Hellbound Heart: o livro que deu origem a Hellraiser

Hellbound Heart: o livro que deu origem a HellraiserHellbound Heart é o nome original da novela que Clive Barker lançou em 1986 e que hoje, graças a republicações, é conhecida pelo nome Hellraiser, em atenção ao filme homônimo de 1987. A história aborda estigmas de violência corporal, depravação além de uma trama espiritual baseada no inferno e no salário cristão dado aos prazeres profanos, como morte e sofrimento.

HH é o terceiro volume de uma série antológica, chamada Night Vision, da companhia Dark Harvest. A ideia original de Barker era fazer um filme, mas sem condições financeiras para tal, ele pegou as ideias do roteiro e foi escrevendo de forma romanceada, de modo claro, mais visceral e violenta do que o planejado antes. Curiosamente em 1987, o próprio autor adaptou a ideia para o cinema, em Hellraiser: Renascido do Inferno.

A história se desenrola a partir da vivência de Frank, um homem descrito como curioso por prazeres, obcecado nesse sentido. Ele encontra um artefato chamado caixa de LeMarchand e ao tentar decifrar o enigma do objeto, ele cai e em uma armadilha, num vórtice onde prazer e dor se misturam de forma tão intensa que se tornam indistinguíveis.

Hellbound Heart: o livro que deu origem a Hellraiser

Barker tem um modo próprio de descrever tanto os eventos corriqueiros como as formas de prazer. A narrativa mistura sonhos eróticos, fantasias e elementos de bondage com figuras que normalmente não são associadas a essas práticas, entre elas, entidades religiosas. As criaturas liberadas pela caixa, os cenobitas, são descritos como seres litúrgicos, com o nome de teólogos da Ordem de Gash.

O termo cenobita vem do latim coenobita, significa adepto de culto religioso, e os personagens são caracterizados assim, como devotos das trevas, com o ideal voltado para o mal e para a escuridão.

São figuras disformes, descritos como semelhantes aos homens mutiladas, que usam couro como vestimenta e até como substituto de trechos da pele que ás vezes falta. Em comum com Frank as entidades têm na dor um ideal de prazer, quanto mais intenso é o incomodo, maior a satisfação.

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Um fato que é curioso, é que o cenobita com espinhos, conhecido nos filmes como Pinhead, é descrito como um ser sem sexo, quando não, em traduções, a sexualidade pende para o feminino, fato que conversa com a versão que virá em breve no reboot de Hellraiser, que será veiculado pela Hulu.

Apesar de não ser explícito sobre a origem e implicação desses seres, é dado que eles funcionam como súcubo ou incubo, as entidades mitológicas que invadem sonhos e fantasias humanas a fim de ter relação sexual ou realizar depravações em quem os convoca, para no final roubar sua energia vital.

As criaturas provocam experiências tão longas que parecem as de uma vida inteira mesmo que o momento de prazer dure instantes e segundos. Eles tomam a carne e a alma de pessoas para consumo próprio, são seres sobrenaturais, algo entre espíritos e demônios, que gostam de lidar com os anseios escondidos dos humanos.

A luz das continuações de cinema, é possível intuir que Frank estava se tornando um cenobita, que voltou para assombrar sua cunhada Júlia, recém-casada com o Rory, o irmão do personagem que desvendou o lamento de LeMarchand.

Nesse estágio embrionário, ele precisava de manifestações físicas de dor, tal qual o sangue derramado por seu irmão, de maneira acidental, e a medida que tivesse contato com resquícios de vida, poderia retornar a um corpo físico.

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Curiosamente é revelado que nem os cenobitas sabiam que Frank vivia, talvez por desleixo deles, ou possivelmente por falta de ciência deles, de como funciona o mecanismo infernal que transforma seres vivos em cenobitas, dado que segundo o roteiro das sequências cinematográficas, os cenobitas perdem a memória de quando eram os homens, normalmente.

Barker não tem muitos pudores, fala de sexo abertamente desde o primeiro capítulo e o faz sem receio em dar detalhes sórdidos. Suas palavras são vívidas e quase pornográficas e essa visceralidade ajuda a instaurar a atmosfera do terror. Não é à toa que Stephen King o elogiava e considerava o autor como o futuro do terror literário popular.

Além dessa questão, também não falta violência ou nojeira. A descrição dos músculos e órgãos de Frank se refazendo são bastante detalhadas, tudo o que foi traduzido no bom momento presente no filme é dado aqui de maneira bastante rica, nojenta em cada instante, bem-dito nas palavras do autor.

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A história também passa por questões familiares, por um casamento infeliz de Julia, mesmo que tenha sido recém contraído. Os pensamentos da mulher revelam o desprezo dela pelo esposo e a relação ruim entre Rory e seu irmão.

