A Personificação Sexual de Sean Connery: A Era de Ouro de 007

dr-no-posterAdaptado a partir dos romances de Ian Fleming, o agente secreto James Bond estrearia em tela grande em uma produção de Albert Brocolli e Harry Saltzman, transpondo o sexto livro do personagem (chamado em edições brasileiras mais antigas como Terror no Caribe) publicado em 1958. Dirigido pelo já calejado sino-inglês Terence Young – cuja experiência já incluía quase duas dezenas de filmes – o realizador ainda tateava à procura de uma identidade para o personagem que ficaria instantaneamente icônico.

As primeiras cenas filmadas mostravam um curioso ambiente, onde o jogo e o fumo eram elementos corriqueiros dentro da atmosfera pseudorrealista daquele micro mundo. A violência também era um mote importante no roteiro de Richard Maibaum, Johanna Harwood e Berkely Mather, exibindo homens negros causando infortúnios a sujeitos brancos de classe média. A agressividade mais palpável e corriqueira era uma das forças dos primeiros filmes do espião, que já tinha denominado seu vilão, Dr. No, antes mesmo de sua apresentação.

Citado aos seis minutos, mostrado em jogo de carteado flertando e fumando, no minuto subsequente, James Bond e as belas feições de Sean Connery são mostradas, já demonstrando toda a força e características charmosas que seriam parte de sua marca registrada, inclusive travando uma relação de sedução com a bela Silvya Trench (Eunice Gayson), que mais tarde, se tornaria a primeira presa deste.

Bond comenta que já trabalha com a beretta há dez anos, o que determina uma experiência pregressa grande. Outro fator digno de nota, é a saudação de despedida, “Ciao”, ou tchau, pouco comum em bocas inglesas. Curioso é notar que até seus perseguidores são bastante discretos e fazem questão de manter o disfarce, ao contrário de Bond, que não se furta em manter o estado incógnito. Um aspecto válido é a percepção de luta do personagem, que somente usa armas quando em momentos extremos.

Durante a investigação no lugar paradisíaco, ocorrem inúmeras reviravoltas, que não revelam muito sobre a trama, mas revelam alguns passos do espírito e caráter da franquia, entre eles, símbolos fálicos, que determinariam o machismo e misoginia, da época e do texto final. Desde momentos mais herméticos, como a morte de uma tarântula à sapatadas – teoria esta que beira a paranoia, mas que faz sentido pela comum associação do aracnídeo ao orgão sexual feminino – bem como na personificação da bond girl Ursula Andress, da bela mulher, calada, inocente, que tira seu sustento da natureza. Honey Rider é a caricatura da mulher ideal, a mesma que foi usada em Nova, na cinessérie Planeta dos Macacos, da moça submissa à vontade do macho, que tem na sexualidade bela a única forma de comunicação com seu “mandante opressor”.

Joseph Wiseman vive o oriental Dr. No, um vilão que começa sua caricatura por dois fatos simples, o primeiro de demonizar o asiático, e o segundo por ser um canadense a fazê-lo. Sua caricatura é tão grave, que nos primeiros momentos, o antagonista sente que deve explicar o porquê de ser maneta, ao invés de agir. Tal aspecto se tornaria praxe entre os vilões, evoluindo para o hábito de contar todo o plano antes dele ser executado.

Como estréia, Satânico Dr. No é bem tímido, mas já expõe grande parte do ideário do super espião, que retornaria já no ano seguinte, em Moscou Contra 007 (From Russia With Love), adaptado do quinto livro de Fleming. Dessa vez, Connery é o primeiro ator enquadrado, bem mais à vontade no papel do super espião, invadindo propriedade alheia, em meio a uma perseguição fugaz junto a um capanga loiro, de intenção assassina.

moscow-posterÉ neste segundo filme que é citada a organização Spectre, com um referência direta a Bloofeld (Anthony Dawson), chamado de Número 1. Os aspectos mais peculiares envolvem o fascínio por peixes lutadores, a esquadra armada ao redor dos funcionários. Kroonstein (o número cinco da organização), discorre a respeito de uma máquina poderosa que eles tencionam pôr as mãos, a decodificadora Lektor, que estava em posse do antigo operacional deles, Dr. No, o que já determina uma richa pessoal contra Bond. Além da afeição por gatos, o Número Um também revela a confiança – ainda que resignada – na figura de Rosa Klebb (Lotte Lenya), a primeira mulher que comanda algo dentro da franquia, retratada de modo bastante bruto e masculinizado.

