Crítica: Um Estranho no Lago

21045525_20130930233604479.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxCom linguagem peculiar, suspense deixa o espectador curioso pela sua conclusão.

O suspense policial Um Estranho no Lago, do cineasta francês Alain Guiraudie, tem uma proposta, digamos, atípica, dentro do gênero que transita. Não é só o roteiro, também assinado por Guiraudie, que parece caminhar por outra direção. Sua estética fílmica fulgente, dramaticidade latente e algumas passagens intimistas, nos fazem crer que estamos diante de algo que abordará, pura e simplesmente, o cotidiano de uma classe marginalizada pela sociedade, que teima em ser dissimulada. O que nos leva a provável resposta dos muitos comentários e sua seleção para a mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes 2013.

O longa nos insere em meio a uma reserva de nudismo, que possui um lago, habitado apenas por homens homossexuais. Nesta espécie de recanto particular, os visitantes podem andar nus, sem nenhum tipo de recriminação e opressão, com uma vida simples e tranquila. Obviamente, eles usam o bosque, ao lado, para ter relações íntimas. Criando quase que uma comunidade sexual. É bom frisar que Guiraudie faz questão de filmar com planos mais abertos, no intuito de mostrar a nudez gratuita, para sentirmos a mesma sensação dos sujeitos em tela.

Um dos frequentadores mais assíduos do local é o popular Franck (Pierre Deladonchamps), um rapaz boa pinta que parece nunca ter problemas para encontrar parceiros, não fosse seu pensamento fixo pelo misterioso Michel (Christophe Paou). Sujeito por quem ele se apaixonou perdidamente, numa de suas caminhadas pelo bosque. Por outro lado, Franck conhece o solitário, mas adorável Henri (Patrick d'Assumção), que, ouvindo mais do que falando, parece ter respostas sábias sobre a vida. Sendo de fácil identificação para com o espectador, pelo seu frágil estado emocional, passado através dos olhares de d'Assumção, que realiza um trabalho deveras competente.

De momentos ardentes com Michel, e conversas meditativas com Henri, sobre amizade e relacionamentos, Franck vive uma rotina, de certo modo, banal e ditosa. E parece, enfim, ter achado a felicidade. No entanto, assim como o espectador, e seu amigo confidente, Franck percebe que há algo de errado com o companheiro. E que, mesmo com vontade aparente de estarem juntos, é visível a lacuna entre ambos. Isso é simbolizado quando Henri alerta que relações vazias podem machucar um dos lados, e assim perceberá que a essência do prazer vai além da própria carne.

De repente, um crime acontece no lago, e a desconfiança sobre Michel aumenta ainda mais. Principalmente depois da chegada do inspetor Damroder (Jérôme Chappatte), que com perguntas incômodas, pressiona a todos os visitantes. Em especial o próprio Franck, que visivelmente parece esconder algo. Tornando a relação do casal, cítrica. A fita, então, se transforma num drama policial, distanciando-se cada vez mais da ideia posta no primeiro ato.

Enchendo-o de planos-detalhe e engendrando longas tomadas pelo lago, Alain Guiraudie torna o filme inquieto, em relação à visão do espectador. Que procura a todo o momento algo acontecendo em tela, causando certa angústia. Também vemos que, ao passar do tempo, a fotografia intensa e brilhante de Claire Mathon, vai se tornando cada vez mais densa e tenebrosa, assim como a aura dos personagens. Que, em dado momento, parecem desaparecer, pela negra atmosfera que ali habita.

Contudo, a conclusão da trama revela certa carência no roteiro, que se sustenta através de sua estrutura narrativa peculiar. Mesmo com algumas passagens mais sérias e reflexivas, explanadas de forma sutil, não poderíamos dizer que o texto de Guiraudie, desperta grande interesse ou vai fazer você matutar pensamentos após a sessão. Tem lá seus momentos de tensão e consegue manter a plateia ligada – que por sua vez pode se sentir afrontada, devido a uma conclusão que eu julgaria súbita, mas fundamental para com a fita. De certo modo, o diretor salva seu trabalho, ao encerrá-lo num momento crucial para a definição da fraca empreitada. Deste modo, o espectador pode decidir o futuro do conto, abrindo margem para mais discussões.

Dia 18 de outubro de 2013.

Texto originalmente publicado na cobertura do VI Janela Internacional de Cinema do Recife.

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