Frank enquanto vivo era motivo de tristeza para os pais. Ele quase não aparecia e quando estava presente, falava de histórias com prostitutas e bandidos, distanciando ele que tinha uma vida errante, do conservador e ordeiro comum as famílias dos Estados Unidos.

A dicotomia entre os membros da família marca a história e a memória de Julia, que despreza o sujeito próximo e idealiza o distante.

O livro deixa a entender que o caso entre Frank e ela se iniciou com um sexo forçado, com um estupro, enquanto ela provava seu vestido de noiva.

A partir daí esse evento traumático ficaria grafado em sua memória, causando nela um desejo por ser possuída novamente, não ficando claro se era por um desejo anterior, que foi posteriormente atravessado pela violência e intensificado, ou se o ato criminoso causou nela uma variação de Síndrome de Estocolmo, fazendo ela se apaixonar por quem lhe fez mal.

Abrir a caixa fez com que Frank estabelecesse com os cenobitas uma espécie de pacto, trocaria sua alma por prazeres, e após desfrutar deles, deveria ir para o inferno. O que a trama deixa pensar é que ele ficou preso entre dimensões, e retorna de uma forma desconhecida, precisando de carne ou de algo tangível para ganhar uma forma corpórea outra vez.

Barker tem uma visão sádica e cínica do mundo. Seus personagens não tem o carisma como norte, são ruins, de índole bizarra. Frank gera em Julia, que por sua vez, fantasia e romantiza repetir o coito forçado que tiveram. Ela parte em busca de enganar homens, fingindo estar interessada sexualmente por eles e os leva até a casa para saciar a fome do sujeito, usando os seduzidos como repositório de carne do seu amado.

O escritor mistura crueldade e atração de maneira ímpar mesmo entre autores literários voltados para o horror. Com poucas palavras e com pouca interação entre personagens, se percebe a tensão entre eles e os motivos que fazem alguém ceder a instintos tão primitivos e problemáticos, ainda mais a luz dos tempos atuais.

Além das referências a tortura misturadas a sexualidade, há também uma ironia fina, presente na reação dos personagens ao se deparar com o perigo. Também há gore e violência enquanto Frank recupera sua carne.

Da parte dos personagens menos dignos de ódio, há Kirsty, uma admiradora não assumida de Rory - diferente do filme, onde ela é filha do personagem, que recebe o nome de Larry - cuja paixão é apenas platônica, e claro, não correspondida por Rory.

Quando ela é inserida, não se espera que ela se tornaria a heroína, que seria o receptáculo de esperança de que essa história terminasse de modo minimamente positivo.

O autor usa os cenobitas de maneira paciente, com poucas aparições. Eles surgem logo no início e depois reaparecem só no penúltimo capítulo, como o clássico evento de resolução de um roteiro clichê de horror, mas utilizado sabiamente.

Outra boa construção é a do desejo pelo proibido, que utiliza o exemplo de Julia para demonstrar a vontade de voracidade de uma mulher apaixonada por alguém que ela não pode ter.

A personagem é complexa, sedutora e insatisfeita, parece querer se saciar de algo que não sabe exatamente descrever, algo além do tesão e da pulsão, se sente particularmente impelida pelo quarto onde Frank habitava e quando encontra o sujeito, é automaticamente convertida, tal qual foi com Fausto na peça homônima de Goethe.

O que mais assusta nesse curto romance são as descrições. Barker acerta demais em apelar para um medo irracional, para a violência explícita oriunda das más intenções dos personagens humanos, ao passo que tudo que toca os cenobitas é absolutamente misterioso.

Eles são figuras amedrontadoras justamente por não se saber nada a respeito de origem ou de como elas funcionam, daí a imaginação de Kirsty e do leitor viajam juntas, na direção de torná-los ainda mais potencialmente malvados.

A escrita também valoriza os sentimentos, poetiza a indignação da moça ao ver o nome de seu amado sendo roubado, além de detalhar bem a sensação de desespero dela. O final deixa algumas coisas em aberto, há a aparição do Engenheiro, entidade que cuida do portal para o inferno e aparentemente Frank e Julia foram tragadas.

Hellraiser é um romance curto, rápido, direto e com uma mitologia rica, que seria explorada em outros contos de Clive Barker e no livro O Evangelho de Sangue, além de ter sido expandida nos cinemas, através da cinessérie que passou a perder forçar, especialmente após Hellraiser 3: Inferno na Terra. Ainda assim, a leitura segue uma boa forma de entretenimento e divertimento, resultando em um agressivo romance de saciedade, violência e perversão.

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