Cinerama: Frank Darabont - Parte 1

Das máquinas de escrever para trás das câmeras:

Frank Darabont,

O homem por trás de Um Sonho de Liberdade, The Walking Dead e tantos outros sucessos.

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CENA 01 – INT – LOJA DE CONVENIÊNCIAS/ MADRUGADA.
LEGENDA EM LETRAS BRANCAS
Anos 90. 2:30 da manhã. North Hollywood. L.A.

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Perambulando entre as prateleiras de um supermercado, um ainda “cabeludo” Frank Darabont e seu amigo David J. Schow – Roteirista de O Corvo – 1994.

Frank e David estavam um tanto pensativos e indecisos. O que eles discutiam era a oferta que Darabont havia recebido para dirigir seu primeiro filme para o cinema, O slasher Child’s Play III (Boneco Assassino 3) que acabou sendo dirigido por Jack Bender em 1991. Frank havia dirigido até então um curta-metragem baseado em um conto de Stephen King, The Woman in the Room, em 1983, um suspense de horror para a TV chamado Buried Alive (Sepultado Vivo) em 1990, além, é claro, de ter escrito tantos outros roteiros para filmes desse gênero, o que o fazia um bom “candidato” à vaga para Boneco Assassino. A indecisão se devia ao fato de que Darabont estava, naquela época, escrevendo uma forte e belíssima adaptação de outro conto de King: Rita Hayworth and Shawshank Redemption, e essa história oferecia, ao invés de horror e sustos, uma espécie de conto de fadas sobre encarceramento e emancipação, no qual um preso triunfa sobre uma terrível adversidade.

A grande questão era: Frank, naquele momento, só tinha em sua manga aquele roteiro, e havia uma grande possibilidade dele ser rejeitado pelos estúdios por conta de sua sensibilidade em um tempo de filmes tão comerciais e violentos, mas ainda assim, naquela manhã, ele decidiu que recusaria a oferta de fazer Boneco Assassino e ofereceria o roteiro de Rita Hayworth à Castle Rock Entertainment, produtora criada pelo diretor Rob Reiner e outros quatro sócios da Columbia Pictures e que havia tido muito sucesso com a adaptação de The Body, outro conto do mesmo livro de Stephen King (As Quatro Estações), e que havia se transformado em Stand by Me (Conta Comigo) de 1986, dirigido por Reiner, que por curiosidade, havia nomeado a produtora com o nome da cidade onde se passa a trama de The Dead Zone, outra obra de King.

Todos da Castle Rock ficaram emocionados com o maravilhoso roteiro que Frank havia desenvolvido, e Rob Reiner lançou uma oferta: compraria o roteiro por um ótimo preço, uma quantia de quase 2 milhões, mas dirigiria o filme. Frank não pensou duas vezes e recusou a oferta dizendo que aceitava ganhar menos, mas que queria ocupar a cadeira de diretor. Seu desejo por comandar um longa para o cinema havia surgido quando ele ainda era muito pequeno e certamente ele se via com uma grande oportunidade, que não iria largar.

O começo de tudo

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De origem francesa, Darabont chegou pequeno em solo americano e fez seu ensino fundamental e médio em L.A. com outros sonhadores como Gregory Melton – Desenhista de Produção de The Walking Dead e tantos outros materiais do cineasta.

Ao sair do colegial, passou a trabalhar em várias pequenas funções, como assistente de empilhadeira e garçom, cargos que o permitiam ter tempo livre o bastante para investir em seu sonho, e ele usou esse tempo para testar sua habilidade como escritor.

Seu primeiro trabalho no cinema foi como Assistente de Produção no filme B de terror Hell Night de 1981, onde conheceu Chuck Russell, Produtor Executivo, que gostou de Darabont e o arrastou para ser Chefe de Transporte no filme The Seduction, suspense de 1982 que também tinha Russell como Produtor Executivo.