A tradução brasileira passa uma impressão não certeira ou literal, uma vez que o interesse dos russos não é exatamente de antagonismo puro e simples, e sim ambíguo e ligado a sexualidade. A loira Tatiana Romanova (vivida pela italiana Daniela Bianchi) é designada especialmente por suas belas feições para interceptar o possível algoz da missão, Bond. Em sua intimidade, James está acompanhado de Sylvia (Gayson), um caso antigo, que não o vê há 6 meses, e que é impedida de falar ao telefone com um tapa barulhento de seu amante, exibindo mais um claro acinte da época.

Dentro de uma história que demora a engrenar, há um bocado de momentos de distração, inclusive focando em uma luta feminina, onde duas beldades são postas pra se digladiar como em uma rinha de galos, tendo somente suas unhas para se defender. A trama só passa a ser interessante a partir da interação entre Romanova e Bond, seguido de uma perseguição sobre trilhos, ocorrida nos vagões de um expresso que corta o continente.

O grave problema em From Russia With Love, é o de não possuir um vilão forte, ao menos não a ser enfrentado, já que é anunciado somente o mandatário da Spectre. Ao final, Connery abraça sua “amada”, a bordo de um barco, em uma tela verde mal executada até para os padrões da época, servindo até de bom encerramento para mais uma leva de solidificações de identidade do espião, que teria enfim um bom embate já na próxima aventura.

Terence Young dá lugar a direção de Guy Hamilton, que foi responsável por inserir uma forte dose de humor ao ideário de Bond. A música pontual de Shirley Bassey adicionaria tons de jazz interessantes a trama, visto o dourado refletido na pele das belas mulheres presentes na abertura estilizada, com os mesmos neons brilhantes anteriores, reunidos ao acréscimo do fogo, do consumo via morte, que contrasta diretamente com o tom mais jocoso.

goldfinger-posterBond viaja a América, na adaptação do sétimo livro de Fleming, também chamado de 007 Contra Goldfinger (ou Golfinger no original). Felix Leiter (Cec Linder) é apresentador, seguido da cena que talvez seja a mais notória e óbvia em relação ao machismo do 007 de Sean Connery, onde ele se despede da moça que passa bronzeador em si dando-lhe um tapa na bunda, seguido da frase: “ saia daqui gracinha, papo de homem”, ordem prontamente atendida por ela.

A primeira amante a aparecer no filme, é também a pioneira em outro clichê da cinessérie, sendo vítima fatal de seu antigo parceiro. Jill Masterson (Shirley Eaton) aparece morta pouco tempo após dormer com Bond, após o próprio ser desacordado e poupado. O processo de “sepultamento” é peculiar, pintada de cor dourada pelo vilão, o trapaceiro Auric Goldfinger (Gert Frobe), o que faz o herói claramente abalar-se, postura vista em sua discussão com seu superior M (Bernard Lee) e em seu flerte comedido junto a Moneypenny (Lois Maxell). Logo a leveza retorna, com a instituição do personagem Q (Desmond Llewelyn), que explica para que servem os novos equipamentos pensados para o agente, que visam torná-lo mais furtivo, equiparando-o aos seus inimigos, que contém itens armamentistas interessantes, como o capanga OddJob (Harold Sakata), que usa um chapéu com abas metálicas, capaz de decapitar um homem adulto.

