Fechando um ciclo: Últimos episódios de Breaking Bad e suas ligações com o começo da série

O post a seguir contém spoilers da quinta temporada de Breaking Bad. Se, por algum motivo, você ainda não viu os novos episódios da série, pare a leitura agora ou continue por sua conta e risco.

Estamos, a cada semana, mais próximos do fim de Breaking Bad. Agora faltam apenas 3 episódios para conhecermos o destino de Walter White e dos personagens que aprendemos a amar e odiar ao longo de 6 anos de uma das melhores séries produzidas na última década. O programa, criado por Vince Gilligan, ganhou notoriedade por sua qualidade acima da média, tanto em seus roteiros, como de sua produção. Em todas as temporadas, para o espectador atento, ficou claro que cada grande momento teria repercussões futuras, fossem na trama ou referenciadas em rimas visuais ou temáticas, importantes não apenas para o desenvolvimento do protagonista e dos coadjuvantes, mas também para criação de uma lógica narrativa que indica a ciclicidade das coisas, a repetição de padrões em momentos distintos de tempo, que brinca com a noção de escolha versus destino e do tema fundamental da série, a transformação de elementos pela química (troque “elementos” por personagens e “química” por metanfetamina).

Em seus momentos finais, portanto, uma boa dica é rever a primeira temporada de Breaking Bad. Pra começar, porque quem acompanha a série desde o início provavelmente não vai se lembrar de pequenos acontecimentos de seis anos atrás. E segundo, porque Gilligan e seus outros roteiristas estão colocando pequenos easter eggs nos derradeiros episódios que fazem valer uma nova visita a como tudo começou.

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Um bom exemplo de uma aula de auto-referência pode ser encontrado no episódio Confessions, desta segunda metade da quinta temporada. Walter White, em mais um de seus planos incrivelmente bem estruturados, envia um DVD ao seu cunhado Hank, mostrando o que pode acontecer caso sua investigação a respeito da identidade de Heisenberg continue (imagem acima). White começa sua confissão exatamente da mesma forma que inicia a série no piloto. Quando vemos o personagem pela primeira vez, ele está gravando uma fita para explicar seus atos e justificar o que fez como uma forma de deixar algum conforto à sua família, quando o recém-descoberto câncer o levar deste mundo (logo abaixo).

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A grande sacada é mostrar o quanto o protagonista mudou. Se no início sua confissão era sincera, agora se torna um ardil para proteger sua identidade.

No mesmo Confessions somos levados a outra rima com a primeira temporada, desta vez com o segundo episódio, Cat’s in the bag..., quando Walter tenta esconder o olho roxo com maquiagem, em um momento muito semelhante ao que Jesse faz o mesmo, no começo do seriado. Em ambos os casos, os personagens são interrompidos por elementos externos (Walter Jr na versão mais recente e a chegada de Skyler, na cena mais antiga).

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Mas é em Rabid Dog que somos apresentados a uma sequência-espelho fundamental para explicar um dos momentos mais polêmicos do episódio, o décimo-segundo da quinta temporada, "agraciado" com críticas negativas quanto à execução de cenas e atitudes de personagens, que pareceram arbitrárias e destoantes. Quanto a essa última obsevação, há uma discussão interessante em nosso podcast semanal, que você pode ouvir aqui. O que chama atenção mesmo é a sequência final do episódio. Enquanto muitos podem argumentar quanto à forma como o momento foi montado (eu, inclusive continuo considerando falho), uma visita ao episódio Cancer Man, o quarto do primeiro ano, faz a atitude de Jesse ter todo o sentido, uma vez que apresenta ao espectador a natureza paranóica do jovem. O personagem, que acabara de consumir uma dose considerável de metanfetamina, vê dois motoqueiros mal-encarados chegarem em sua casa e foge, amendrotado, para em seguida, a série revelar que se tratavam de dois mórmons em singelas bicicletas. Veja.

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No episódio recente, Jesse não está drogado, mas amedrontado. O medo é uma sensação que libera uma quantidade considerável de hormônios ligados ao estresse e que podem induzir uma sensação de paranóia em alguém  já, naturalmente, paranóico. Nada mais natural para Jesse, dessa forma, ver aquele sujeito grande e estranho como uma ameaça, mesmo que seja um inofensivo pai esperando pela filha pequena.

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A intenção desta postagem não é tentar justificar um erro apontando um acerto, mas mostrar que, mesmo com alguns problemas, aquele considerado o episódio mais fraco da temporada não deixa de ser fiel ao que a série sempre propôs. Basta olhar pra trás e tentar encontrar essas preciosas referências nesta reta final e a experiência se tornará ainda mais gratificante.

Alexandre Luiz

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