Em 1983, Darabont enviou uma carta a Stephen King, pedindo permissão para adaptar um pequeno conto chamado The Woman in the Room, que conta o drama de um homem diante do dilema de sacrificar ou não, com analgésicos, sua mãe muito doente.

King gostou tanto do roteiro que liberou os direitos por apenas um Dólar. Frank dirigiu o curta e teve muito sucesso na tarefa, realizando um material autoral e bem dirigido. Gregory Melton foi o produtor.

King gostou ainda mais do curta. Ele reuniu-se com Darabont um pouco depois e lhe perguntou se ele tinha interesse em adaptar outros de seus trabalhos. Frank comprou, por também por um dólar cada, The Mist e Rita Hayworth and Shawshank Redemption.

Paralelamente, Frank desenvolvia alguns roteiros, entre eles um capítulo para a série de TV M*A*S*H, que foi recusado, mas tinha sido lido por Russell, que propôs parceria em um roteiro que ele tinha vontade de dirigir, o slasher The Blob (Bolha Assassina). O texto foi escrito e começou a ser oferecido a vários estúdios, até chegar à New Line Cinema, onde Robert Shaye – Produtor da série Nightmare on Elm Street (A Hora do Pesadelo) – leu e gostou muito,  mas ao invés de produzir o filme, ofereceu para a dupla Russell/ Darabont a reescrita de A Nightmare on Elm Street Part III (que havia sido feito originalmente por Wes Craven, criador da série, e Bruce Wagner, escritor de horror, mas que não havia agradado Shayer, que queria algo mais comercial). Darabont reescreveu e reestruturou todo o roteiro com Russell, que ganhou a oportunidade de dirigir o longa, muito bem sucedido nas bilheterias, tanto por sua violência gráfica jovial quanto por sua inteligência no enredo, misturando muitos problemas reais dos jovens nos anos 80 com a sobrenaturalidade de Freddy Krueger. O filme foi o primeiro com a assinatura de Frank como roteirista e foi lançado em 1987. A essa altura, seu nome já estava muito vinculado ao meio do cinema de terror.

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Em 1988, deixou de vez as funções no departamento de Direção de Arte – onde trabalhou em vários filmes para se sustentar – para ser oficialmente roteirista. The Blob (Bolha Assassina) escrito anos antes por ele e Russell, que também foi diretor do filme, trata-se da refilmagem do clássico de 1958 estrelado por Steve McQueen, que conta a história de uma gosma que cai dos céus em uma pequena cidade dos Estados Unidos, se alimentando de carne humana e que havia sido desenvolvida pelo governo dos EUA para ser usada como arma de guerra. Claramente, tudo foge do controle e temos uma alucinante jornada slasher B típica dos anos 80, que hoje é clássico Cult. O filme foi muito bem de bilheteria e Darabont se tornou um bem sucedido roteirista de aluguel, tendo escrito a continuação de The Fly (A Mosca) de 1989, o primeiro rascunho de The Rocketeer, uma sequência não produzida de Comando para Matar, de 1985, alguns episódios para a série da HBO Contos da Cripta – 1989/1991 – e vários episódios da série O Jovem Indiana Jones – 1992/1993 – da ABC, que tinha como Criador e Showrunner, George Lucas.

A Sonhada Liberdade

Em 1990, Niki Marvin, Produtora Associada de A Nightmare on Elm Street Part III, convidou Frank pra dirigir o suspense de terror Buried Alive (Sepultado Vivo) para a TV, que teve boa audiência e até veio a ser bastante reprisado em redes de TV de todo o mundo – inclusive no Brasil, à exaustão pelo SBT.

Voltando agora a 1992, depois de Frank ter recusado Boneco Assassino e insistido em dirigir seu roteiro The Shawshank Redemption, e após uma centena de atores muito importantes de Hollywood mostrarem interesse pelos papéis do filme, o cineasta recebeu sinal verde e o longa finalmente entrou em pré-produção em 1993, com orçamento de 25 milhões de dólares.