O carisma de Goldfinger faz dele um vilão dos mais formidáveis desta fase, apesar de suas compleições modestas não se compararem a beleza estonteante do protagonista. A matança prossegue, aumentando consideravelmente a quantidade de baixas, incluindo Tilly Masterson (Tania Mallet), mais uma bela moça que atravessa o caminho do protagonista e perece. Ao final, sobre a fria – e de nome sugestivo - Pussy Galore (Honor Blackman), que age de maneira dúbia, junto ao falho vilão que dá nome a fita.

Goldfinger é um opositor comum, humano, sujeito a falhas e a covardias, capaz de ardis absurdos, bem como comete erros grosseiros de planejamentos. A arma dourada serviria de referência para o livro lançado em 1965 – O Homem da Pistola de Ouro - ao menos em referência visual. Mais uma vez o embate termina subitamente, com James tomando em seus braços a moça que estava em perigo, mesmo que Pussy fosse um “objeto” traiçoeiro, controverso até na tentativa de dar importância a personagem, que ao final, não passa de uma presa para o galanteador.

thunderball-posterO quarto filme da franquia, adaptaria o nono livro lançado, Thunderball, traduzido em película como 007 Contra A Chantagem Atômica, realizado novamente por Terence Young. O Filme é envolto em polêmicas, já que problemas jurídicos impediram a melhor transposição de seu roteiro, contendo alguns elementos do livro original, ainda muito aquém da ideia primária, mesmo com a sessão do posto de produtor para o reclamante Kevin McClory, que tinha pensado um filme antigo, que acabou não vendo a luz do dia. Como Fleming usou no livro elementos pensados por McClory, o imbróglio se instaurou, em uma longa história que gerou até uma nova versão do “romance”.

007 é mostrado em ação logo nos primeiros minutos, lançando mão de uma mochila foguete que se tornaria um dos itens de cinema mais famosos da cultura pop. Logo appos o show off tecnológico, a trama visa as ações da Spectre novamaente, sob o comando de Erns Stavro (agora com primeiro nome) Blofeld, novamente encarnado por Anthony Dawson, ainda incógnito o seu rosto, uma face dura que destila crueldade com os que fracassam nos intentos decididos por si.

É neste filme que ocorre talvez o ato mais contestável no âmbito sexual de toda a jornada do personagem, quando ele trata com a funcionária do spa Patricia Temendo (Molly Peters), que recusa seus gracejos e é subornada a fim de ceder aos caprichos carnais do homem.

A conjuntura neste aparenta ser muito mais séria, já que ao receber as ordens da missão em um ambiente mais formal, reunido junto a outros agentes 00 da Europa. Reprisando um elemento do primeiro filme, o caolho vilão Largo (Adolfo Celi), também tem um fraco por tubarões. O agente se envolve em uma trama de espionagem na acepção da palavra, mas não há grandes inovações na direção de Young, que era um cineasta discreto, que não ousava quase nada em seus ângulos, apesar de orquestrar belamente as cenas na água, fazendo alusão até ao coito ocorrido em alto mar, do herói com Dominique “Domino” Derval (Claudine Auger), uma das duas moças que ele coopta entre os barcos – a outra era a ruiva Fiona Volpi (Luciana Palluzi), um deslumbre visual também, mas igualmente irrisória para a trama, como tantos outros enfeites e pseudo-vilãs da franquia.

Primeiro filme a ultrapassar mais de duas horas em duração, Thunderball fica arrastado em vários momentos, mesmo com os curiosos combates aquáticos, não há nada novo, e a fórmula provava-se em desgaste, seguida por mais um filme que prometia ser o último de seu interprete. Em Com 007 Só se Vive Duas Vezes, baseado no décimo segundo livro de Fleming, há um começo diferente, explorando o espaço, onde ocorre um estranho incidente de captura de astronautas, fato que incita ao belicismo entre as forças distintas da cortina de ferro.

