, se "coisas grandes tem inícios pequenos" por que se deixar levar pela megalomania, única explicação para a tentativa de se explorar tantos temas e desenvolvê-los tão pouco? No lugar de contar uma história fechada, Scott prefere ainda começar a contá-la, indo um passo além com sua pretensão: criar uma nova série, como se apenas um filme não fosse suficiente para conter toda a complexidade de sua trama. Ou, no caso de Prometheus, toda a complexidade que ele acha existir ali.

Alexandre Luiz

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3 comments

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    Ju Maffia 11 junho, 2012 at 11:21 Responder

    Alex concordo em muitos pontos, especialmente quanto aos temas mal explorados. Mas ao contrário de você, eu achei a Noomi Rapace muito fraca (talvez por ter, querendo ou não, a comparado com Sigourney Weaver). A atriz não me convenceu muito, em alguns momentos ela não passava a emoção necessária.

    Gostei do filme mas fico na esperança de que Scott não deixe de responder nossas dúvidas em uma possível sequência.

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    Euzim 15 junho, 2012 at 13:46 Responder

    No 8º passageiro o allien nasce da infecção de um tripulante ao abrir um ovo dentro da nave alienigena onde estao milhares de ovos, nave esta que estava em pe parecendo um chifre de touro, dai sao duas coisas completamente sem explicações do pq q o filme de agora o fez de forma diferente.
    Se a logica permite, o allien que nasceu entrou na nave derrubada, a levantou e colocou os ovos no lugar dos recipientes de onde ele veio… o sem pé nem kbeça.
    O que tranpareceu q na tentativa de criaçao de alguma forma de vida aqueles recipientes possuiam kda um mutações completamente diferente que poderiam gerar qualquer tipo de criatura.

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      Alexandre Luiz 15 junho, 2012 at 14:46 Responder

      Pois é, mas Alien – O Oitavo Passageiro se passa em LV-426. Prometheus se passa em LV-223. Sendo assim, aquele "space jockey" do original não está no novo filme. São coisas diferentes. Ridley Scott estava certo quanto a dizer que não é exatamente uma prequel do antigo. Quem sabe no segundo filme finalmente saberemos quais eram os planos daquele Space Jockey fossilizado… ou não!

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