The Shawshank Redemption (Um Sonho de Liberdade) trata de um assunto que viria a se tornar muito frequente na careira de Darabont: a fragilidade humana, e como nos comportamos diante de situações difíceis, sejam de terror extremo, de incapacidade extrema ou de injustiça extrema.

A prisão de Shawshank servia como metáfora para mostrar que o ser humano não precisa de paredes ou grades para estar preso. As personagens da trama viviam institucionalizadas e presas em si mesmas antes mesmo de entrarem na prisão, e através de Andy, descobrem que podem ser livres, e passam a ser, restando a eles somente o encarceramento físico.

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 O roteiro sensível de Darabont o permitiu trazer todos que ele queria para o projeto, o que o transformou numa grande realização com os envolvidos se tornarando uma família: Tim Robbins, Morgan Freeman, Bob Gunton, Clancy Brown, James Whitmore, Jeffrey DeMunn integraram o elenco, Roger Deakins foi o responsável pela Fotografia, Thomas Newman, pela Trilha Sonora, Terence Marsh na Direção de Arte e por aí vai. Uma série de colaboradores que descrevem com entusiasmo a experiência de trabalho com Frank Darabont, hoje conhecido por encher o set de filmagem com um “clima maravilhoso”.

Para rodar o filme, Terence Marsh e sua equipe procuraram minuciosamente prisões por todo os Estados Unidos que estivessem desativadas, e encontraram duas em especial: Uma em Mansfield, Ohio e outra em Shelbyville, Tennessee. A de Mansfield foi escolhida por sua mistura de catedral gótica e “castelo de Frankestein”, o que a tornava perfeita para um conto de salvação espiritual baseado no texto de um mestre do terror.

Por estar mais de dois anos abandonada, Terence reformou grande parte do complexo e adaptou outras partes para o filme, e quando a reforma acabou, os atores estavam prontos para passarem uma grande temporada em Shawshank. Por se tratar de uma prisão que tirou muita gente de seus estados normais, estar no prédio foi o melhor laboratório possível para os atores.

Apesar do tenso clima da locação, as gravações foram super empolgantes e a filmagem da última cena do longa, na praia, foi como uma grande comemoração, repleta de lágrimas de toda a equipe.

Com o filme pronto, e a Castle Rock feliz com o resultado final e com a sessão de teste em Mansfield sendo um sucesso absoluto, o lançamento finalmente aconteceu em 23 de Setembro de 1994 e acabou por ter dificuldades no mundo real, uma vez que as plateias da época não desejavam ver um filme “de prisão” de duas horas e meia. No lançamento, só conseguiu recuperar 18 dos 25 milhões empregados em uma época onde um “Hit” fazia 100 milhões ou mais nas bilheterias. Nem mesmo as 7 indicações ao Oscar (Melhor Filme, Melhor Ator – Freeman, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Mixagem de Áudio e Melhor Trilha Sonora Original) – das quais não levou nenhuma – fez de Shawshank sucesso como Pulp Fiction, Velocidade Máxima ou Forrest Gump. Mas no ano seguinte, 1995, as outras produções foram ofuscadas pelo renascimento de Shawshank, que morreu nas telonas, para renascer como uma lenda.

The Shawshank Redemption foi o VHS mais alugado no mundo em 1995 e se tornou um dos mais populares filmes de todos os tempos, aparecendo no topo das maiores listas no mundo, e sendo votado como Melhor Filme do Anos 90 e 4º Melhor Filme da História do Cinema Mundial, pelos leitores da “Empire Magazine”. Na lista do Internet Movie Database, por exemplo, já recebeu mais de 20 milhões de votos nos últimos 20 anos e nesse período, Shawshank Redemption sempre esteve entre os três primeiros lugares e é atualmente o número um da lista, superando grandes clássicos no cinema. Por todo o estardalhaço da estreia de Darabont , inúmeras foram as oportunidades que surgiram para dirigir filmes, o que também o colocou em outro nível de percepção, sendo comparado a grandes mestres como Kubrick, algo bem distante do setor B de filmes de terror, onde ele se estruturara...

Leia a parte 2 aqui!

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