Sean-Connery-is-James-Bond-You-Only-Live-Twice-posterA questão da corrida espacial é tão grave dentro da trama – e do mundo, naquele tempo - que após uma relação com Ling (Tsai Chin), e após um diálogo xenófobo, James Bond é assassinado, para então retornar dos mortos num ardil sinistro. A missão nova seria no Japão, serviço tranquilo para quem tirou nota 10 em Línguas, em Cambridge. A fita é conduzida por Lewis Gilbert, que conseguiu renovar um pouco o nível das tramas, ainda se valendo dos espólios da Guerra Fria.

A sensualidade das mulheres asiáticas é explorado ao extremo, de modo até mais numeroso em quantidade de moças do que as ocidentais. A missão de verificar o suposto pouso da nave sequestrada em terras sionesas visa acalmar os ânimos das polaridades ideológicas. O problema do filme é que quase toda a metade dele é um despiste. Dessa vez, a face de Blofeld é revelada, interpretado desta vez pelo veterano Donald Pleasance, sendo ele o responsável pelos raptos de ambas aeronaves, em um plano mirabolante, que visa o caos que antes somente anunciado.

No entanto, o ideal de todos os personagens estava exalando enfado. Connery claramente já não tinha motivação, sua forma física já estava em declínio (ao menos para o arquetipo de perfeito sex symbol) e até suas perucas não funcionavam mais, ficado evidente a calvície que cada vez mais o tomava. A fórmula ficava cada vez mais redundante, e apesar de belas, ambas bondgirls – Ling (Tsai Chin) e Aki (Akiko Wakabayashi) - não acrescentavam em nada a trama. Mesmo com o anúncio da próxima aventura, era necessário um novo começo para o agente.

Começando de novo, ou uma fracassada tentativa de...

majesty-secret-posterAs primeiras cenas de 007- A Serviço Secreto de Sua Majestade, mostram M e Q, discutindo de modo raso a respeito da missão, para então, se introduzir o novo James Bond, George Lazenby, um ator inexpressivo, cujas experiências anteriores era em programas televisivos baratos. A estreia de Peter Hunt – que mais tarde usaria a alcunha de Peter R. Hunt – resultaria em um filme de mais de duas horas de duração, que começaria em sua abertura hermética, um recordatório dos filmes de Connery, em sinal de claro saudosismo pela partida do antigo interprete.

O roteiro interessante de Richard Maibaum adapta o décimo primeiro livro de Fleming, e contém cenas de ação ainda mais modernas que as vista em seus antecessores, apesar de Lazenby não se comparar em charme e perícia marcial a Connery. O problema maior talvez seja as cenas com dublês, ainda mais evidentes que na encarnação anterior.

A trama supera-se em temas maduros, com Bond sendo retirado da oficial caçada a Blofeld, tendo seu pedido de retornar a ação formalmente deferido. O agente se enfia em um romance estranho, que começa pelo salvamento de uma tentativa de suicídio, para resultar em um plano de proteção a moça. Teresa “Tracy” di Vincenzo (Diana Rigg) é filha de Draco (Gabriele Ferzetti), um poderoso criminoso, que tem a ideia de forçar o matrimônio para que o espião a proteja, fornecendo a ele, informações sobre o paradeiro de Blofeld, que agora, é interpreteado por Telly Savalas, um ator que sequer havia realizado seu sucesso mais conhecido, Kojak.

A relação arranjada não impede Bond de flertar com o belo sexo, especialmente com as dez senhoras que servem de cobaias para um experimento anti alérgico. O filme é repleto de dubiedades, como deveria sempre ser uma fita de espionagem, como elementos de manipulação, onde Moneypenny altera a carta de demissão de James para um licença de duas semanas, a aproximação sorrateira de Bond a Blofeld e a aceitação de uma relação forçada para alcançar seus fins. Parece que a saída de Connery fez bem ao processo de naturalização do agente, ainda que perca demais do ponto de vista dramatúrgico e de identidade visual e de caráter.

A tradição de perseguição em meio a neve começa neste filme, com uma sequência bastante interessante, e com um final diferenciado do anteriormente visto, saindo a costumaz cena de acalento corporal, para suceder o casamento de Bond com Tracy. O diferencial está no último ataque de Blofeld, unido a sua aliada masculinizada Irma Bunt (Ilse Steppat), que acerta um tiro fatal na esposa do herói, abordando um drama diferenciado, que faz perguntar qual seria a postura do 007 anterior nesta situação, e a oportunidade de provar essa possibilidade aconteceria logo.

O Retorno do Agente

DiamondsPosterEm 1971, a decisão de Brocolli e Saltzman era te total recúo, com o retorno de inúmeros fatores que fizeram sucesso anteriormente, começando por Connery como astra e Hamilton dirigindo. Outro aspecto reprisado, é a participação de Charles Gray como Blofeld, o mesmo que antes tinha executado o aliado Mikko Henderson, o que causa um claro estranhamento, visto que não se muda sequer o penteado pela calvície que normalmente habitava o estereotipo do mandante da Spectre, justificada por um estranho conjunto de perucas e máscaras.

Connery prossegue classudo, mas os sinais da idade eram evidentes demais. O começo de suas ações visam achar e destruir Blofeld, claramente em retaliação a morte que o Bond de Lazenby não soube lidar. A parte interessante fica por conta dos vilões/alívio cômico visto na peculiar dupla de assassinos Mr. Wint (Bruce Glover) e Mr. Kidd (Putter Smith), que tencionam atrapalhar as investigações do agente, em torno do roubo de diamantes muito valiosos. O filme é itinerante, passando pela África do Sul, Holanda e Estados Unidos, com o protagonista normalmente acompanhado de Tiffany Case (Jill St. John), em cenas curiosas, que evitam mostrar o personagem sem camisa, graças a forma quase não aprimorada de Connery.

A persona de Plenty O'Toole (Lana Wood) não é tão importante para a trama, exceto por seu generoso decote – talvez o mais expositivo até aqui – e a associação de seus atos ao puro interesse monetário. Como “prêmio” por ela acompanhar Bond após ele arrecadar dinheiro em uma mesa de carteado, ela é assassinada, em uma sequência de fatos muito semelhante em espírito ao que ocorria nos slasher movies.

Somente em 1971 adaptaram o quarto livro, que data de quinze anos antes. Logo, o plano se revela mais uma artimanha de Blofeld, que forjou sua morte, revelando possuir vários sósias. O tempo de maturação do roteiro não impediu o filme de ter seus problemas ideológicos, como o machismo em outras formas, cujo avatar é a luta de Bond contra duas mulheres., Bambi e Thumper (Lola Larson e Trina Parks, respectivamente), “vencendo-as” com uma tola tentativa de afogamento em uma piscina. O trato com o feminino ainda não conhecia limites dentro da cultura pop, e é curioso notar como os filmes de James Bond conseguem expressar bem a maioria dos preconceitos com as mulheres, retratando-as de modo quase nunca respeitoso até então, como meros objetos de fascínio visual.

Connery era um ator mais bruto, tinha um perfil bem diferente do visto em seus filmes do Agente autorizado a matar pela Rainha. Seu passado era mais ligado ao gênero que se tornaria popular com a alcunha de brucutu, mas a proximidade com Terence Young e as dicas dadas pelo diretor ajudaram-no a montar um arquétipo interessante, reutilizado até por seu sucessor, em alguma instância. Mais do que tudo, o James Bond de Connery entrou para o cânone do cinema, se tornando um ícone indiscutível do cinema escapista. Nem mesmo as fálicas mensagens machistas são dignas de esquecimento, especialmente por que censurar tal caráter não tem o poder de mudar a história, tampouco ajuda na discussão a respeito da evolução de temas como sexismo e objetificação feminina.

Bonustrack: Cassino Royale

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Apresentado por Charles Feldman, Cassino Royale de 1967 traz a luz uma comédia britânica, que se vale do nome do livro cujo imbroglio enorme não permitiu ser adaptado para o cinema – e que já havia sido filmado em um programa dos Estados Unidos. O produto final é tão bagunçado, que a direção é compartilhada, com Ken Hughes (Kenneth Hughes) executando cenas em Berlim, John Huston fazendo as cenas escocesas, Joseph McGrath conduzindo as cenas com Peter Sellers, Ursula Andress e Orson Welles, Robert Parrish a frente de algumas cenas de Peter Sellers e Orson Welles e Richard Talmadge, não creditado, tendo filmado a sequência final.

Sir James Bond está aposentado, vivendo excentricamente em uma mansão cercada de leões. Curiosamente, seu interprete é David Niven, que seria uma das escolhas preferidas de Ian Fleming para o seu personagem mais famoso. Uma junta de homens engravatados vai atrás do sujeito, para pedir-lhe que assuma o seu antigo posto, para uma nova missão. Obrigado a adentrar a aventura, uma vez que sua casa foi explodida, 007 retorna a ativa, competindo com alguns impostores.

A direção de arte é responsável por cenários e figurinos assombrosos e belíssimos, mas que se perdem em meio a um humor nonsense extremo, exagerado no tom, não em relação a crítica histórica, ou a análise da franquia em tempos de Sean Connery, mas sim nas piadas, que não encontram eco sequer nas ações de seus atores. A lisergia e contracultura da produção de Charles K. Feldman se perdem em meio aos muitos problemas de feitoria fazem o humor se perder, especialmente por serem cinco diretores, cada um contando ao seu modo as mesmas piadas a respeito do apetite seuxal do agente secreto e do fato de ele não ser nada incógnito.

Todas as polêmicas em volta da produção tornam Cassino Royale confuso e difícil de analisar a partir de sua premissa. Claramente a participação de Peter Sellers e seu Evelyn Tremble seria muito maior, encurtada graças ao entrave que teve com Orson Welles. A guerra de vaidades boatada evidentemente não deve ser levada em conta na análise crítica, mas a mornidão e o arrastamento das sequências que deveriam ser dinâmicas e proativas sexualmente falando são dignas das piores adjetivações. Sellers está comedido, não se vê qualquer necessidade de ser ele interpretando, já que não há piadas em seus atos, e as que ocorrem são vergonhosas, parodiando porcamente seu caráter eclético, mas não justificando sua escalação. Até seus momentos românticos com a bela Ursula Andress, que faz Vesper Lynd (ainda mais estonteante que em Satânico Dr. No) não funcionam, e são genéricas, não exigindo dele o talento que lhe era peculiar, fortificando o argumento de que seus bons momentos foram suprimidos na mesa de edição ou antes mesmo de serem filmadas.

Quem tentaria extrair do montante de cenas sem roteiro uma lógica minimamente aceitável, seria Val Guest, que decidiu usar o drama de James e sua filha Mata Bond (Joanna Pettet) como mote principal. Os outros momentos do filme, foram escritos por outros tantos roteiristas, incluindo as esquetes protagonizadas por Woody Allen, que faz Jimmy Bond, sobrinho do protagonista, que se encarregou de escrever seus próprios textos. O que se vê é um produto irregular, com múltiplas identidades, como uma colcha de retalhos em formato película.

A tentativa de satirizar tantos aspectos em um único filme soa extremamente pretensiosa, já que não há preparação para nenhuma das discussõe, especialmente no que diz respeito a política e história. O que deveria ser irônico e inteligente, soa infantil. A esperada sequência de bacará, um dos poucos movimentos de roteiro idêntico ao livro é decepcionante.

O motivo de Cassino Royale resultar em uma comédia foi, supostamente, porque Sean Connery se recusara a executar o papel por um valor baixo. Notando-se o produto final, e a bagunça que resultou no filme, que não funciona mesmo como filme de super espião, e que mira em um estilo de paródia que também não alcança seu êxito, nem mesmo considerando a vertente de humor, não conseguindo acertar em cheio em nenhum dos eventos cômicos que aposta, perdendo até para comédias mais “escrachadas”, como Johnny English, Agente 86, Austin Powers e Pantera Cor de Rosa.

- Texto de Autoria de Filipe Pereira , editor do site Vortex Cultural

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